Ética do confinamento: solidários ou egoístas?

Dois senhores dividiam o mesmo quarto no asilo. Enquanto um ficava na cama no interior do quarto, o outro desfrutava da cama com vista para a janela. Era só esticar um pouquinho que conseguia ver lá fora.

Solidário, contava ao companheiro o que via no dia a dia:

– Vejo um cachorro mijando no poste.

– Bela cena, uma menina pulando corda.

– Você não vai acreditar, estou assistindo a um enterro de luxo.

O velho proprietário da cama perto da janela morreu. O outro não disfarçou o contentamento por mudar de posição. Foi dormir naquela noite sonhando com a vista.

Quando acordou percebeu que fora removido para a cama que tanto desejava. Esticou o pescoço e olhou para fora. Viu no beco muros em ruínas, nada além. O velho que morreu dizia que via para que ele, no fundo do quarto, pudesse imaginar coisas e vencer o tédio. Era um gesto generoso.

O solidário compartilha o horizonte que não vê, os lugares que não conhece e as realizações que não são suas. O solidário não dorme no abrigo na noite fria porque o seu cachorro de rua não pode entrar.

O egoísta tende a conseguir a cama, a janela e a vista. Descobre quando chega lá que é só isso. Solitário na sua posição de destaque descobre que não há ninguém para ouvir as suas reclamações sobre becos estreitos.

O egoísta sofre mesmo é de falta de imaginação.

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Texto inspirado no conto de TREVISAN, Dalton. Mistérios de Curitiba. Rio de Janeiro: Record, 1996. p. 114

Foto: Canva

Valdemar Figueredo
Editor do Instituto Mosaico, Pesquisador da USP (pós-doc), cientista político e pastor