Culto no quintal: memória afetiva

Na sexta-feira, dia 20 de março, à noite, recebemos em casa a notícia do falecimento da minha avó materna. Diante daquele momento, pensamos na única coisa possível a fazer: reunir o restante da família. Essa ideia surgiu de forma quase automática para todos nós, de um jeito que dispensava qualquer comunicado específico. Queríamos ficar juntos, ainda que fosse por apenas algumas horas. O quintal da minha avó onde muitos de nós crescemos tornou-se o principal ponto de encontro da família. Ali já foi palco de muitos outros eventos, alguns alegres, outros tristes. Naquela noite, assim que soubemos da partida da minha avó, fomos imediatamente para lá.

Estar reunidos era uma forma de dar suporte uns aos outros e de não sofrermos sozinhos. Entendo que cada pessoa, ou cada família, tenha uma maneira própria de lidar com situações difíceis, principalmente com o luto. No caso da minha família, queríamos estar juntos. Vi cada parente chegando, um por um. Depois de algum tempo, uma prima sugeriu que olhássemos os álbuns de fotografia. E foi isso que fizemos. Mergulhamos em diferentes imagens, relembrando histórias já conhecidas e ouvindo outras pela primeira vez. Nesse movimento, cada um acabou separando uma ou outra foto para si.

Uma das fotografias que guardei mostrava um grupo de mulheres reunidas na sala da minha avó. Uma delas segurava uma Bíblia. Mostrei a imagem à minha mãe e perguntei sobre o seu contexto. Ela me disse que aquilo era um ponto de oração. Segundo ela, minha avó, assembleiana raiz, realizava muitas reuniões como essa em casa. Não sabemos ao certo o ano da fotografia, mas imaginamos que seja da década de 1990.

Saber o contexto daquela imagem me fez refletir sobre muitas coisas, mas principalmente sobre a pesquisa que venho desenvolvendo no mestrado em antropologia: cultos evangélicos em casas. Talvez pareça estranho pensar em trabalho acadêmico em um momento como esse. Entretanto, existe uma relação entre essas duas coisas e é justamente para ela que chamo atenção neste texto.

Uma das coisas que influenciaram o meu atual projeto foi justamente o quintal de que venho falando desde o início. Foi a partir de um exemplo familiar que surgiu a ideia de olhar para casas que servem como ponto de pregações evangélicas. Não aquele de trinta anos atrás, onde nem nascida eu era, mas outro, mais recente.

O quintal da minha avó abriga outras casas além da dela; ou seja, trata-se de uma área externa compartilhada. Um tio, também evangélico e morador de uma dessas casas, abriu ali um ponto de pregação poucos anos atrás. Estive presente, inclusive, no dia da inauguração, embora hoje esse ponto já não funcione mais. Até então, eu pensava que aquela tivesse sido a primeira vez em que o quintal acolherá um ponto de pregação. Recentemente, esse mesmo tio me contou que minha avó gostava dos cultos realizados ali, e encontrar aquela fotografia me fez entender ainda melhor por que aquele ponto a deixava feliz.

Uma das coisas que mais gosto no meu projeto é justamente o distanciamento das grandes estruturas dos templos facilmente localizáveis na cidade. Interesso-me, antes, por aquilo que pode passar despercebido, como os cultos no interior de uma residência. Pode ser divertido voltar o olhar para o simples.

As casas podem ser transformadas em muitas outras coisas, como muito bem desejarem quem as habitam. Com isso, enquanto escrevo este texto, também me lembro da minha avó paterna, que nos deixou no ano passado, e de como ela transformava a sua sala de estar em um lugar de culto ao ligar a televisão.

Minha avó paterna tinha a mobilidade reduzida em razão de um AVC sofrido anos antes e, por isso, já não conseguia frequentar os cultos de domingo em sua igreja. Há pouco tempo sua congregação passou a transmitir ao vivo as programações internas. Depois disso, todo domingo à noite, assistia as pregações. Aquele era o momento dela.

Encontrar essa fotografia e lembrar das minhas avós me faz pensar que a minha pesquisa também seja, em alguma medida, sobre a minha própria família, tanto a materna quanto a paterna. E, talvez, eu precise olhar para ela com mais carinho.

Jéssica Pinheiro

Mestranda em antropologia (PPGECC/UFRJ), bacharel em ciências sociais (UFRJ) e pesquisadora do grupo Passagens. Se interessa por temas que envolvem o campo evangélico, materialidades e a Baixada Fluminense, seu lugar desde que nasceu.

OPINIÃO
As ideias aqui apresentadas são de responsabilidade exclusiva de quem assina o texto, não correspondendo, necessariamente, ao posicionamento do Instituto Mosaico.