100 Mil Mortes: Como Tocar a Vida?

Brasil é o epicentro da pandemia e o mundo descobre que o Trump dos trópicos preside um projeto de morte.

Diante da pandemia o Presidente Jair Bolsonaro consegue uma regularidade abjeta: sem comitê científico, sem OMS, sem ministro da saúde, sem coordenação política entre os entes da federação, sem empatia, sem distanciamento social, sem máscara, sem álcool, sem luto, e o pior, sem nenhuma lágrima.

Viver num país desumano de paliativos como cloroquina, definitivamente, não pode ser o novo normal. Tamanha perversidade precisa ser combatida e denunciada todos os dias. Não com ódio. O ódio é típico dos que banalizam a morte como mecanismo de ameaçar os vivos. Deixou de ser uma causa política partidária ou de preferências de modelos econômicos. Evidente que a democracia está em risco.

Hoje, quem governa o país não tem apreço pelos princípios democráticos. Já deixou claro o quanto despreza o Congresso Nacional, ameaçou mais de uma vez intervir no Supremo Tribunal Federal (STF), zomba das eleições dando o recado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que só são legítimas as eleições que ele ganha, ridiculariza as identidades partidárias e as representações da sociedade civil.

Os jornalistas Alex Tajra e Lucas Borges Teixeira (UOL) colocaram em perspectiva algumas frases do Bolsonaro. Mesmo quando o Brasil chegava à véspera do dia em que atingiria a horrível marca de 100 mil mortes pela Covid (sábado, 07 de agosto), o presidente minimizou, desconversou, deixou pra lá…

Desnecessário tentar contextualizar todas as frases que reproduziremos. Primeiro porque o Jair Bolsonaro é desconexo mesmo, curto e grosso. Segundo porque todas as falas aqui reproduzidas tiveram o mesmo contexto: negacionismo da letalidade da pandemia e a tentativa de estabelecer a normalidade para que o ambiente econômico não fosse infectado. E por último, as infelizes declarações são de domínio público.

MARÇO

Tem a questão do coronavírus também que, no meu entender, está superdimensionado o poder destruidor desse vírus.

9 de março: 25 casos oficiais de covid-19

Esse vírus trouxe uma certa histeria. Têm alguns governadores, no meu entender, posso até estar errado, que estão tomando medidas que vão prejudicar e muito a nossa economia.

17 de março: 291 casos oficiais e 1 morte

Pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar. Nada sentiria. Seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho, como bem disse aquele conhecido médico daquela conhecida televisão.

24 de março: 2.201 casos oficiais e 46 mortes

Não pode ser um jogo de números para favorecer interesses políticos. Não estou acreditando nesses números em São Paulo.

27 de março: 3.417 casos oficiais e 92 mortes

O vírus tá aí, vamos ter de enfrentá-lo, mas enfrentar como homem, pô, não como moleque. Vamos enfrentar o vírus com a realidade. É a vida, todos nós vamos morrer um dia.

29 de março: 4.256 casos oficiais e 136 mortes

ABRIL

O vírus é igual a uma chuva. Ela vem e você vai se molhar, mas não vai morrer afogado.

01 de abril: 6.840 casos oficiais 241 mortes

Quarenta dias depois, parece que está começando a ir embora a questão do vírus.

12 de abril: 22.169 casos oficiais e 1.223 mortes

Ô, ô, ô, cara. Eu não sou coveiro, tá?

20 de abril: 40.581 casos oficiais e 2.575 mortes

E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre.

28 de abril: 71.886 casos oficiais e 5.017 mortes

MAIO

Tem 1.300 convidados, mas quem tiver amanhã aqui, se tiver mil, a gente bota para dentro. Vai dar mais ou menos 3 mil pessoas no churrasco.

08 de maio: 145.328 casos oficiais e 9.897 mortes

Quem é de direita toma cloroquina, quem é de esquerda, Tubaína.

20 de maio: 291.579 casos oficiais e 18.859 mortes

JUNHO

A gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo.

02 de junho: 555.383 casos oficiais e 31.199 mortes

Se quiser falar, sai daqui, porque já foi ouvida. Cobre do seu governador. Sai daqui!

10 de junho: 772.416 casos oficiais e 39.680 mortes

JULHO

Demos azar com essa pandemia, mas vamos sair dessa.

19 de julho: 2.099.896 casos oficiais e 79.533 mortes

Depois de 20 dias dentro de casa, a gente pega outros problemas. Eu peguei mofo, mofo no pulmão.

30 de julho: 2610.102 casos oficiais e 91.263 mortes

Eu estou no grupo de risco. Agora, eu nunca negligenciei. Eu sabia que um dia ia pegar. Infelizmente, acho que quase todos vocês vão pegar um dia. Tem medo do quê? Enfrenta! […] Lamento. Lamento as mortes. Morre gente todos os dias de uma série de causas. É a vida, é a vida.

31 de julho: 2.662.485 casos oficiais e 92.475 mortes

AGOSTO

A gente lamenta todas as mortes, vamos chegar a 100 mil, mas vamos tocar a vida e se safar desse problema.

6 de agosto: 2.912.212 casos oficiais e 98.493 mortes

É desagradável e chega a ser repugnante, mas é necessário deixar registrado. Sei que muitos estão exaustos e não suportam mais acompanhar as injúrias proferidas por aquele que foi escolhido pela maioria dos eleitores para presidir o país. Não podíamos prever a pandemia e o quanto esse drama sanitário exigiria das estruturas do Estado. No entanto, não ser vencidos pelo cansaço é um dever moral. Estabelecer a resistência, talvez, seja a melhor forma de sermos respeitosos com a memória das vítimas e empáticos com aqueles e aquelas que vivem o luto.

Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo. Protesto da ONG Rio de Paz, em Copacabana, pelas 100 mil vítimas da Covid-19 no Brasil, em 08 de agosto de 2020

Valdemar Figueredo
Editor do Instituto Mosaico, Pesquisador da USP (pós-doc), cientista político e pastor