Há um curiosíssimo fenômeno legislativo ocorrendo no Brasil. Espalha-se país afora, em câmaras municipais, assembleias estaduais e no Congresso, iniciativas de combate à cristofobia. O teor dos projetos se repete, a estrutura é basicamente um copia e cola, e o objetivo é fundamentalmente o mesmo, proteger o cristianismo e as imagens cristãs de ataques. Por que cristãos se sentem perseguidos sendo que constituem mais de 80% da população do país?
Ao longo dos últimos cinco anos cristofobia foi tema de debate em pelo menos duas dezenas de casas legislativas pelo país. Considerando apenas a Câmara dos Deputados, atualmente há três projetos em tramitação dedicados a ele. As propostas têm como objetivo comum transformar em caso de Estado aquilo que seus autores definem como ofensa, sátira ou uso desrespeitoso de símbolos, imagens e crenças cristãs, sobretudo no Carnaval, em eventos públicos e em manifestações culturais ou políticas.
Há pouco mais de um mês, a Câmara Municipal de Manaus aprovou o Programa de Combate à Cristofobia na cidade. A proposta prevê ações preventivas, campanhas de conscientização, proteção às vítimas, medidas de reparação e integração entre órgãos municipais e instituições religiosas cristãs. Além disso, instituiu o Dia Municipal de Combate à Cristofobia. Propostas com estrutura quase idêntica tramitaram nas casas legislativas da Bahia, de Belo Horizonte e em câmaras de cidades do interior de São Paulo.
Há um descompasso evidente entre a proliferação dessas iniciativas e a posição majoritária ocupada pelos cristãos no Brasil. É por isso que o fenômeno interessa mais como dado sociológico do que como matéria legislativa. Há, nesse caso, pelo menos duas dimensões em jogo. De um lado, o uso político da cristofobia como gramática capaz de traduzir, em linguagem parlamentar, o sentimento de minoria reprimida experimentado por setores da maioria cristã. De outro, a sensação efetiva de risco, perigo e preconceito relatada por muitos cristãos no país.
No repertório político, a cristofobia opera entre dois polos. Em certos momentos, os interesses cristãos são apresentados como legítimos porque expressariam a vontade da maioria da população brasileira. Em outros, essa mesma população é descrita como minoria perseguida por suas convicções religiosas. A força do termo está justamente nessa oscilação. Ele permite reivindicar o peso político da maioria e, ao mesmo tempo, a autoridade moral da vítima.
Há mais de uma década, em 2013, quando Marco Feliciano foi escolhido para presidir a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, Jair Bolsonaro declarou: “Como capitão do Exército, sou um soldado do Feliciano. A agenda antes era outra, de uma minoria que não tinha nada a ver. Hoje, representamos as verdadeiras minorias.” O próprio Feliciano, ao comentar a reação negativa ao seu nome, atribuiu a controvérsia primeiro à “perseguição religiosa” e depois à “cristofobia”.
No campo político, cristofobia é um recurso retórico de minoritização dos cristãos, fenômeno analisado pelo cientista político Joanildo Burity. Ao mesmo tempo, em muitas igrejas, sobretudo pentecostais, a sensação de perseguição e preconceito é real. Um elemento decisivo para alimentar esse sentimento é a circulação de notícias sobre ataques a cristãos em países nos quais eles são minoria, como os episódios recentes de violência contra comunidades cristãs na Nigéria.
Opera aí aquilo que Christina Vital tem chamado de retórica da perda: a percepção de uma iminente perda de força na luta do bem contra o mal diante de um ambiente político e social visto como cada vez mais liberal.
A multiplicação de projetos dirigidos à cristofobia deve ser lida nesse registro. Ela revela o humor de grupos religiosos que, mesmo sendo maioria demográfica, já não se reconhecem como maioria cultural incontestável. No fim, esses projetos protegem menos os cristãos do que a ideia de que precisariam ser protegidos, retroalimentando a sensação de risco.