A oração do Pedrinho

A religião gosta de indicar coisas difíceis e complexas que só os especiais conseguem fazer. Apontam para as distâncias. Quem olha para Deus, nesses ambientes, olha vagamente para longe, seja para o horizonte ou para as nuvens. Tudo muito cerimonioso.

A performance religiosa pode ser bonita e até proporcionar gratificações para os envolvidos. No entanto, cansa, esgota e frustra.

Quando Jesus ensinou aos seus amigos a orar, ele não disse “saiam”. Apontou para a direção oposta e disse “entrem”. O mestre não indicou nenhum endereço, muito menos sugeriu distâncias.

Quando quiser orar, entra no seu quarto, fecha a porta e conversa.

Numa quinta-feira chuvosa na Favela da Babilônia/Chapéu Mangueira conversávamos sobre as nossas experiências com o conteúdo da Oração do Pai Nosso. Éramos poucos.

Pedrinho (nome fictício), 11 anos, estava na roda de conversa. Calado, atento e pensativo.

Cheguei a pensar que o nosso estudo bíblico popular no formato conversa, diálogo pé no chão, estava abstrato e fora do alcance dele. Talvez, pensei, durante o nosso lanche compartilhado as coisas ficassem mais claras.

Como sempre fazia, no fim do encontro, lanchou e ficou esperando que alguém lhe desse algo para levar para casa.

Para ele, “o pão nosso” era literal.

Tudo que comia na igreja, conseguia uma porção para levar. Em casa, dois irmãos menores e a mãe, dependente química.

Pedrinho se comportava como provedor da casa. Não poucas vezes, descia a ladeira Ary Barroso para tentar a sorte à beira mar, na avenida Atlântica, lugar nobre, turístico, da cidade maravilhosa, Rio de Janeiro.

Naquela quinta-feira chuvosa, depois do encontro, estava fechando as janelas e apagando as luzes. As pessoas foram descendo as escadas e percebi que o Pedrinho parecia querer ainda falar comigo.

Como sempre fazia, antes de subir a ladeira e ir embora, ele me deu um abraço apertado e perguntou baixinho para que ninguém por perto ouvisse:

— Na minha casa não tem quarto, nem porta. Como eu faço para falar com Deus? Eu também não tenho pai.

Pedrinho leu os meus olhos, se contentou com o meu silêncio e bolinhos de chuva que levou para casa.

No dia seguinte, providenciamos uma cesta básica para a família dele.

Veio a pandemia.

Numa igreja pequena de favela, de pessoas simples, o pão nosso foi multiplicado e repartido. Não sei explicar, mais de cinquenta famílias se beneficiaram mensalmente do milagre da multiplicação e partilha do pão.

Tudo começou com a oração do Pedrinho. Na tentativa de conseguir uma cesta que pudesse manter a família dele, o milagre do pão aconteceu de novo.

Valdemar Figueredo
Editor do Instituto Mosaico, Pesquisador da USP (pós-doc), cientista social e pastor
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