Nikolas vai mudar o jogo entre política e religião no Brasil

A ascensão de Nikolas Ferreira (PL) na política nacional é o trunfo mais relevante da direita brasileira no campo partidário nos últimos anos. Ele tem a unção do bolsonarismo, sem trazer junto o peso e os problemas internos de quem sustenta o sobrenome. É jovem, articulado e nato digital. Mas é no campo da religião e política que Nikolas apresenta uma característica singular: ele funciona como um vaso comunicante entre evangélicos e católicos, captando a atenção de dois grupos que a política sempre tratou como eleitorados distintos.

Nikolas nasceu em berço evangélico, é filho de pastor e navega com naturalidade por versículos bíblicos e referências religiosas que reverberam nesse campo. Jair Bolsonaro precisou se provar próximo do mundo evangélico para viabilizar sua candidatura em 2018: foi a cultos, batizou-se no Rio Jordão, passou a citar a Bíblia. Flávio, agora pré-candidato, segue o mesmo roteiro. Nikolas não precisa de nenhum desses gestos para se credenciar como evangélico. Ele já tem isso como ponto de partida.

O que o jovem deputado federal mineiro tem feito é se aproximar dos católicos. Há um ano, eu já havia apontado para esse movimento. Até então, Nikolas já havia recomendado a biografia do fundador da Opus Dei em suas redes, citado livros do padre Paulo Ricardo, que é uma das maiores lideranças católicas conservadoras ativas na internet, e sido convidado por grupos católicos como o Centro Dom Bosco para atividades.

Nos últimos meses, esse movimento se intensificou. Nikolas foi um dos primeiros a buscar aproximação com Frei Gilson assim que o fenômeno católico explodiu na internet. Em janeiro de 2026, durante a chamada Caminhada pela liberdade e justiça, organizada pelo deputado, grupos católicos que participaram rezaram o terço enquanto caminhavam. E outros, como o ex-deputado federal Douglas Garcia, marchavam carregando imagens de Nossa Senhora Aparecida.

O barulho que Nikolas Ferreira tem causado no interior do campo católico é grande. E o maior atestado disso está nas próprias reações que desperta. Para citar apenas dois exemplos recentes, no fim de janeiro deste ano o padre Ferdinando Mancilio criticou abertamente a marcha de Nikolas durante uma missa no maior templo católico do país, o Santuário de Aparecida.

Ainda mais recentemente, no primeiro de fevereiro, durante uma missa, desta vez em Minas Gerais, outro padre disse aos fiéis que aqueles que se sentiam alinhados com o deputado deveriam sair da igreja e que não mereciam receber a eucaristia. Em reação, Nikolas fez o que um político experiente faria: se aproveitou do caso para aprofundar seu diálogo com o mundo católico.

Em vídeo, disse que ele não poderia ser usado para que “o maior sacramento” da Igreja Católica, o “momento de comunhão com Cristo”, fosse negado a um fiel. No mesmo vídeo também defendeu as obras de caridade da Igreja Católica e terminou dizendo que a batalha que enfrenta não é política ou material, mas sim espiritual.

O que Nikolas parece ter entendido é que não existe o voto evangélico. Os evangélicos são milhões de pessoas atravessadas por classe, raça, gênero e dezenas de denominações, que não são um bloco unitário. O que existe são afinidades morais, sensibilidades religiosas e uma gramática compartilhada sobre família, autoridade e ordem, capaz de criar uma enorme zona de comunicação que inclui não só evangélicos, mas também católicos. É aí que o jovem deputado está navegando.

A novidade que Nikolas Ferreira está construindo para a direita brasileira é a possibilidade de tirar o foco dos evangélicos, incluir os católicos e conseguir falar com esses dois grupos ao mesmo tempo, em nome do cristianismo. Se continuar assim, ele vai mudar o jogo.

Rodrigo Toniol

Professor do Departamento de Antropologia Cultural da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ. É também colaborador do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Unicamp. É doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com estágio doutoral na University of California, San Diego (EUA). Coordena o grupo de pesquisa Passagens (IFCS/UFRJ).

OPINIÃO
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