Pai Nosso: Comunitário

A intimidade da oração no quarto seria um convite ao individualismo se não fosse a expressão NOSSO. O Pai é nosso e não somente meu. Oração em duas dimensões: pessoal e comunitária.

Jesus não estava subvertendo a ordem religiosa pomposamente cara para esvaziar a sinagoga, muito menos ensinando um tipo de introspecção que resultasse na solidão.

Olhar a rua da janela nas primeiras horas do dia é agradável. Acordar lento e observar as variações da luz do dia. Quando temos o café neste despertar cotidiano, então a experiência é divina.

No entanto, orar é caminhar na rua seja com chuva ou com sol. O voyeur encontra prazer no observar. Há quem procure na espiritualidade eliminar todo tipo de encontro de risco e mergulhar na observação distante.

A vida contemplativa com sua linda tradição e suas amplas possibilidades não pode ser confundida com voyeurismo estático. Orar é a arte do encontro. Orar é entrar na dinâmica do encontro com Deus, consigo mesmo e com o próximo.

Pai Nosso adverte aqueles que vão ao templo no dia certo, na hora certa, com a roupa certa usando a linguagem certa. Adverte que a religião pode ser algo tão diabólico que o sujeito da oração pode ignorar solenemente quem está perto. O próximo pode ser ignorado porque não frequenta aquela sinagoga, não sabe a hora do culto, não veste roupas litúrgicas e muito menos domina o idioma teológico.

Jesus, antes de ensinar o Pai Nosso aponta para registrar o quanto é feio o exclusivismo dos supostos donos de Deus. Gente que quando nota o outro é para menosprezar. Fraseados eloquentes que dizem bem mais dos seus ressentimentos do que das suas procuras. Hipócritas que preferem os lugares cheios para que suas orações, antes do tocar em Deus, sirvam como ofensas às pessoas.

Ressentidos que agridem enquanto oram. A performance do moralista hipócrita, seja na praça ou no templo, procura a multidão como plateia. Mas para os tais, orar é chamar Deus para perto e empurrar os outros para longe. Linguagem viciada eloquentemente decorada. Vãs repetições que soam aos ouvidos dos outros como agressões.

Alguns religiosos se comportam como se fossem proprietários de Deus, seja porque atinam que o pariram ou porque creem que com seus rituais sofisticados desvendam todo mistérios e possuem Deus nas mãos.

Alguns grupos cristãos não suportam a ideia de dividir Deus com outras tradições religiosas. Ciumentos, comportam-se como se estivessem no registro de marcas e patentes. Deus domesticado e encoleirado. Eventualmente levado para passear. Na relação com outras pessoas que não comungam da mesma fé, os tais proprietários do divino se comportam como se tivessem muito para ensinar e nada a aprender.

Invocam saberes letrados, de preferência na língua inglesa, e ridicularizam as tradições orais, sobretudo as que são ditas no idioma iorubá ou nos idiomas dos índios. Religiosos cheios de arrogância que creem que têm autoridade e falam como se estivessem dando ordens a Deus. Dos seus “lugares de fala” empostam a voz e fazem trovejar fórmulas decoradas, retóricas viciadas, para conectar Deus com a realidade.

Para os tais, orar é boa lábia. Orar é constranger os ouvintes. Orar é reclamar direitos. Orar é se distinguir. Orar é vestir o modelito religioso.

Valdemar Figueredo
Editor do Instituto Mosaico, Pesquisador da USP (pós-doc), cientista político e pastor