Brasil, o que faço com a minha cara de índia?

Minha família sempre foi daquelas que gostava de abrir, tempos em tempo, álbuns de fotografia nos dias de domingo. Tínhamos vários registros, alguns, levados pelas águas da chuva, em função da ausência de saneamento básico na periferia.

Perder registros pode ser também como perder a memória. Não por estas fotografias em si, que já foram vistas por mim e ora faço o exercício de rememorá-las. Mas a Memória. Aquela que a colonização fincou suas barragens, atravessadas por escravização, integração, assimilação e estilhaços do Golpe militar.

Nas fotografias, meus pais, meus irmãos e eu gostávamos de ver a ação do tempo em nossos rostos, assim como nas fachadas das ruas por onde os nossos caminhavam. Mas algo me chamava atenção em meio às fotos junto aos meus pais e irmãos… Os álbuns que eram somente do meu pai, com alguns dos seus, e os de minha mãe, também com alguns dos seus. A maioria destes álbuns hoje, presentes, apenas quando fecho os olhos.

2026, talvez eu tivesse que buscar na “nuvem” do celular, mas a ancestralidade atravessa o Cosmos. A poesia, do olhar nos olhos da minha gente e das gentes que não conheci. Cada sorriso de prata me convidava a olhar mais de perto.

Bahia, Espírito Santo, pai, mãe. Travessias, não escolha: escravização e expulsão.

Rio de Janeiro, quase anos 2000. Três filhos e uma casa sempre quase inundada. Mas (algumas) fotos continuavam ali. Algumas, em porta-retratos. Amareladas, efeitos do tempo, da água e do descaso.

Sabe, vó, eu vi muitas fotos suas com enxada capinando roça. Vó, eu vi suas mãos trabalhando sem parar. Vó, eu seu rosto, eu vi tua pele. Vó, eu vi teu rosto num monóculo fotográfico, e sabe, levei um susto, era igual ao meu. O fio da memória estava ali e continua bem depois de mim. Eu não vi só sofrimento naqueles rostos. Vi vocês sorrirem envolvidos pelos braços das árvores, no embalo das redes enquanto teciam…

Muito tempo passou e esse fio da memória me puxou mais forte. Como diz a escritora indígena Eliane Potiguara: “Brasil, o que faço com a minha cara de índia?”

“O Brasil” não me disse. As histórias e a espiritualidade me contaram que nascemos dos pingos da chuva, que nossa Nação, Pataxó, “é a água da chuva batendo na terra, nas pedras, e indo embora para o mar”.

Assim fiz as pazes com a chuva, que, quando criança me fazia perder memórias de minha casa, da minha gente e tirava o sorriso de minha mãe. Isso era racismo, mais uma vez. Ambiental.

Graças a Deus me tornei rio. Rio não contido por barragens. Tenho pertencimento, Awery! Bença, avôs. Bença avós.

Carina Pataxó

Indígena da etnia Pataxó. Pedagoga (UFRJ), Mestre em Educação (UFRJ), Doutoranda em Educação (UFRJ) com estágio de Doutorado na University of Cambridge. Pesquisa a literatura indígena. Professora de biblioteca em escola no Rio de Janeiro e professora de redação num curso pré-vestibular para mulheres indígenas. A espiritualidade tem sido um dos seus muitos pensamentos.

OPINIÃO
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