Certa tarde estava eu caminhando por uma rua, próxima de minha residência, quando, “sem querer querendo”, ouvi o pedaço de uma conversa de duas senhoras. Uma senhora de meia idade dizia para a outra:
– O meu marido está internado, por que a taxa de “HUMANIDADE” dele está baixa. Os médicos disseram que ele não pode receber alta, por causa disso… Entendeu? É por causa da taxa de “HUMANIDADE”.
Imediatamente eu comecei a rir. Todavia, eu não estava tirando sarro daquela senhora. Não estava desdenhando de sua situação e muito menos achando graça na sua condição, pois muito provavelmente, ela não teve acesso à educação formal e de qualidade, o que deve ter contribuído para que se expressasse daquele modo. Saliento que compadeci-me muito de seu sofrimento. Só quem já teve um ente querido internado sabe como é difícil.
Deixando de lado os detalhes, permita-me explicar o motivo do riso. Ri porque tive um insight. Pensei no seguinte: assim como a taxa de imunidade é importante para a nossa saúde física, a taxa de humanidade é importante para a nossa condição existencial de seres humanos, de pessoas (indivíduos e sociedade).
Em linhas gerais, a taxa de imunidade diz respeito à capacidade de defesa do sistema imunológico. Esse sistema age em defesa do corpo, combatendo ataques de bactérias, vírus e infecções contra o organismo.
Quando a taxa de imunidade está baixa o organismo fica mais suscetível a doenças. Nesse sentido, dependendo da doença e do tratamento dado ao enfermo, a pessoa pode vir a recuperar a sua saúde, como pode também, em casos mais graves, vir a óbito.
Do mesmo modo acontece com a questão da humanidade. A taxa de humanidade “mede” o quão humanos somos. Quanto menor a taxa de humanidade maior o grau da barbárie. Infelizmente corremos o risco de zerar a taxa de humanidade, e assim, perdermos de vez a nossa capacidade de sermos humanos.
Considerando o nosso contexto atual, alguns pontos me chamam muita atenção. Não é de hoje que podemos constatar que as coisas estão valendo mais do que as pessoas, e, que para muitos, os fins justificam os meios. Logo, chego à conclusão, que tudo isso aponta para a nossa doença ética. De fato corremos o sério risco de perder a nossa humanidade.
Parece-me que estamos vivendo uma baita crise de humanidade, uma espécie de epidemia que atinge todas as classes e todos os credos, uma doença contagiosa que nos faz agir como animais irracionais ou como robôs programados para destilar ódio e intolerância.
Os sintomas dessa peste que assola o nosso tempo são muitos: o discurso de ódio, a intolerância religiosa, o racismo, a homofobia, o preconceito contra a mulher, a indiferença, a falta de empatia e de solidariedade.
Onde vamos parar?
Fica o alerta.
Tenhamos cuidado! A nossa (gênero humano em larga escala) taxa de humanidade está em baixa.
Precisamos nos tratar.