Ler é medicinal

Tenho tomado algumas pílulas para dores, não física, só depois percebi isso, que é mais uma tempestade no peito, então pensei me dar à emoção, é o melhor que posso fazer por mim.

Engolir o amargo nem sempre é venenoso, como o doce nem sempre é para o agrado. Sofrer não é obrigação, nem lapidação de caráter, nem opção como dizem umas religiões, mas há algo inerente ao sofrimento: a superação ou sucumbir.

Claro, que digo isso sob a ótica de Leonardo Boff: “todo ponto de vista é a vista de um ponto.”

Particularmente passo pelas dores da vida, acreditando que é medicinal ler Manoel de Barros, tentar entender Clarice Lispector, deitar na cama com Hilda Hilst, se divertir com Millôr Fernandes, sentar à mesa com Cora Coralina, ir à missa com Adélia Prado, acreditar em Guimarães Rosa e chorar com Conceição Evaristo!

Acredito que para a gente ser autoconsciência é urgente singularizar o tempo, pluralizar o conhecimento, centrar no ideal!

Para fazer a vida sábia é indispensável sustenta-la na Filosofia, conversar com profundidade, silenciar-se a tempo, caminhar com a psicanalise!

Para ter certezas na vida ouve-se Sócrates! Para o propósito da vida, às vezes resolver que, um mais um são dois, basta! Para ter-se uma vida boa tem de se deitar com a cabeça leve, os pés quentes, e o coração sincero!

Para sentir-se vivo pode se ouvir Titãs, dançar com Alceu Valença, se apaixonar com Marisa Monte e descobrir AnaVitória!

Para a vida valer a pena, tem de se desapegar dos vinte anos, acreditar que o caminho é mais longo, ressignificar o passado, caminhar para os oitenta anos e antes dos quarenta aprender a se amar!

Para pensar à vida, disseca-se as próprias experiências!

Para viver: no joelho, usa se mertiolate; para dor de cabeça, toma-se aspirina; para reumatismo, diclofenaco; para depressão, deve acreditar, que assim como existe o sol, também há cura! E para arca caída, vai-se a uma rezadeira; para amputação, nesse tempo, graças a Deus, usa-se próteses!

E para àquele grande dia, tão aguardado: a gente grita, pula, se abraça, a gente canta Gonzaguinha e mostra toda felicidade! Porque no fim, para viver, quando a dor nos atravessa só nos resta atravessar a dor!

Mirele de Moura

Nordestina do Maranhão, estudou teologia na Faculdade Batista do Rio de Janeiro, vive atualmente em Tocantins. É autora do livro: “Iconoclastia Poética - da religião, da angústia, do erotismo e outros assuntos”. Atualmente divide seu tempo entre seus alunos e a escrita de seu segundo livro.

OPINIÃO
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