Em Busca de Deus

A princípio parece um projeto despretensioso. Revisão de literatura em que o autor discorre por diferentes cenários em que o religioso está posto como tema da filosofia. Na abertura de cada capítulo, à moda didática, são expostos os objetivos e as referencias teóricas com as quais dialogará. Ainda que reconhecidamente íngremes e distantes, o caminho parece-nos pavimentado.

O autor figura como companhia próxima nessa jornada. Recusa-se a assumir o protagonismo, mas não se esconde no suposto papel de neutralidade científica. Não observa o “objeto” à distância ou de fora. Trata-se de uma filosofia existencial em que os contornos do pensamento são exemplificados com as inquietações do cotidiano.

O esboço do livro surgiu como roteiros de aulas, daí o seu formato tão didático. Mas pela própria natureza do tema, na evolução da escrita, nem tudo fica conforme o planejado. Isso não é uma crítica que desqualifica o trabalho do Penna. Vale lembrar que o autor prenuncia que sua contribuição à filosofia da religião deriva da psicologia. Essa é a sua perspectiva. Portanto, nada fora de proposito à admissão que nossa fala está crivada de subjetividades.

Segundo Penna, ao pronunciar-se no final do século XIX, Nietzsche não estaria propondo a dialética fé/ceticismo. Se existiam suspeitas na formulação original da “morte de Deus”, e sabemos que havia, as suspenções do filósofo direcionavam-se para aqueles que diziam crer em Deus. Ou seja, a questão era bem mais antropológica do que metafísica.

Pensar em Filosofia da Religião é criar a expectativa de que perguntas sobre Deus serão formuladas e algumas respondidas. Trata-se do primado da razão. Nesse caso, entender o religioso naquela dimensão que falamos de Nietzsche: em quem creem aqueles que creem em Deus?

No entanto, aqueles que dizem que tiveram uma “Experiência do Eterno” mostram-se incapazes de falar a respeito, muito menos sistematizar qualquer tipo de conhecimento. Contentam-se com a experiência. É característica dos místicos o pouco empenho para provar a autenticidade de suas experiências, nem a existência de Deus. A filosofia não dá conta de entender como pessoas finitas e frágeis relacionam-se com o Absoluto, nem os místicos. Provar a existência de Deus não está em questão para o místico.

Penna apresenta de forma dialética essas duas formas de busca de Deus: filósofos pelo caminho da razão e místicos pelo caminho da experiência. Contorna a comparação e faz a sua confissão:

“Obviamente, não sou místico. Dei preferência ao caminho da razão. Acreditei nela. Apostei mal, na medida em que desconhecia suas limitações e não dispunha de clareza para me dar conta do que desejava em termos do que, como Wittgenstein sustentou, jazia nos domínios em função dos quais a linguagem nada nos permite dizer (PENNA, 1999, p. 54).”

Ou seja, acerca do Deus dos racionalistas, definitivamente não é o mesmo que dos místicos. A fé é produzida pela revelação, enquanto o deísmo é fruto do próprio empenho da razão. Mas a diferença mais impactante não está no ponto de partida, mas nos resultados finais. Enquanto o Deus dos racionalistas não produz paixão, muito menos mexe com as emoções, aqueles que foram pela outra via têm a vida transformada. Embora não consigam falar a respeito, depois da experiência transformadora, testemunham que são movidos por uma paixão.

Num trajetória que muito faz lembrar o livro bíblico de Eclesiastes, Penna chega ao final do seu livro confundindo conclusão bibliográfica com balanço biográfico. Será que foi uma mera confusão? Não foi à toa que a sua última referência foi justamente Temor e Tremor de kierkegaard. Bastante existencialista.

Passeia pela literatura referente a Filosofia da Religião para chegar, ou finalizar, com a sua experiência pessoal. Em algum momento perdeu a fé. Ao seu modo buscou se ocupar de Deus pela via da razão. Apenas dessa forma. Como o sábio do Eclesiastes, avançado em idade, o muito estudar lhe trouxe cansaço e enfado, mas não o aproximou de Deus. Como disse anteriormente, o Deus dos racionalistas, seguramente, não é o Deus dos místicos. Agora, constatando aonde o levou a via que outrora escolheu, nostálgico conclui que também “correu atrás do vento”.

“Se, em princípio, o crente se põe diante de Deus, jamais poderá experimentar a solidão, pois não estará só. Solidão experimenta-a o autor deste texto, ao concluir que, em sua busca de um mundo melhor, mais justo, sem discriminações, marcado por profundo amor ao próximo, percebe que apenas viveu uma utopia e que, ao lhe permanecer fiel, passou a ser visto somente como alguém que não evoluiu, que ficou para trás e, por outro lado, jamais reencontrou a fé que o dominou em sua adolescência (IBID, p. 137).”

Essas são as últimas palavras do livro Em busca de Deus de autoria de Antonio Gomes Penna. Impossível entendê-lo apenas na dimensão de um texto introdutório à filosofia da religião. Revela a busca do autor que não se contenta em apresentar as teses e conceitos da filosofia. Dialoga com os conteúdos que aborda a partir da tradição analítica crítica, mas não esconde o seu encanto com os místicos. Penna busca à Deus na experiência dos místicos. Sabe que eles não conseguirão narrar o que experimentaram. Portanto, assim como Nietzsche, presta atenção naqueles que dizem crer em Deus. Sua forma de buscar à Deus é através dos testemunhos dos místicos e não através das tentativas de contemporizações apologéticas.


RESENHA

PENNA, Antonio Gomes. Em busca de Deus: introdução à filosofia da religião. Rio de Janeiro: Imago, 1999

Valdemar Figueredo
Editor do Instituto Mosaico, Pesquisador da USP (pós-doc), cientista político e pastor