O turismo religioso é um fenômeno antigo que mobiliza os crentes, sejam eles hindus, islâmicos, judeus, budistas, esotéricos, católicos, protestantes, evangélicos, espíritas ou religiosos de matriz africana.
Busca-se reviver nos espaços sagrados as experiências das antigas gerações. A busca pela mística dos ancestrais. Tentativa de conectar espiritualmente revivendo a história e pisando em solo santo.
Observo no meu entorno religioso a versão do turismo promovido por certas lideranças evangélicas. Caravanas guiadas por pastores e líderes de igrejas em ascensão com destino para Europa, Turquia e Israel.
No caso das caravanas para os Estados Unidos, a busca não é pelas relíquias do passado, nem pelas ruínas de antigos templos, muito menos pelos sítios arqueológicos. Caravanas vendidas como imersão nas grandes igrejas que merecem ser olhadas lá e imitadas aqui em chão brasileiro, supõem.
Agências customizam viagens para Israel por motivos óbvios. A Terra Santa que fora pisada pelos heróis bíblicos.
O pacote Turquia oferece o tour pelas sete igrejas do apocalipse: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laudiceia.
Conquanto os lugares sejam atrativos para os consumidores evangélicos, os guias das caravanas são figuras estratégicas para fidelizar pequenos grupos, oferecer os pacotes para os clientes em potencial e andar à frente do rebanho nos cenários de searas e pastos verdejantes.
Ganham o quê com isso? Depende.
Há várias modalidades de contratos. Cito dois exemplos hipotéticos.
Um pastor local que consegue fechar o pacote para 40 membros da sua congregação, provavelmente, será gratificado viajando de graça com direito a uma acompanhante. Plano quase caseiro em que o elo entre as agências e os crentes recebe como comissão o pacote de viagem.
Enquanto, noutro extremo, líderes evangélicos de grande expressão, que superaram a condição de pastor local, exercendo influências regionais ou nacionais, além das módicas gratificações como translado e hospedagem, recebem comissões proporcionais ao montante arrecadado pelas agências.
Seria leviano da minha parte dizer que esses contratos correm em segredo. Prefiro ser mais cuidadoso dizendo que tais contratos não são transparentes para os turistas crentes que se habituaram a crer sem ver.
Pela narrativa até aqui, estamos diante de relações comerciais legais.
Evidente que no processo de atração dos clientes foram acionadas as relações de confiança. Um líder religioso se apresentou como guia turístico. A propaganda apontou tanto para um lugar como para uma pessoa de referência. Não é qualquer um que consegue atrair turistas com poder aquisitivo para fazer roteiros religiosos.
Podemos não gostar dos expedientes relatados, mas daí a dizer que é ilegal, seria um exagero.
No entanto, sob o ponto de vista ético, podemos denunciar a imoralidade. A falta de transparência sugere oportunismo, para dizer o mínimo.
Um número significativo de líderes evangélicos que exploram este filão de mercado não utiliza apenas o carisma pessoal. Fazem uso ostensivo das instituições religiosas. Embora não lhes pertençam, usam as estruturas eclesiásticas como se fossem suas.
Conquistam clientes para comprar os pacotes de viagens durante o culto entre o momento de cânticos e a pregação. Autorizam que os funcionários das agências montem barracas nos corredores e espaços anexos ao templo. Disponibilizam os dados do rol de membros para que o telemarketing das agências personalize as abordagens e customize os pacotes.
Seja para arregimentar 40 pessoas ávidas pelo batismo no Rio Jordão ou 400 pastores para imersão nas megaigrejas trumpistas, os líderes dispostos a fechar contratos com agências de viagens especializadas em roteiros evangélicos geralmente usam as estruturas eclesiásticas.
Neste caso, pode não ser uma obrigação legal, mas, certamente, é um dever moral ser o mais transparente possível.
Quanto cada parte está ganhando com o tour espiritual de dezenas, centenas ou milhares de fiéis? É segredo? Não interessa?
Caso a igreja e as suas estruturas não fossem usadas para atração de clientes, vai lá, dava para chamar isso de relações privadas.
Sugiro um paralelo trazendo para nossa reflexão outra paisagem que também faz parte do roteiro das igrejas evangélicas.
Guias de turismo evangélicos nos roteiros santos fazem lembrar dos cabos eleitorais evangélicos nas eleições.
Ambos, guias de turismo e cabos eleitorais, que atuam para fidelizar evangélicos, não são afeitos à transparência. Os contratos firmados não são publicizados como se fossem de interesse público. Fica parecendo que essas relações são meramente de feição fraterna cristã.
Uma coisa é usar as fachadas tombadas dos templos históricos para dizer que ali está uma igreja, outra bem distinta é o uso das estruturas eclesiásticas para fins políticos eleitorais.
Diferente do guia de turismo, o pastor cabo-eleitoral ganha proporcionalmente à quantidade de eleitores convencidos e não a pacotes de viagens vendidos.
Por óbvio, quem consegue enfileirar duzentos eleitores na congregação não vale tanto como os guias que conseguem fidelizar dois mil ou dois milhões de turistas. Patamares de influência e valores pessoais distintos.
O mercado sabe aferir os valores, seja tanto dos que conseguem atrair turistas, quanto dos que conseguem definir votos. Não sabemos quais, mas deduzimos que as contrapartidas estão para além da retórica em torno dos valores alegados na agenda moral.
A essa altura, será que alguém acredita que oração no templo por candidatos em período eleitoral, com ampla repercussão nas respectivas mídias e redes sociais dos grupos evangélicos afeitos às disputas eleitorais/partidárias, é de graça?
O voto carimbado pela oração custa caro. Bem mais caro do que um pacote de viagens do turismo religioso.
Quem consegue fazer a mediação entre crentes e agências de viagens age como se fosse natural ser gratificado com comissão.
Quem consegue transformar congregações evangélicas em zonas eleitorais age como se fosse merecedor de reconhecimento, gratificações, e quiçá, comissões.