A bicicleta era o objeto de desejo das crianças e adolescentes pobres. O máximo que podíamos esperar como presente de Natal. Enquanto não éramos contemplados, nos enchíamos de coragem para pedir aos vizinhos agraciados:
– Posso dar uma volta na sua bicicleta?
– Pode, mas não vai longe!
As recomendações eram sempre as mesmas, isso quando não rolava um pedido em troca. Convenhamos, “não vai longe” soava sempre relativo.
Uma ou duas voltas pela praça e entregava grato ao dono a sua bicicleta. No dia seguinte, o mesmo pedido e as mesmas limitações do tempo e espaço que devíamos observar.
Eventualmente tínhamos que nos contentar com andar na garupa.
Pelas ruas em que passo, são raras as vezes que vejo crianças e adolescentes montados em bicicletas despreocupados com as distâncias, fazendo do tempo lazer e do objeto de duas rodas brincadeira em grupo. Deixou de ser uma mera aventura para boa parte dos que gostam de velocidade e vento na cara.
A bicicleta se transformou em objeto de trabalho de crianças adolescentes pobres nas grandes metrópoles. Um dos maiores símbolos do trabalho infantil informal da garotada que precisa pegar no trampo.
Alguns brincam enquanto trabalham. Empinam e andam só com a roda de trás. Carros desviam e motoristas impacientes buzinam com a máxima irritação pelo atrevimento. Fazem parte da diversão o perigo e as reações dos observadores, seja de dentro dos veículos ou enquanto pedestres nas calçadas.
Bicicletas elétricas foram adaptadas para os rolés de entregadores que buscam otimização do tempo, de trabalho.
O estímulo ao sedentarismo para a classe abastada foi apropriado como máquina de produção pela classe trabalhadora, que improvisa na informalidade.
Entregadores, não habilitados, em muitos casos menores, poderão faturar mais à proporção em que mais entregarem bugigangas ou alimentos. As desvantagens para os entregadores de motocicletas, maiores de idade habilitados, diminuíram.
Nas portas de farmácias, restaurantes, pizzarias e comércio em geral, são fáceis de encontrar bicicletas nas suas múltiplas versões ao lado de motos. Crianças misturadas aos adultos como colegas de trabalho.
Tempo é dinheiro. Trem a vapor é passado. Navio a vapor é passado. Ciclistas a vapor é bem presente.
Nas praças pelas quais eu passo correndo a pé no trote de sempre, vejo que alguns que estão no corre do dia a dia de bicicleta, eventualmente, se reúnem no canto da praça para queimar uma erva. Passa de mão em mão como se fosse o pão da comunhão, sentido de pertença à comunidade.
Dizem que é para suportar as horas de pedal. Suavizar um pouco. Nada a ver com uso recreativo. É consumo para a sobrevivência. Buscam alento e fôlego para continuar a pedalar. Amanhã, tudo de novo. Agrupam-se por pouco tempo enquanto não chega a comanda da próxima entrega.
Para levar um troco para casa todo dia é necessário suavizar e desanuviar.
Seus avós contam histórias de cargueiros, caminhoneiros e o sistema de trabalho dos estivadores da antiga. Cargas transportadas nos ombros. Trabalho pesado era aquilo. Para despistar as dores e recobrar coragem, isso não dizem os velhos, goladas de cachaça sempre que possível em intervalos em que aqueles homens musculosos se reconheciam como uma comunidade da partilha.
Sempre que possível, brincar enquanto trabalha.
Nas calçadas ou nas ruas, as bikes elétricas são guiadas como objeto de distinção (Pierre Bourdieu) ou como falo (Sigmund Freud).
Simbologias tão complexas e tão diferentes a depender da perspectiva social. Enquanto para uns é objeto de trabalho para potencializar tempo e lucro, para outros, objeto de lazer que anuncia poder econômico e pouca queima de calorias.
O deslocamento territorial pela cidade sem esforços e dispêndio de força pessoal não está acessível para a maioria dos ciclistas do país.
Crianças e adolescentes utilizam a bicicleta como instrumento de trabalho, seja no comércio local dos bairros com entregas em distâncias curtas ou na condição de entregadores de empresas de aplicativos de delivery.
Cadastros de candidatos com idade inferior a 18 anos é proibido e as plataformas, quando detectam, bloqueiam. No entanto, há tutorias no YouTube e no TikTok de como burlar as restrições das grandes como iFood, Rappi e UberEats.
Em muitas casas de famílias pobres neste Natal, mães e pais ao presentearem seus filhos e filhas com uma bike, ainda que não queiram, ou não seja essa a intenção, podem ser interpretados como se estivessem entregando um instrumento de trabalho. Adolescentes tocados pelo sentido de urgência poderão discernir que os seus pais estão pedindo ajuda.
Eu comecei com uma caixa de isopor aos quatorze anos. Vendia picolé no trem no ramal da Leopoldina, região metropolitana do Rio. A molecada de hoje, movida pelos aplicativos, mais provável que prefira uma bicicleta, ainda que usada, como porta de entrada para o mundo do trabalho.