Ailton Krenak: não se come dinheiro

Em destaque a pertença comunitária em que a moeda de troca não é chamada pelo nome de dinheiro.

Ailton Krenak reivindica saberes ancestrais para propor as redes de economia solidária como o futuro possível.

Estava em São Paulo a convite do pastor Ed Rene Kivitz para participar do terceiro congresso do Conversas Pastorais nos dias 11 e 12 de outubro de 2024. As conversas giraram em torno do tema “Haverá futuro?”, com a palestra principal do Ailton Krenak.

No hotel onde os palestrantes estavam hospedados, os encontros eram fraternos. Gente que lia e ouvia, mas que pela primeira vez via perto. Neste entusiasmo enquanto tomava o café da manhã, esqueci a hora e perdi o transporte enviado para fazer o translado até o local do evento. O motorista da van dera a partida e eu fiquei para trás.

Fui para o saguão do hotel disposto a pegar um táxi. Daí me deparei com o anfitrião do evento. O Ed Rene Kivitz disse que os retardatários (eu, Lucas Louback e Magali Cunha) podíamos ir com ele que estava só esperando o Ailton Krenak.

O que a princípio parecia um desencontro se transformou “no encontro”.

No carro guiado pelo Ed, ouvíamos o Krenak contar sobre a sua crescente vontade de ficar mais em casa e viajar menos. Contudo se deslocava pelo Brasil ciente da sua responsabilidade. Tornou-se um símbolo e sabia da sua missão de vida.

O território da família indígena do Ailton Krenak fica na divisa de Espírito Santo e Minas Gerais. Ponto de referência importante, município de Resplendor (MG) às margens do Rio Doce.

Na oralidade indígena em que a sabedoria não se ensaboa, Krenak comentou sobre como a circulação do dinheiro estava impactando a tradição.

O costume era os jovens e adultos proverem o sustento das famílias com caças, pescas e coletas. Assim que voltavam das suas aventuras nas florestas, os moços levavam para os velhos as partes que lhes cabiam. Não era uma questão apenas de compartilhar comida, mas de se assentar com calma para receberem através da tradição oral saberes e viveres.

O fluxo de vida nas conversas para além das demarcações do tipo “tempo é dinheiro”. Para os povos originários em geral, e para os Krenaks em especial, nessa nossa prosa, tempo é vida repartida.

Evidente que essa experiência tradicional da cultura indígena foge à lógica capitalista de venda de mercadorias no mercado. Trata-se de redes de solidariedade e cuidado mútuo. Não existe a ideia de dependentes e provedores. Todos são ativos na circulação de vida.

Até que começou a circular o dinheiro, inclusive, através das políticas sociais compensatórias do governo. Embora positivo sob o ponto de vista de justiça social e distribuição de renda, trouxe novidades culturais que deslocaram os fluxos de convivência dos indígenas em questão.

O deslocamento aconteceu como um processo lento, mas evidente. Os jovens já não se assentavam mais nas portas dos velhos para dividir as caças, pescas e coletas. Não havia mais o tempo no modo lento do fogão à lenha no cozimento para moços e velhos comerem juntos.

O dinheiro circulando alterou a cultura num ponto simples e profundamente sensível. Ganharam tempo e perderam o veio da conversa demorada. A cultura é dinâmica, mas nesse caso, mostrou-se demolidora na transformação de um hábito ancestral.

Na leitura proposta por Ailton Krenak, no banco da frente de um carro a caminho de uma igreja evangélica, para falar sobre o tema “Haverá futuro?”, o acento de ênfase recaiu sobre o sistema de troca baseado no sentido de pertencimento.

A pertença comunitária em que a moeda de troca não é chamada pelo nome de dinheiro. Afetos afetam e no futuro valerão mais do que minerais estratégicos das terras raras.

 

Valdemar Figueredo

Editor do Instituto Mosaico, professor universitário, pesquisador (Grupo de pesquisa Passagens, IFCS-UFRJ), cientista social e pastor. Doutor em Ciência Política (Iuperj, atual IESP-UERJ), Doutor em Teologia (PUC-RJ). Pós-doutorado em Sociologia (USP).

OPINIÃO
As ideias aqui apresentadas são de responsabilidade exclusiva de quem assina o texto, não correspondendo, necessariamente, ao posicionamento do Instituto Mosaico.