A guerra cultural na versão guerra espiritual

Os hermeneutas do caos inventam inimigos em série.

ROCHA, João Cezar de Castro. Bolsonarismo da guerra cultural ao terrorismo doméstico: retórica do ódio e dissonância cognitiva coletiva. Belo Horizonte: Autêntica, 2023.

João Cezar de Castro Rocha é um respeitável intelectual com vasta produção na área de literatura comparada. No entanto, neste livro, não mira prioritariamente os iniciados. Numa generalização, por minha conta e risco, diria que o seu público-alvo é o brasileiro perplexo com a ascensão contemporânea da extrema-direita.

O autor não se propõe a produzir um texto acadêmico com citações e referências a partir de um quadro de debates consolidado. Opta por análises, no quente, dos acontecimentos em curso. Em prosa livre, muito agradável, diga-se de passagem, Rocha relata o bolsonarismo com traços literários.

Por literário, não é fruto da imaginação ou invenção. O título em questão não é uma obra de ficção. Em constante contato com as narrativas jornalísticas, fático e documentado, Rocha se pronuncia oferecendo uma perspectiva original com o declarado objetivo de intervir na realidade com as suas análises. Chega a ser convocatório dado a gravidade das ameaças em curso à democracia.

A ascensão e rudeza da ultradireita brasileira, na percepção de Rocha, impõem a necessidade de reflexões e ações excepcionais para além das vocalizações dos especialistas.

Os que viveram na realidade paralela durante o governo Bolsonaro sabidamente não eram figurantes da ficção caricata. Rocha faz uma breve digressão sobre a distinção proposta por Freud entre “erro” e “ilusão”. Da perspectiva da psicologia social freudiana, mais importante do que tentar compreender a sociedade pelo viés do erro seria localizar a ilusão. Em suma, a ilusão é a projeção de um desejo (Rocha, 2023, p. 159).

O livro apresenta capítulos fáticos da nossa história do tempo presente em que se evidencia a “dissonância cognitiva coletiva”.

Definitivamente, Rocha não conversa diretamente com o que está posto como “estado da arte” sobre a extrema direita mundial e o bolsonarismo como resíduo desta onda. Mais afeito neste trabalho à etnografia e à escrita jornalística do que aos relatórios e às análises das ciências sociais.

Para entendermos o fenômeno tão multifacetado e dinâmico, ainda em movimento acelerado, são bem-vindas as múltiplas perspectivas de observação e de análise com a pretensão de intervenção na realidade.

Para os cientistas sociais que se sentem desprestigiados, podem até reclamar da falta de rigor acadêmico do autor, mas não da sua falta de conhecimento sobre o que se propõe a escrever.

Rocha, com a sua formação histórica e literária, não tem pudores que o impeçam de perguntar com imaginação e tentar responder com criatividade. Isso pode transparecer “heresia universitária” no sentir de acadêmicos puristas que fazem dos rigores do método o início, o meio e o fim da produção interpretativa. Talvez os puristas eruditos prefiram o comedimento dos gráficos e o afago dos pares em congressos em que são demarcadas as vozes de autoridade sobre a realidade.

Em termos de estrutura, na compreensão do autor, haveria três fatores que sustentariam o bolsonarismo. Noutra figura, três peças do tabuleiro de xadrez bolsonarista.

  1. Adaptação ou atualização da Doutrina de Segurança Nacional.
  2. Revisionismo do Orvil. Livro ao contrário. Suposta ameaça comunista justificaria o emprego da força. A “violência de Estado” é admitida com leniência.
  3. Sistema de crenças Olavo de Carvalho. Consagração da retórica do ódio aplicada à guerra cultural bolsonarista.

Ao defender a tese de que a guerra cultural foi o núcleo do governo Bolsonaro e continua sendo o cerne do bolsonarismo, Rocha elenca fatos da nossa história recente. Exemplos pululam aos montes. Funciona a lógica argumentativa de apresentar uma ideia e a corroborá-la com a citação de fatos empíricos objetivos.

Em prosa livre e eventualmente com transcrição de entrevistas orais, fica evidente que Rocha não despreza o raciocínio lógico e não briga com os fatos. Interpreta os fatos a partir de uma sólida formação intelectual de feição literária e histórica. O motor do governo Bolsonaro foi a guerra cultural. O bolsonarismo atualiza novos capítulos desta suposta guerra. Depende deste alerta frequente do estado de guerra para manter cativa a sua militância, usuária da retórica do ódio.

A guerra cultural, fruto da dissonância cognitiva coletiva, ganha a sua versão religiosa com feição de seita. Setores das igrejas evangélicas enxergam o messianismo no bolsonarismo. A pregação de santidade de manter-se distante das coisas do mundo é adaptada na famigerada guerra cultural cujo objetivo é a superação das estruturas mundanas para estabelecer um governo comprometido com a implementação da agenda moral.

Guerra cultural, por este prisma, ganha contornos de guerra espiritual, disputa por valores civilizatórios. O texto bíblico, notoriamente do Velho Testamento, é acionado para justificar e legitimar a eliminação do outro. Na guerra, toda e qualquer, vencer o inimigo representa a sua rendição ou a sua eliminação.

A história é pródiga em fatos quando a Bíblia foi lida como arma de guerra. Os hermeneutas do caos inventam inimigos em série.

Valdemar Figueredo

Editor do Instituto Mosaico, professor universitário, pesquisador (Grupo de pesquisa Passagens, IFCS-UFRJ), cientista social e pastor. Doutor em Ciência Política (Iuperj, atual IESP-UERJ), Doutor em Teologia (PUC-RJ). Pós-doutorado em Sociologia (USP).

OPINIÃO
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