Estufa de egos

Dando uma de Chicó, personagem da obra O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, “Não sei, só sei que foi assim”. Não me pergunte pela fonte e saiba que adaptei o causo ao meu modo. Fica em evidência uma profissão específica, mas não é para ser ofensivo, poderia ser substituída tranquilamente pelos ofícios de professor, engenheiro, médico, padre, pastor, taxista, pedreiro, jornalista, analistas de dados/sistemas/redes/marketing…

Absolutamente, nada pessoal contra a profissão em pauta. Mas, vamos ao causo e deixemos de escusas.

A estrada de terra que cortava um campo vasto e bem verdinho. Do Jipe alto, avistou um pastor, velhinho, que conduzia o seu rebanho no vale. Depois de dirigir por horas sem interagir com ninguém, o motorista, jovem, resolveu pisar na terra e se aproximar do trabalhador rural. Enquanto o visitante trajava bota estilosa e roupas caras, o local estava vestido de modo frugal.

O jovem esguio e confiante, o velho arqueado e comedido.

– Bom dia, senhor?

– Bom dia, meu jovem!

– Desculpa a invasão, mas passando fiquei curioso quanto à quantidade do seu rebanho. Desci para lhe fazer um desafio. Não sei se o senhor vai topar. Mas, se eu adivinhar quantas ovelhas estão lhe seguindo hoje aqui, o senhor me dá uma?

O velhinho ressabiado, com matinho no canto da boca, agachou, respondeu que sim. Não transmitia nas expressões faciais qualquer tipo de emoção. Aceitou o desafio sem empolgação com o jeito peculiar dos matutos mineiros desconfiados.

O jovem foi ao seu Jipe, pegou o seu notebook, conseguiu se conectar à internet com os seus apetrechos tecnológicos do carro e do celular e entrou no site da NASA.

Depois de umas duas horas alternando olhares para a tela e para o rebanho, recorrendo a Inteligência Artificial (IA), calculou e organizou o banco de dados, para finalmente chegar perto do velhinho para lhe anunciar o resultado.

– O senhor tem 1.324 ovelhas, e quatro podem estar grávidas.

O velhinho não fez cara de espanto, contudo admitiu que o rapaz estava correto. O número era exatamente este.

Com ares de vitorioso, com certa empáfia, o rapaz pegou o bicho e o acomodou no seu Jipe. Carregava o bicho sem deixá-lo encostar na sua roupa de grife. Parecia carregar um troféu repugnante que sequer olhava. Jogou o bicho na carroceria do carro como se estivesse empilhando produto.

Quando ia dar a partida no carro, o velhinho calmamente lhe propôs um novo desafio. Na verdade, era tudo que o rapaz queria, que o velho não se desse por vencido. O Jipe era tão alto que para falar com o moço o velho precisava olhar para cima. A posição de superioridade era evidente. Pneus do tipo estufa-egos.

– Menino, e se eu adivinhar a sua profissão, você me devolve o meu bicho?

Estava esperando mais, no entanto, naquele final de mundo, aquele homem tão isolado e desconectado da realidade, o rapaz resolveu aceitar a aposta. Não era um ato altruísta para o pastor recuperar a sua ovelha perdida, mas uma nova chance para demonstrar a sua superioridade.

– O senhor é advogado!

– Como adivinhou?

– Por quatro razões.

– Diga-me quais são as razões?

– Primeiro, pela frescura; segundo, veio sem que eu o chamasse; terceiro, me cobrou para dizer algo que já sei; e por fim, nota-se que não entende porcaria nenhuma do que está falando: devolve já o meu cachorro!!!!

Valdemar Figueredo

Editor do Instituto Mosaico, professor universitário, pesquisador (Grupo de pesquisa Passagens, IFCS-UFRJ), cientista social e pastor. Doutor em Ciência Política (Iuperj, atual IESP-UERJ), Doutor em Teologia (PUC-RJ). Pós-doutorado em Sociologia (USP).

OPINIÃO
As ideias aqui apresentadas são de responsabilidade exclusiva de quem assina o texto, não correspondendo, necessariamente, ao posicionamento do Instituto Mosaico.