O recuo da minoria evangélica

Excesso de política eleitoral e escassez do evangelho de Jesus.

Igrejas evangélicas naturalizaram a agenda moral da extrema direita como se fosse sua declaração de fé. Uma pequena minoria, ainda evangélica, recua envergonhada. Percebe que seus espaços estão cada vez mais restritos nas comunidades de fé. Alijamentos que pioram a cada novo período eleitoral.

Minoria, aparentemente cada vez menor, vocaliza a perplexidade que um dia foi do profeta bíblico Habacuque: “Até quando, Senhor?”

Enquanto a maioria maravilhada se expande pelo espaço público com a liderança dos lobistas da fé, uma minoria, aparentemente cada vez mais mínima, se recolhe envergonhada.

No recuo, destaco três gestos intencionais dos evangélicos envergonhados.

Primeiro, os que se foram com a intenção deliberada de jamais voltar. Não perderam a fé em Deus, mas perderam completamente a vontade de pertencer a uma comunidade de fé. Perderam o vínculo comunitário. Não é raro conversar com pessoas que dizem estar fora da igreja e que se identificam como evangélicas. Histórias de dores e sequelas. Vítimas de abusos espirituais estão desencorajadas para tentar novamente se sentar à mesa da comunhão.

Em segundo lugar, os que recuaram com a intenção de recuperar o fôlego para posteriormente repensar as rotas. Por enquanto, desnorteados e incrédulos com o nível de comprometimentos partidários, em nome de Jesus, dos seus irmãos. O recuo é estratégico, tentativa de ganhar tempo para superar o estupor. Ouço depoimentos de pessoas nessa situação e geralmente aparece nos relatos o incomodo da solidão. Ainda que estejam inseridas nos grupos, preferem não falar o que pensam. Ainda que frequentem os cultos, se sentem culpadas por não conseguir dizer “amém” as orações em que candidatos estão ajoelhados para serem ungidos como escolhidos de Deus.

Por fim, os que foram expurgados. Neste caso, o recuo não foi escolha pessoal. Pessoas que foram empurradas para fora, afastadas sob o singelo argumento que não são suficientemente conservadoras. Por confessar convicções republicanas e democráticas alguns fiéis foram sutilmente convidados a sair da igreja e procurar outra para pertencer. Em alguns casos dramáticos, líderes comunicaram aos seus liderados que eles estavam espiritualmente desligados da igreja. Outros, sequer procuraram os “rebeldes” para uma conversa presencial, bloquearam do grupo de WhatsApp da igreja sem dar qualquer satisfação do real motivo do expurgo.

No livro de Habacuque, diante da iniquidade do povo que se achava o tal, o profeta intercedeu a Deus por ajustes de contas. A justiça é torcida e prospera quem está no esquema de transformar a igreja em base eleitoral. Igrejas vitrines que expandem os seus territórios. Ocupam espaço como se estivessem prevalecendo na famigerada guerra cultural.

Algumas dessas igrejas já ultrapassaram o ponto do não retorno. O constrangimento em que o discurso era moldado para não escandalizar os irmãos com apelos políticos arrojados, não faz sentido nas igrejas que têm donos e clientes.

Nas igrejas que funcionam no sistema de franquia, em que o proprietário e os investidores ditam o rito e o ritmo, ovelhas/clientes não berram, glorificam de pé!

O povo em êxodo, por uma questão de sobrevivência na travessia do deserto, esperava o maná cair do céu. Hoje, igrejas de franquia desaprenderam a olhar para o alto. Articuladas politicamente, são lembradas em orçamentos secretos e recebem ofertas através de emendas Pix.

Como está na moda usar fora do contexto as palavras ditas por Jesus, “que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita” (Mateus 6:3).

A bancada evangélica, atravessada pelos lobistas da fé, por uma questão de sobrevivência, escolhe os versos bíblicos que prefere ler literalmente.

Quanto aos meus movimentos nessa quadra histórica, solidão me define. Fazendo eco a voz perplexa do profeta: Pôr-me-ei na minha torre de vigia, colocar-me-ei sobre a fortaleza e vigiarei para ver o que Deus me dirá e que resposta eu terei à minha queixa (Habacuque 2.1).              

Valdemar Figueredo

Editor do Instituto Mosaico, professor universitário, pesquisador (Grupo de pesquisa Passagens, IFCS-UFRJ), cientista social e pastor. Doutor em Ciência Política (Iuperj, atual IESP-UERJ), Doutor em Teologia (PUC-RJ). Pós-doutorado em Sociologia (USP).

OPINIÃO
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