Pão Nosso na Quarentena

Lá no deserto Jesus buscava inspiração de vida e resolveu jejuar. Faminto e atento. Quando os jovens procuram descobrir os rumos para suas vidas, alguém por perto sugere que eles precisam se preocupar com o pão.

Transcendência no deserto é interrompida com a concretude das pedras. A vida é dura e para vivê-la precisam fazer alianças. Quem pode ignorar que o mundo se move pelos impulsos resultantes dos tráficos de influência?

Aceitar uma mãozinha amiga hoje para fazer o que quiser da vida amanhã. O coisa ruim parece ter ótimas ideias.

Escrevo em plena quarentena do coronavírus em que as pessoas, reclusas, em isolamento social, estão pensando em rumos. O mundo hipermoderno desacelerou de forma tão brusca que batemos com a cara no espelho. Uma sensação de quarta-feira de cinza do capitalismo.

O certo mesmo é que não vai voltar como era antes. Digo, a recessão econômica chegou sem data para terminar. No mundo globalizado, elogiava-se o novíssimo ambiente em que os indivíduos não venderiam a sua força de trabalho, mas sim os seus serviços. Nada de vínculos. A prosperidade viria da flexibilização e das respostas rápidas às novas demandas.

No idílico mundo neoliberal da interdependência, o trabalhador transformaria pedras em pães sendo gestor da própria carreira na condição de empreendedor.

O advento da Pandemia do Coronavírus é uma inflexão para pensarmos nos rumos que queremos tomar.

O pão será nosso NÃO pela mágica diabólica do mercado que trabalha com a ideia de multidão. Jesus nos ensina a orar com a ideia de coletivo humano.

Assim como o pai é nosso, nada mais natural do que admitir que o pão é nosso também.

Numa casa de muitos filhos e um só pai, todos comem o pão que está à mesa. No aperto, todos sentem falta do mesmo pão. O pai seria capaz de alimentar um filho e deixar o outro morrer de fome?

Os jovens que estão pensando no rumo a tomar deveriam pensar em soluções coletivas. Talvez isso amenize a angústia de não saber o que fazer da própria vida.

O individualismo naturalizado na nossa cultura confunde prosperidade com a capacidade logística de acumular pão sem estragar. Na sabedoria de Jesus, prosperidade tem a ver com a habilidade de repartir sem cobrar.

Há quem confunda pão com dinheiro, tempo com dinheiro, oportunidade com dinheiro, talento com dinheiro, trabalho com dinheiro, profissão com dinheiro, Deus com dinheiro.

Que os quarenta dias no deserto nos purifique. Que essa quarentena sirva para desenvolvermos a sensibilidade espiritual que nos capacita a discernir.

A tentação do Diabo sugere a capacidade de multiplicação, mas nada diz sobre divisão. Jesus recusou. O pão que não pode ser comido junto não sacia, só vicia. Ou o pão é nosso ou é diabólico.

Valdemar Figueredo
Editor do Instituto Mosaico, Pesquisador da USP (pós-doc), cientista político e pastor