“Deus dá àqueles que o procuram um meio de encontrá-lo.” Ed René Kivitz
Seu filho ou sua filha não quer mais “ir para igreja” …
Para começar, eu tenho uma pergunta básica: você já tentou conversar com ele? Ouvir os seus motivos e entender suas razões? Você certamente vai falar que já, mas eu estou falando de ouvir mesmo, não retrucar e nem dar respostas prontas; só ouvir os argumentos, o jeito que eles pensam e encaram suas questões de fé, suas experiências religiosas, suas percepções sobre a vida.
Sinceramente, eu acho que você ainda não conversou e nem parou para ouvi-los. Você já tentou criar um ambiente onde eles têm liberdade para questionar, se expressar, demonstrar os pontos de vista, o que não concordam a respeito da igreja, do pastor ou da doutrina? Convenhamos, você mesmo não concorda com tudo, nem tem certeza de tudo…
Você agora já deve estar pensando que a “abordagem” que estou propondo é liberal e permissiva demais, que dessa forma você irá criar uma “brecha” ainda maior para que ele se afaste definitivamente dos “caminhos do Senhor”.
A verdade é que o que estou oferecendo, nada mais é que uma proposta de construção dialogal bem trabalhosa – será que você está disposto? – que não nos garante certezas e nos coloca em uma situação bem delicada:
1º de entender de uma vez por todas que nós não sabemos ser pais, que ainda estamos aprendendo;
2º de que os seus filhos também não nasceram sabendo ser filhos, também estão aprendendo;
3º de que, aquele esforço de sermos bons pais e mães “cristãos” não termina na infância;
4º de que essa proposta, diante das perguntas e questionamentos mais profundos de nossos filhos, e de que, infelizmente, não sabemos – não é possível saber todas as respostas –, irá escancarar nossa vulnerabilidade.
Dentro dessa perspectiva, a postura de autoridade – exercida muitas vezes de forma violenta – e de sabedor de todas as coisas, vão para o ralo.
Eu quero te dizer uma verdade que talvez seja dolorida e de difícil aceitação: a sua insistência não manterá seu filho na igreja; nem será sua chantagem emocional que manterá a fé do seu filho; as suas expectativas – morais, religiosas, políticas, etc – não serão totalmente acatadas; não serão suas palavras de ordem e condenação – “estou decepcionado com você”, “Deus vai te cobrar”, “Ele está vendo o que você está fazendo” – que reanimarão o desejo do seu filho estar novamente na igreja. Se isso funcionou para você na adolescência ou em algum momento da vida – e você sabe que aquilo que funcionou também te trouxe traumas – não necessariamente irá funcionar com o seu filho hoje… até porque você não pode esquecer de um ponto básico e óbvio, que é: você não converte ninguém, muito menos o seu filho.
A fé em Jesus não funciona na base da obrigação, do convencimento, da argumentação lógica, muito menos da apelação violenta e do abuso psicológico. Jesus não arromba a porta do coração de ninguém – “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele, comigo” – , muito menos impede de irmos embora da sua presença – “O mais novo disse ao pai: ‘Pai, quero a minha parte da herança’. Assim, o pai repartiu a propriedade entre eles”.
Se essas são verdades para mim e para você, que somos adultos, também é uma verdade para o seu filho adolescente ou jovem, e quanto antes você as entender e assumir, mais rápido você poderá, primeiro, tentar resgatar a sua relação com o seu filho, para em seguida, oportunizar que ele testemunhe através de você um outro jeito de ser cristão e uma nova compreensão sobre o Evangelho – mais leve, mais livre, mais real. Isso sim irá realmente impactar a vida dele, pode ter certeza, bem mais que as brigas, discussões e “climas pesados” em nome de Deus – ou em seu próprio nome? – que você ainda jura trazer benefícios, achando ser a única forma de lidar com o “desvio” do seu filho – você nunca saberá se ele realmente está “desviado” de Deus ou se está apenas “desviado” do padrão e da imagem que você montou de Deus para você achando que essa seria a única imagem possível, verdadeira e universal de Deus.
Eu sei que você era feliz quando estava tudo sob controle, quando ele ia com você em todas as programações da igreja, orava, cantava… O “tudo sob controle”, na verdade, nada mais era que o período da vida chamado “infância”, onde não há muitas escolhas, vontades e autonomia. Nessa fase, ele não era consciente de si, de suas vontades, da sua experiência com Deus e nem do mundo a sua volta. Mas, agora é preciso admitir que o seu filho cresceu – o que não significa que ele saiba de tudo –, mas que agora, como você, ainda está em construção. Com vontades, desejos, compreensões sobre a vida, sobre Deus, que no fundo, você mesmo proporcionou que ele tivesse ao longo de sua criação – você não queria criar um filho para o mundo? Que fosse inteligente e independente? Que quando você não estivesse mais presente ele pudesse viver bem com as próprias pernas?
Um pedido que eu tenho para você: não se culpe!
Para com essa autodepreciação, esse desespero infantil. Você fez o que pode, com as ferramentas que tinha, com a teologia que entendia ser a mais adequada, com o auxílio da igreja que estava disponível. Não ache que você fez algo de errado e que agora você precisa tomar as rédeas da situação com força – “deixei meu filho solto demais” –, achando que enfiar a experiência cristã dentro da cabeça dele dependia somente de você. Você fez a sua parte… levou na igreja, ensinou a orar, ele até se batizou, foi na escola bíblica, nos acampamentos, não é verdade? Mas a fé em Jesus não é só sobre isso e nem depende apenas da adesão de uma rotina da vida religiosa dominical para se tornar real.
A questão é que é preciso admitir que não existe um único jeito, que a vida não acabou e que você ainda tem mais coisas a fazer, a aprender, repensar e descobrir, seja da sua própria experiência de fé ou a do seu filho.
O que você pode fazer a partir de agora: ouvir, conversar, perguntar, demonstrar que você está por perto, que você respeita as opiniões e vontades dele – você vai ter que aprender a negociar, não estamos mais falando de uma criança. Não esqueça que a fé em Jesus não se constrói com medo, humilhação ou com argumentos teológicos, muito menos da forma que você acha que deveria acontecer – Deus não depende de você para se manifestar e nem fala apenas do jeito que você entende, Ele tem outros caminhos para além das nossas lógicas e percepções, concorda? Essa relação familiar que tem a fé cristã no centro precisa ser construída na liberdade, por meio de um testemunho diário e sincero, sem máscaras, sem hipocrisias, sem essa de “eu sei de tudo”, e, principalmente, no amor incondicional pelo seu filho, de quem ele está se tornando, de quem ele já é. Chega de reproduzir aquele jeitão antigo “era para você ser assim, pensar assim, ser assim” – ou pague para ver onde esse jeitão vai levar sua família (distância, relações destruídas, viverão do passado, entre outras coisas bem tristes).
O meu último pedido para você: não torne o seu filho o “motivo de oração” da família, não exponha a vida dele na igreja, nem coloque ele nesse lugar do “desviado”, daquele que não é alguma coisa que todos estavam esperando que fosse, daquele que precisa ser resgatado.
Você não sabe o desserviço que prestará agindo assim, fechando o caminho para um possível retorno, impondo sobre ele uma culpa imensa e alimentando mais ainda o seu desejo de se afastar de tudo que esteja relacionada à fé cristã. Ore sim, mas sem esse peso.
Estamos igualmente “perdidos”, conscientes ou não, somos todos dependentes de Deus. Trate ele apenas como seu filho, como alguém “normal”, como alguém que tem algo a falar, a acrescentar, com uma experiência de vida igualmente válida como aqueles que estão na igreja têm – desconfie se o “estar na igreja”, de fato, é garantia de algo.
Lembre-se, a vida “eterna” do seu filho não está nas suas mãos. Esteja somente por perto e disponível agora, o céu pode ser agora – “Eu vim para que vocês tenham vida plena”. Cada um com o seu tempo. Você não é o dono do corpo, da consciência ou da fé do seu filho. Acredite no processo, no diálogo, que a salvação é uma experiência pessoal-coletiva, e que ela florescerá no tempo próprio, em um ambiente de liberdade, de graça, no tempo e da forma que for. Até lá, ame, respeite, se relacione bem com ele, ore, busque fazer perguntas novas – você não sabe de tudo, admita –, se aproxime por meio das dúvidas em comum e não das respostas.
Dá trabalho, mas esse é o caminho, vai valer a pena.