Gandhi, Rubem Alves e seus Gestos Poéticos

ALVES, Rubem. Política dos gestos poéticos. São Paulo: FTD, 1990.

No caso deste livro, os índices para catálogo sistemático dizem muito pouco sobre o conteúdo da obra: estadistas, políticos, biografia, Índia, pacifismo, política internacional. Com esses paus não se faz uma canoa para navegar nas águas do Mahatma Gandhi. Afluentes de uma biografia tão funda quanto agitada. As circunstâncias políticas do domínio do Império Britânico foram agitadas, enquanto as respostas foram decididamente calmas. Confusões da política externa determinando tumultos, enquanto a alma quieta determinando respostas não violentas.

Rubem Alves escreve a biografia de Gandhi citando alguns fatos históricos e sobre eles construindo narrativas poéticas. O tipo de biógrafo mais interessado em ressaltar a beleza do que a “verdade”. Isto é, longe do tecnicismo que presumidamente leva à exatidão da reconstrução histórica, Rubem Alves sopra baforadas poéticas para falar sobre um personagem que definitivamente escapa dos esquemas racionais ocidentais. Como a dizer: não defino Gandhi pelo que sei, mas pelo que sinto.

Nesta condição de narrativas poéticas muito mais do que biografia histórica, o autor não avisa quando lida com fatos ou com construções interpretativas. A mistura não é dissimulada. Por mais curioso que seja, Rubem Alves escreve uma biografia sem nos oferecer uma definição de Gandhi. Podemos concluir que ao não definir revela que não deu conta do tamanho do objeto pesquisado. Talvez seja o oposto: entendeu tão bem que preferiu não definir o indecifrável.

Rubem Alves mergulhou em águas profundas de uma Índia em que os banhos podem significar cerimônias sagradas. Gandhi é retratado na sua atuação política doméstica e estrangeira, mas Rubem Alves dele se aproxima no que há de espiritual. Estranho dizer isso, mas o autor se aventura a tocar a alma de Gandhi. Singeleza dos gestos poéticos repletos de sentidos. Não é o tipo de investida da qual se sai ileso. Deduzo que tal mergulho tenha custado caro ao autor. Neste livro, enquanto Rubem Alves tateia a alma do outro, ele toca e encosta na sua própria. Não se faz isso sem dores. Mas só se faz sem pudores. É preciso ficar nu para perceber que a alma é corpórea.

Ouvi de um psiquiatra não convencional que é preciso chamar a alma para o corpo. Não entendi quando ele disse e passei dias pensando na frase como a tentar decifrar um enigma. Eis que, ao término da leitura deste livro cheguei à intuição que tanto Gandhi quanto Rubem Alves fizeram isso: chamaram a alma para o corpo.

Não estou lidando com categorias teológicas para estampar o conceito de encarnação. Longe de mim tamanha presunção. Minha tentativa é bem mais modesta: falar de Gandhi espelhado em Rubem Alves. Em tempos em que os poderosos disputam a verdade, é bom lembrar que “não adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma”.

Muito identificado com esses que não conseguiram dominar os estados, muito menos amansar os religiosos, mas amaram tanto que sofreram o processo de alargamento da alma. Repito: a alma é corpórea.

A única linguagem que poderia dar conta desse registro é a poesia. Os gestos poéticos de Gandhi foram captados pelo olhar poético de Rubem Alves. Claro que a verdade importa, mas não mais do que a beleza!

Valdemar Figueredo
Editor do Instituto Mosaico, Pesquisador da USP (pós-doc), cientista político e pastor