A religião sobreviverá ao ChatGPT?

Pergunte ao ChatGPT se Deus existe. A resposta mais provável será uma recusa educada: não há prova definitiva nem da existência, nem da inexistência de Deus. Possivelmente, a máquina também discorrerá sobre tradições filosóficas e experiências religiosas nas quais Deus importa.

Nos últimos anos, dois fenômenos paralelos envolvendo inteligência artificial e religião se intensificaram. De um lado, pesquisadores passaram a constatar que pessoas, sobretudo da geração Z, se sentem cada vez mais confortáveis para ter conversas existenciais e religiosas com chatbots. De outro, estão se multiplicando as IAs especializadas em religião.

O Text With Jesus, por exemplo, permite simular conversas com Jesus, Maria, José e os apóstolos, oferecendo respostas em tom de aconselhamento espiritual. O Bible Chat funciona como uma espécie de ChatGPT bíblico, que organiza suas respostas a partir das Escrituras. O Magisterium AI, por sua vez, apresenta-se como uma IA doutrinária católica, voltada a esclarecer dúvidas teológicas, doutrinárias e litúrgicas com base no magistério da Igreja, na bíblia e na tradição religiosa. Para quem não é cristão, há também o Ask Buddha, que promete emular conversas com Buda e traduzir ensinamentos budistas para perguntas cotidianas.

A tentação é tratar tudo isso como uma excentricidade contemporânea, um novo passo na direção de uma modernidade hipertecnológica desnorteada. Mas esse não é o caso.

Ainda na década de 1960, Joseph Weizenbaum criou no MIT um dos primeiros chatbots da história, chamado ELIZA. O programa operava por reconhecimento de padrões e substituições de palavras. Em um de seus roteiros, simulava uma conversa terapêutica, devolvendo ao usuário suas próprias frases em forma de pergunta.

ELIZA produzia nos usuários a impressão de escuta, a ponto de Weizenbaum se surpreender com a facilidade com que pessoas atribuíam ao programa inteligência, sensibilidade e profundidade existencial. Segundo Margarita Guillory, professora da Universidade de Boston e especialista em religião e mundo digital, uma das primeiras perguntas dirigidas a ELIZA pelos usuários foi: “Você é Deus?”.

A pergunta dirigida à máquina pode parecer afetada, mas carrega um princípio fundamental, hoje bem estabelecido nos estudos antropológicos e sociológicos da religião. Religião não é, nem nunca foi, feita apenas de fé e crença. Toda experiência religiosa depende de mediadores materiais, como livros, imagens, relíquias, púlpitos, santos, velas, rádios, televisões, búzios, corpos e vozes. São mediações que transformam o invisível em visível, que materializam a experiência do sagrado e a tornam concretamente presente, sem que nenhuma delas esgote a vida religiosa.

É nesse ponto que a surpresa diante da interação religiosa com a inteligência artificial se normaliza. Vista dessa perspectiva, a IA não substitui a religião. Pelo contrário, se inscreve em uma história muito mais longa de mediações concretas por meio das quais as pessoas se relacionam com o sagrado e o tornam cotidiano.

Daí decorre uma lição dupla.

Entre os mais entusiasmados com essas tecnologias, circula a fantasia de que elas seriam capazes de suplantar a humanidade pré-GPT. Nessa versão, a inteligência artificial empurraria as pessoas para longe da religião e completaria, enfim, o desencantamento do mundo. O argumento é conhecido. Repete os arroubos tecnofílicos do século XX, quando cada nova invenção parecia anunciar a chegada definitiva de uma humanidade desencantada.

Entre os apocalípticos da IA, a conclusão é semelhante, embora a avaliação moral seja oposta. Também aqui a inteligência artificial aparece como sintoma final da modernidade. Só que, em vez de redenção, ela anunciaria sua derrocada. A atitude é gêmea das reações antimodernas que, a cada nova técnica, denunciaram a ruína da experiência autêntica, a perda da comunidade e a hecatombe espiritual produzida pela modernidade tecnológica.

Aos dois grupos, recomenda-se prudência. O GPT não é o fim da religião. É a chegada de um novo mediador do sagrado. Não é pouco. Mas tampouco é o primeiro ou será o último.

Rodrigo Toniol

Professor do Departamento de Antropologia Cultural da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ. Coordena o grupo de pesquisa Passagens (IFCS/UFRJ).

OPINIÃO
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