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Resenha

Eclipse de Deus

por Valdemar Figueredo · 21.04.2020

Ética no sentido estrito, segundo Martin Buber, tem a ver com as possibilidades de respostas do indivíduo frente às situações sociais. O ético enquanto o confronto do indivíduo com as suas possibilidades. As decisões são tomadas mediante critérios e são julgadas como certas ou erradas, justas ou injustas, verdadeiras ou falsas. Para além das análises das ações sociais a ética tangencia para o grau de conhecimento que a pessoa tem de si mesmo. Seja no seu aspecto externo (relacional) ou introvertido (graus de consciência da pessoa) a ética lida fortemente com a subjetividade humana (BUBER, 2007, p. 92).

O religioso no sentido estrito apresenta outro tipo de relação: o indivíduo com o Absoluto. O desafio é não atribuir ao Absoluto as meras projeções humanas. A relação religiosa pressupõe o conhecimento de algo muito além do próprio Eu do crente. O Absoluto que designamos como Deus, permite, admite e visa relação pessoal com o indivíduo.

“Se dessa maneira concreta consideramos a relação entre as duas esferas a partir do religioso, percebemos sua forte tendência de irradiação sobre toda a vida da pessoa, o que provoca ampla mudança de estrutura: uma religiosidade viva procura produzir uma ética viva” (IBID, p. 94).

A título de exemplificação dessa conceituação, Buber cita as interfaces do ético e do religioso a partir da legislação do Sinai. A Constituição que o Divino propõe a Israel não se restringe a esfera ética, mas pretende suscitar a sensibilidade para o sagrado. “A meta apresentada ao povo não é que ele seja um povo ‘bom’, mas um povo ‘santo’ (…) Sede santos porque eu sou santo” (IBID, p. 100).

O cristianismo foi influenciado por duas poderosas culturas: judaica e helenística. Sem entrar em discussões de grandes complexidades históricas, não se ignora que essas heranças implicaram em concepções religiosas e éticas bem específicas.

Enquanto a concepção de “povo santo” é uma clara influência judaica, a concepção de “indivíduo” remete a herança helenística. Portanto, o cristianismo, seja no seu aspecto religioso ou ético, desenvolve a ideia de interioridade. A relação com Deus e as convicções éticas são manifestações fundamentalmente interiorizadas. A relação pessoal com Deus precede a ideia de pertença ao “povo santo”. Portanto, conclui Buber que “o cristianismo é ‘helenista’ na medida em que desiste do ‘povo santo’ e passa a conhecer apenas uma santidade pessoal” (IBID, p. 101).

Encontrar Deus num tempo em que parece que ele simplesmente não está. O pensamento de Buber é relacional quando atribui o conhecimento do outro ou o conhecimento de si mesmo somente na dinâmica EU e TU. Fica nítido que Buber não se restringe ao papel de pensador neutro que olha e analisa de fora o que chama relação do indivíduo com o Absoluto. Trata-se de relatos de vivências. O pensador crente frente aos mistérios do Absoluto. Essa é a perspectiva de Buber.

Quando ocorre o eclipse, a claridade do sol não é perceptível para um observador comum. Isto não permite deduzir que o sol não está lá no seu “lugar”. A figura utilizada por Buber para falar do Absoluto na modernidade contorna esses sentidos. Eventos históricos e pensamentos modernos, em boa medida, exerceram o efeito de obscurecimento de Deus. Não foram poucas as pessoas no breve e terrível século XX que suspeitaram da sua ausência ou mesmo da sua existência. Buber aborda a ilustração do eclipse de Deus para destacar que, apesar de tudo, no que concerne aos fatos históricos e aos limites vividos pelos povos na modernidade, em plena escuridão planetária, Deus está vivo, ainda que eventualmente não seja perceptível.

Existe um eclipse de Deus. Muitos foram os processos que conduziram ao obscurecimento. Buber viveu uma época de grandes conflitos. O eclipse sentido pela sua geração antes de ser filosófico foi existencial. A fé em Deus depois da Segunda Guerra Mundial seria possível? A barbaria humana colocava em questão o caráter de um Deus que aparentemente preferia não se pronunciar.


RESENHA

BUBER, Martin. ECLIPSE DE DEUS: considerações sobre a relação entre religião e filosofia. Campinas, SP: Verus Editora, 2007

Valdemar Figueredo

Editor do Instituto Mosaico, professor universitário, pesquisador (Grupo de pesquisa Passagens, IFCS-UFRJ), cientista social e pastor. Doutor em Ciência Política (Iuperj, atual IESP-UERJ), Doutor em Teologia (PUC-RJ). Pós-doutorado em Sociologia (USP).

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OPINIÃO
As ideias aqui apresentadas são de responsabilidade exclusiva de quem assina o texto, não correspondendo, necessariamente, ao posicionamento do Instituto Mosaico.

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