O cansaço do Abel

Logo de saída é bom dizer que este artigo fala mais das minhas projeções e idealizações do que propriamente do estado emocional do técnico do Palmeiras. Uso a figura para refletirmos sobre o nosso universo particular. Não está em questão a pessoa do Abel Ferreira, que definitivamente assumo que não conheço e não me sinto confortável em especular sobre sua saúde mental.

Considero o Abel Ferreira o melhor técnico em atividade no futebol brasileiro. Espero que ao final desta temporada de 2025 levante o caneco de vice-campeão duas vezes: do Brasileirão e da Libertadores.

Dito isto, vamos à coluna da semana.

O gesto já é bem conhecido. De cócoras na beira do campo. Às vezes, o olhar vago, fixo, olhando para nada como a se negar a ver o jogo. Hiato. Descanso que dura poucos segundos. Repentinamente se levanta esbravejando com a arbitragem. Começa a orquestrar a sua equipe como maestro que não suporta descompassos ou perda de ritmo.

O tal do estado anímico de que tanto falam e tão pouco conhecem os boleiros. Com o Abel é diferente. Consegue viradas épicas. Lidera reversões de jogos que pareciam perdidos. Jogadores que voltam para o segundo tempo como se tivessem tomado um choque no intervalo. Mesmo quando o Palmeiras não foi melhor técnica, tática e fisicamente, a força mental da equipe fez a diferença. Nível alto de concentração e capacidade de correr orientados até o final, ainda que sob forte pressão.

Contudo, neste domingo (09) no jogo contra o Mirassol, percebi-o diferente. Não por conta de uma situação específica ou pelo resultado da partida. O Abel estava diferente.

O mesmo gestual, agachado. Por alguns instantes, breves lampejos de dispersão. Passei a querer olhar mais para a beira do campo onde estava aquele homem solitário do que propriamente para a dinâmica do jogo.

À frente, a equipe de jogadores. Atrás, a sua equipe técnica. No entorno, jornalistas buscando ângulos e histórias. Nas arquibancadas, as torcidas na expectativa de espetáculo. Na beira do campo agachado, um homem, sozinho, pensativo.

No meu quarto escuro, entreguei-me aos devaneios de fim de domingo enquanto assistia ao jogo. Não devia ser sobre a partida que ele pensava nos lapsos de tempo em que olhava para baixo. Olhar fixo para o nada. Provavelmente pensava em coisas extracampo. Breves dispersões mentais para suportar o estar ali.

Quando a equipe técnica que monitora índices e desempenhos constata que o rendimento de determinado atleta caiu devido ao cansaço ou a alguma lesão, recomenda, simplesmente, a substituição. E quando o cansado ou lesionado for o técnico?

Ainda que não esteja monitorado por eletrodos, o líder da equipe sente a pressão de ter que manter o padrão que ele mesmo foi responsável por estabelecer ao longo da temporada. Padrão alto, diga-se de passagem.

Há ainda o pós-jogo. Exaustos, os técnicos vão para a coletiva de imprensa para responder as perguntas formuladas por quem parece saber as repostas. Perguntas formuladas por gente que aparentemente não tem dúvidas, só certezas.

Para além dos jogos desgastantes mentalmente, os técnicos são submetidos a sabatinas inquisidoras nada amistosas e “a turma da corneta” que ignora os aspectos humanos e superestima as relações financeiras envolvidas:

– Com o salário que ganha, tem mesmo que suportar pressão, encontrar soluções, entregar resultados, sorrir, ser dócil e jamais, jamais, demonstrar cansaço!

Neste sentido, o esporte mais popular do país demonstra o caráter de um povo ávido por resultados, a despeito da pessoa humana.

Achamos mesmo que performances desportivas/sociais são mais importantes do que aspectos humanos/emocionais.

Ainda na figura projetiva que estou criando, tendo o Abel Ferreira como molde, reduzimos a pessoa ao seu desempenho. Talvez, tão ou mais importante do que conquistar títulos é imprimir derrotas aos adversários.

A torcida pelo fracasso do adversário desperta nossas paixões rudimentares. Justificamos que enquanto torcemos extravasamos nossas emoções represadas. Insultos e reclamações superam nossos cantos de comemorações. A paixão do futebol mexendo com os nossos instintos primitivos que sequer sabíamos que nos habitavam.

Seja nas arquibancadas ou no sofá de casa, entramos em contato com a nossa própria grama. O riso pela derrota deles parece que nos faz mais felizes do que o gol do nosso time.

Diante da arena de emoções, suportando energias de imensurável carga, um homem bem remunerado, não obstante, solitário e esgotado.

Neste artigo, o Abel é um personagem que não representa necessariamente a pessoa do Abel Ferreira. O futebol, uma mera metáfora.

O elemento mais real desta prosa livre é o cansaço. A propósito, Byung-Chul Han, ao escrever sobre a sociedade do cansaço, não sinalizou o quanto o entretenimento monetizado pode ser responsável pela nossa fadiga. A loucura do lucro não poupa pessoas.

Valdemar Figueredo

Editor do Instituto Mosaico, professor universitário, pesquisador (pós-doc USP), cientista social e pastor

OPINIÃO
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