Pertencer como quem é filho
Boa parte da vida cresci ouvindo “você é filha do dono” repetida à exaustão. Também, sempre relembrada da ideia vertical e desenhada entre “pais e filha”, ainda que diante aconchego de casa. Diante disto, na escola, pensava: aqui tem um conjunto de filhos que precisam se ocupar enquanto os pais trabalham.
A ideia de “filha”, na educação de caráter confessional, reforçou recortes que me pareciam antagônicos: ao mesmo tempo em que me revelavam ser “a menina dos Seus olhos”, também diziam que “minha justiça era como trapo da imundícia”.
Afinal, o que é ser filha?
Em “Nós somos só filhos” da escritora Sulamy Katy, me vi na perspectiva do ‘nós’, como filha do tempo, do vento, do anoitecer. Filha do ar, da mata, do entardecer, do fogo e da água.
E, por falar em água, esses dias me vi pensando nela diante da sabedoria do cantor e pesquisador Mateus Aleluia:
“A água não tem obstáculo para ela. Se o obstáculo está na frente, ela contorna por um lado ou pelo outro. Se os lados se fecham, ela vai por baixo. Se por baixo se fecha, ela vai por cima, mas ela sempre está. Da mesma maneira como ela está aqui, ela está no pico mais alto da Terra também, onde tem o olho d’água. Então, em função disso, eu digo: nós nascemos da água.”
Sou filha da água?
Lembrei, então, de ‘Txopai e Itôhã,’ escrita pelo parente Kanátyo Pataxó, que nos disse que os espíritos da floresta têm para ensinar.
E talvez a água siga me sensibilizando diante do mito (em nossa melhor perspectiva, a do sagrado) de origem do povo Pataxó. Nação já formada por seres não humanos, com seus modos próprios de vida, e, posteriormente, a partir das gotas da chuva, também de humanos, que passaram a aprender.
Hoje, tenho cada vez mais me aproximado das possibilidades de coexistência dos muitos mundos, pluriversos, cujas espiritualidades podem estar interconectadas.
Confio na dança cósmica que é a vida, diria Ailton Krenak.
E, com isso, maior lucidez do que ser filha.
Em “Das coisas que aprendi” de Daniel Munduruku: “Deus fez-se homem para nos divinizar. Somos o sonho de Deus (…)”
Sou filha de Mãe e Pai.
Sou filha da Terra.
Da mãe, segundo o escritor, que nutre nosso corpo com sua energia cósmica.
Somos só filhos.
E “ainda que andemos longe, nunca iremos esquecer disso.” Bem como do direito de pertencer e do espírito livre para voar.
Passei a ser filha quando pertenci, como quem é filho.