No último domingo (12), completei em ótimo tempo os 21 km da ASICS Golden Run 2026, versão cidade do Rio de Janeiro. O percurso lindíssimo pela orla, do Leblon à Marina da Glória, no Aterro do Flamengo. A temperatura ajudou na agradável experiência de desfrutar do caminho, entre 15°C e 17°C.
Com a medalha no peito, na mão direita a bebida isotônica e na esquerda a banana d´água. Premiação digna para quem só queria sentar-se no gramado do Aterro do Flamengo e entregar-se ao devaneio olhando de cima a linha de chegada e o seu entorno. Diversos comportamentos dos corredores que chegavam e daqueles que atrás das grades os aguardavam.
No meu tímido devaneio, o sol apareceu com um discreto bom-dia. O vento frio acarinhava o meu corpo suado. A cheiro de maresia como bafo divino.
Fiquei nessa condição por um tempo místico, não mensurável no tempo cronológico. Importante esclarecer aos leitores da coluna que a contemplação após corrida ou treinos é uma mania consolidada que tenho por décadas. Meditação andando, espiritualidade enternecida que depois da corrida reencontra o ritmo da respiração e o pulsar da vida.
O vento sopra onde quer…
Hora de levantar-se. Andar os poucos metros até a estação do Metrô da Glória parecia um desafio maior do que fora correr 21 km. Doía tudo. Músculos rígidos ameaçando câimbras.
Na passarela sobre a primeira pista, para quem saía da orla da praia ou da Marina da Glória, a distância de algo em torno de 1km da linha de chegada, os retardatários, com sofreguidão, seguiam como dava para completar a corrida.
Na segunda passarela, ainda sobre as pistas do Aterro do Flamengo, tive uma nova perspectiva. Por ali passamos antes de ter feito a dobra pelas ruas internas que circundam a sede do OAB, Hospital Santa Casa da Misericórdia e o Aeroporto Santos Dumont. Só após esse estirão até o Centro é que os corredores retornariam para a reta que os levaria à linha de chegada após passarem pelo MAM e o Monumento aos Pracinhas no Aterro do Flamengo. Portanto presumo que quem passasse por debaixo da passarela onde eu estava precisaria ainda percorrer algo em torno de 4km.
A pista de corrida, àquela altura, já havia voltado à condição de área de lazer com ciclistas, skatistas, cachorros e gente caminhando. Os responsáveis pela limpeza urbana davam sinais de que iriam iniciar o turno de trabalho. Cenário de final de festa excepcional e retorno ao cotidiano ordinário.
Eis que desponta o improvável. Bastante longe dos retardatários, lá vinha um corredor com a camiseta da ASICS Golden Run 2026. Curioso, postei-me no alto da passarela, inclinado no corrimão da grade, para ver a cena até quando pudesse. Ele vinha lento. O número de inscrição com o chip identificador não estava na sua camiseta. Ele pusera sobre o menino/rapaz que estava deitado na cadeira de rodas adaptada.
Destemido com a sua lentidão chegou perto de onde eu estava e pude vê-lo melhor. Olhei para os lados e não havia ninguém na passarela além de mim. Sem plateia. Na pista, só o pai trotando com o filho para chegarem juntos. Do meu lugar, aplaudi, aplaudi e aplaudi. Ele olhou de onde estava e acenou levemente agradecendo.
O filho inerte, aparentemente sem apreender todos os estímulos ao redor. Quem de longe olha fica à procura de um diagnóstico, de algum laudo localizador, de algo que defina a pessoa a partir da ideia de doença.
No meu olhar enviesado, apareceu o termo pessoa com paralisia cerebral em plena corrida de superação de distâncias. Embora a imagem em nada remetesse a ideia de paralisia.
Quando eles passaram, vendo-os ir, pelas costas, os últimos entre os retardatários, entreguei-me ao pranto. Solenes, poeticamente fluíam pelo asfalto com a dignidade de vencedores.
Sozinho, com uma medalha no peito, o meu sentimento não era de tristeza ou pena, mas de admiração e completa comunhão. Que cena! Que epifania!
Chorei querendo retornar para a pista para seguir ao lado deles. No entanto, precisei admitir que não tinha fôlego nem força para tanto. No limite, entreguei-me ao choro solitário.
Nós, que somos pais de filhos especiais, aprendemos com o tempo que eles não pesam a ponto de nos tornar lentos. Eles são os maiores motivos para termos fôlego novo para prosseguir. Eles não estão reduzidos a um diagnóstico que vira sentença.
O tempo místico é diferente do cronológico. As distâncias são relativas para quem se reconciliou com o próprio ritmo.
A linha de chegada é um mero detalhe, o que almejamos mesmo é seguir no percurso possível com eles. Contemplando cenários, indo contra o vento em dias sem sol, sem patrocínios e muito menos equipes, seguimos. Conquanto, eventualmente, sem perceber, deixamos a condição de contemplativos e nos tornamos a paisagem.
Afirmando a graça que tem relação com a misericórdia e problematizando o suposto mérito que deriva da arrogância, Jesus subverteu a lógica e a ordem quando disse: Os últimos serão os primeiros.