Nenhuma a menos: entre o grito e a esperança

O ano de 2025 chega ao fim sob um cenário alarmante: o aumento dos casos de feminicídio em todo o país. Mulheres — em sua maioria assassinadas, espancadas ou mutiladas — pelas mãos daqueles que diziam ser seus “companheiros”. No dia 7 de dezembro, estive em São Paulo no ato da Mobilização Nacional Mulheres Vivas, realizado simultaneamente em diversas cidades do Brasil.

Enquanto nossos gritos entoavam “Nenhuma a menos!”, eu olhava ao redor e via cartazes com os rostos de tantas vítimas, vidas abruptamente interrompidas, o que me levava às lágrimas. Cada grito — “mulheres vivas!”, “nenhuma a menos!”, “queremos viver!” — saía embolado de dentro de mim, engasgado. Poderia ser eu. Poderiam ser minhas primas, minhas futuras filhas ou sobrinhas. E a pergunta insistia: por que estamos aqui, tendo que gritar o óbvio, implorar pelo direito de viver? No fundo, eu sei a resposta. Nós sabemos. Acontece que o cenário que nos escandaliza é o ponto final. E o que vem antes? Quais são as linhas que costuram essas práticas de violência contra nós?

Há alguns dias, me reuni com mulheres da minha comunidade de fé. Iniciamos nosso encontro a partir de uma pergunta simples e profunda: “Para você, o que é ser mulher?”. As respostas nos levaram a muitos caminhos: medo, responsabilidade, cuidado, vulnerabilidade, força, culpa. No entanto, uma fala, em especial, de uma querida colega, tornou-se um potente indicador dessa experiência: “Ser mulher é verbo”.

Ser mulher é estar em constante ação. Agimos para cuidar dos outros e de nós mesmas; agimos para nos proteger; agimos para que o outro exista; agimos para que nós continuemos existindo (organizando atos, denunciando injustiças, levantando nossa voz); agimos para nos alimentar, para aprender a nos defender, para seguir sonhando e, sobretudo, para continuar vivendo.

Como afirma a teóloga Ivone Gebara, “o feminismo é a expressão de um velho mal-estar que muitas mulheres sentiram ao longo de suas vidas, pois fizeram-nas crer que eram portadoras, desde o nascimento, de uma inferioridade biológica, social, cultural e religiosa”. Esse mal-estar, mais uma vez, transforma-se em ação: denunciando as classificações impostas sobre nossos corpos e desejos e organizando movimentos de libertação frente a uma realidade que, há tanto tempo, tenta nos aprisionar.

Quero chamar atenção, aqui, para o fator religioso que intensifica esse mal-estar. Ele pode ser observado desde a construção de Deus como uma figura masculina até a instrumentalização da Bíblia para legitimar interpretações e políticas patriarcais que operam como mecanismos de dominação das mulheres. De acordo com a pastora e teóloga Odja Barros, a “lupa” utilizada pelos pais da Igreja na interpretação dos textos bíblicos colaborou para a formação de construções simbólicas que perpetuaram a exclusão e a subordinação social e religiosa das mulheres (Barros, 2020, p. 64).

Trazendo outra teóloga feminista para esse texto, Karen Colares destaca que “se consolidou, na história e na teologia, a centralidade da figura masculina e sua trágica companheira: a inferioridade do feminino” (Colares, 2024, p. 15).

Enquanto mulher protestante, de tradição batista, sempre estive em contato com o texto bíblico e aprendi a lê-lo a partir das interpretações que me eram ensinadas. Durante muito tempo, não percebi as mulheres presentes nessas narrativas. Minha leitura viciada, não permitia. Ainda hoje, esse exercício segue sendo desafiador.

Na reunião com as mulheres da minha comunidade de fé, mencionada anteriormente, percebi que essa experiência era comum a todas nós. Diante disso, nos perguntamos: mesmo reconhecendo que a Bíblia carrega marcas e raízes patriarcais, seria possível que ela também se configurasse como um instrumento capaz de organizar e inspirar processos de libertação?

Foi graças a outras mulheres que cruzaram meu caminho, especialmente teólogas feministas, que consegui me enxergar, enquanto mulher, dentro da minha própria tradição religiosa. Pronto. Ser mulher é verbo. E, mais uma vez, precisamos agir.

Ao adotarmos uma leitura feminista da Bíblia, entramos em disputa com interpretações hegemônicas que, historicamente, invisibilizaram as mulheres, apagaram suas experiências e diminuíram sua importância no projeto de salvação e na construção do Reino de Deus. Além disso, essas leituras também ocultam a presença negra e africana na formação do povo de Deus. Trata-se, portanto, de uma hermenêutica que não é apenas patriarcal, mas também racista, o que torna urgente o resgate do papel central que mulheres negras ocuparam na história bíblica.

O clima de final de ano nos convoca a esperançar: exige de nós uma postura de renovação e transformação. Muitas pessoas recorrem à espiritualidade para que esse sentimento as alcance. Eu mesma faço esse movimento. Enquanto mulher cristã, me volto a Jesus. Recordo que ele veio ao mundo por meio de uma mulher pobre; que sua genealogia é atravessada por mulheres subversivas como Tamar, Raabe, Rute e Bete-Seba; que, em seu ministério, foi sustentado por mulheres, como Maria Madalena; e que, após a ressurreição, escolheu aparecer pela primeira vez a uma mulher. Graças ao corpo feminino, Jesus nasceu e se encarnou no meio de nós. Essa escolha, aponta para um lugar.

No entanto, o caráter libertador do movimento de Jesus foi, ao longo da história, sufocado por uma hermenêutica patriarcal dominante. Por isso, seguimos sendo chamadas à ação: para buscar, nas entrelinhas do texto bíblico, aquilo que, de uma forma ou de outra, já experimentamos em nossas vidas — ou que ainda insistimos em fazer nascer.

Continuaremos agindo para que a lente patriarcal não siga instrumentalizando o movimento de Jesus. Apropriar-nos dessa leitura é um passo indispensável para que nossa espiritualidade não continue atravessada por mecanismos de opressão. Para que a gente possa se libertar e libertar outras mulheres. Isso exige ação, consciência crítica e a convicção de que o texto bíblico carrega, também para nós, mulheres, uma mensagem profundamente libertadora.

Meu desejo é que, em 2026, possamos rasgar os tecidos gastos, furados e sujos que sustentam cotidianamente as práticas de violência contra as mulheres. E que possamos tecer novas redes, com tecidos novos, costurados por nós mesmas, com nossas cores, nossos jeitos e nossas belezas.

Referências Bibliográficas:

BARROS, Odja. Flores que rompem raízes: Leitura popular e feminista da bíblia. São Paulo: Editora Recriar, 2020.

COLARES, Karen. Despertar: os primeiros passos para construção de teologias feministas. São Paulo: Editora Recriar, 2024.

GEBARA, Ivone. Prefácio. In: Despertar: os primeiros passos para construção de teologias feministas. São Paulo: Editora Recriar, 2024.

 

Anna Paula Pedra

Doutora em Ciência da Religião (PUC-SP), Mestre em Políticas Sociais (UENF) e professora de História. Pesquisadora da religião e suas materialidades. Inspirada pelo encanto cotidiano, permeado por riso, forró, fé e corrida, escrevo o que sinto.

OPINIÃO
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