O Estado laico alaranjado nos Estados Unidos

Ainda repercutindo as reflexões suscitadas a partir da leitura de Jean-Louis Schlegel, “A lei de Deus contra a liberdade dos homens” [1], neste segundo artigo da série de três, faço breves comentários na perspectiva histórica do laicismo nos Estados Unidos.
Enquanto os Estados Unidos nasceram como expressão da modernidade no registro da pluralidade, inclusive e especialmente a pluralidade religiosa, na Europa, para afirmar o Estado laico, foram necessárias rupturas violentas. O peso político da Igreja Católica na França não teve precedentes históricos nos Estados Unidos. A Revolução Francesa teve que lidar diretamente com uma religião oficial de Estado historicamente estabelecida. Nesse cenário, o Estado Laico não se daria por concessão, mas pelo uso da força.
O laicismo nos Estados Unidos, diferente da França, foi estruturado por religiosos. O individualismo como elemento fundamental da profissão de fé da religião civil norte-americana.
Muitos imigrantes chegaram às colônias da América do Norte atraídos pela liberdade religiosa. Fugiam das guerras religiosas europeias entre católicos e protestantes. Povoamento de um território por parte dos europeus que se consideravam vítimas de intolerância religiosa. Em outros termos: se os colonos não sabiam exatamente como ordenar uma pátria em que religião e Estado estivessem separados, sabiam exatamente aquilo que não queriam. Seja na condição de dissidentes ou de excluídos, os conflitos vividos nos locais de origem na Europa eram uma experiência que não admitiam reeditar. Na Declaração de Independência em 1776, a questão religiosa estava posta como uma das balizas.
Chegaram para habitar as colônias americanas hunguenotes franceses, luteranos alemães, anabatistas, menonitas, pietistas, irmãos morávios, católicos de diversas nacionalidades e tendências, além de judeus. Essas identidades religiosas em condições históricas e culturais comuns, por mais que evocassem a pluralidade, acabaram por formar novas configurações religiosas tocadas pela influência da “consciência americana”.
Os grupos religiosos que chegaram à América passaram por transformações que forjaram novos grupos, tão tocados pela base protestante quanto pelas influências da “consciência americana”.
Constituição Americana de 1787: “Todos os homens terão a liberdade de professar e defender, com argumentos, sua opinião em matéria religiosa”. Primeira Emenda de 1791, avança: “O Congresso não poderá elaborar nenhuma lei relativa ao estabelecimento de uma religião ou proibindo seu livre exercício…”.
Em matéria religiosa, a consciência pessoal precede toda e qualquer tentativa de controle do Estado. O arranjo, neste caso, é radicalmente liberal. Nenhum grupo pode assumir prerrogativas que sugiram a condição de “religião oficial” do Estado por conta de se constituir maioria. A maioria religiosa não suplanta o valor basilar da liberdade de consciência do indivíduo.
O fato é que institucionalmente está bem demarcado nos Estados Unidos a separação entre Religião e Estado e que “Deus” é onipresente na sociedade civil estadunidense. Remete às ascendências dos pais fundadores, mas, por certo, mesmo no pluralismo multiétnico e multirreligioso, a religião civil se sobrepõe como algo comum aos diferentes.
A “consciência americana” tem a ver com a “percepção de um papel messiânico para a América”. A ideia de “destino manifesto” aplicado à nação aparece fortemente como definidora da religião civil americana.
Nacionalismo cristão fundamentalista abrasileirado
Em curso no Brasil um projeto de poder inspirado no nacionalismo cristão fundamentalista alaranjado.
O individualismo como princípio, o moralismo como meio, as redes de comunicação como moeda de troca e o empoderamento dos empreendedores da fé como fim.
No projeto em curso, a igreja é um mero detalhe, Jesus é tratado como cabo eleitoral, o discurso de ódio suplanta a mensagem de misericórdia e a Bíblia é carregada como amuleto que abre portas.
Pastores que não se enquadram no nacionalismo cristão fundamentalista moreno são tachados de esquerdopatas comunistas.
Engraçado que deixamos de ser enquadrados na condição de hereges. Não se trata de interpretação bíblica no campo religioso, mas de disputa por poder na arena política.
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[1] SCHLEGEL, Jean-Louis. A lei de Deus contra a liberdade dos homens. São Paulo: Martins Fontes, 2009.Foto destacada: A nada convencional “pastora de celebridades” Paula White foi nomeada para comandar o ‘gabinete da fé’ do governo Trump.