Murilo Mendes: Poesia, Mística e Cotidiano

Para Roberto Romano da Silva, por ocasião do seu 75º aniversário em 13/04/2021

Para quem gosta de prosa poética, A idade do serrote [1] (1968) é um livro necessário. Os capítulos são intitulados com nomes próprios. Um desfolhar humano no sentido em que Murilo Mendes compartilha suas memórias a partir de pessoas reais que habitaram a sua infância e adolescência no início do século XX na cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais. O poeta não busca precisão dos fatos com narrativas ordenadas com explicitação de fontes e “exumação” de provas. A escrita é mais fidedigna à memória do escritor que propriamente ao factual. Dito isso, a prosa poética em A idade do serrote descreve pessoas reais, mas não as define cabalmente. Servem muito mais para revelar o menino e o moço que já olhava os fatos e as pessoas com o olhar do poeta. O cotidiano esbanjando poesia.

Numa prosa bem mineira (ritmada, lenta, cantada, casual e cheia de mistérios), Mendes desfolha as personagens em situações casuais, mas nada banais. É como se nos pegasse pelas mãos e nos conduzisse a Juiz de Fora da sua infância. Prosa poética interessada em falar mais das pessoas em seus ambientes cotidianos do que ressaltar datas especiais ou fatos excepcionais. Só que nessa narrativa aparentemente rotineira não é incomum nos depararmos com uma surpresa que altera profundamente a cena. Um modo de segurar o leitor pelas mãos e levá-lo para observar in loco os acontecimentos. Eventualmente, nesses passeios prosaicos há revelações surpreendentes.

Entre os relatos de Mendes, o personagem que mais me intrigou foi o “Tio Lucas”. Um médico quase formado, mas não devidamente credenciado. Saiu da universidade antes da formatura. Partiu para a cidade de Leopoldina (MG) como os eremitas partiam para o deserto. Morava em uma barca, amarrada a uma árvore. Embora não exercesse a medicina oficial, pessoas o buscavam na sua clausura a procura de cura. Sua fama correu a vizinhança e muitas pessoas passaram a recorrer aos seus métodos alternativos.

Dele sabemos que era um espírito livre e que fora influenciado pela filosofia hindu. A morte era um tema recorrente, mas o tratava de forma não convencional. Frase atribuída ao “Tio Lucas”: “O homem deve ajudar a morte”. No relato dessa pessoa singular, Mendes revela que essa frase era pronunciada pelo “Tio Lucas” para as pessoas que recorriam a ele a procura de cura. Não queria dizer com isso que se negava a atendê-las ou estivesse sugerindo que deviam desistir de viver. Mais intrigante do que isso: segundo ele, a admissão da morte faz parte do processo de cura. “O homem deve influir na morte”.[2]

Não ousaremos tentar interpretar essa frase dita em um contexto tão distante. Mendes não busca tornar “Tio Lucas” em uma figura coerente ou compreensível. Deixa-o na condição de figura humana tão intrigante quanto fascinante. Observa e corteja, mas não invade o que seria o “espaço” do mistério.

Esse relato em prosa poética nos remete ao sentido do místico.

A mística não como um tipo de trabalho arqueológico em que se cava a procura da recomposição de algo que já existiu. Relatos do Murilo Mendes são místicos no sentido das personagens que não sabem o quanto são fascinantes e humanamente maravilhosas. O poeta apresenta o “Tio Lucas” como espírito livre. Outro modo de falar dessa figura excêntrica: “Tio Lucas” era um místico.

A poesia como a arte do olhar precede ao texto poético. No olhar agudo e sensível, encontramos a poesia no relato de Mendes sobre o vaivém de uma lagartixa. Entre tantos capítulos intitulados com nomes próprios, eis que nos deparamos com um intitulado como “A Lagartixa”.[3]

Mendes observa uma cena comum e compartilha os seus desvarios. Como se fosse possível tornar desvarios pessoais em experiências compartilhadas. Pensamento vago, ondulante, descontínuo, imprevisto e impreciso. Num banco de jardim, o rapaz observa a lagartixa e tece comentários sobre ela. Em Mendes, a poesia não é necessariamente como se diz, mas sobretudo como se observa.

Acho esse breve conto representativo do fazer poético do Murilo Mendes em A idade do serrote. Nos relatos anteriores sobre pessoas próximas, ele não as descreve a partir de histórias que se pretendam fidedignas aos fatos. Não existe obsessão pela objetividade nem pela precisão. O poeta observa com acuidade típica dos que se entregam aos desvarios, sem constrangimentos. Assim, ele observa tanto o vaivém da Lagartixa quanto o vaivém de Etelvina, Isidoro, Sebastiana, Analu, Dudu, Dona Coló, Belmiro, Júlio Maria, Tio Chicó, Alfredo, Cláudia, Nélson, Julieta, Lucas, Florinda, Florentina, dentre outros.

Entre tantas personagens, a Lagartixa. Mendes, nos seus contos poéticos, recorre à memória. Mas não como aqueles que buscam nos arquivos ou nas entrevistas os elementos para se remontar os fatos. Toca nos artefatos da memória afetiva.

Importa ressaltar que as pessoas por ele descritas não foram definidas. Poetas que observam comportamentos com um olhar singular, registrando sutilezas que apenas observadores entregues aos desvarios são capazes de fazê-lo. Não chega a ser um mundo a parte. Mas sabidamente a experiência poética pode remeter à experiência de êxtase místico.

Observadores de cenas cotidianas com a capacidade apurada para enxergar o mistério.

A mística poética de Mendes não é a mesma da tradição dos mosteiros ou dos desertos. É a mística proveniente do vaivém das pessoas em seus ambientes cotidianos. Trata-se da mística que se carrega na memória e mesmo quando adulto, não duvida da veracidade das suas experiências quando crianças.

O último relato do livro funciona como um autorretrato. O título nos dá uma ideia do quanto para ele o fazer poesia tinha a ver com um modo peculiar de observar as pessoas nos seus ambientes rotineiros: “O olho precoce”. Precoce porque “cedo começou minha fascinação pelos dois mundos, o visível e o invisível”. [4]

Característica, que segundo ele, talvez o tenha tornado inepto para tarefas profissionais convencionais, como as seguidas pelos irmãos e o pai. Na adolescência, reconheceu-se poeta e experimentava a sensação de inadequação. O pai, compreensivo, tentava lhe mostrar caminhos para ajudá-lo a se encontrar no mundo do trabalho. Mas o menino vivia ocupado com vaguezas, observando pessoas nas duas dimensões: o visível e o invisível.

Assim Mendes se definiu no último parágrafo do seu último relato em A idade do serrote: “A mitização da vida cotidiana, dos objetos familiares, enriqueceu meu tempo e meu espaço”.[5]

O filho do homem planta a eternidade no cotidiano

Uma narrativa poética do evangelho a partir da figura de Judas. Funciona o jogo de linguagem em que a revelação da identidade de um indivíduo ocorre no duplo. O “Eu” e o “Tu” em relação e comparação. A identidade de Jesus narrada poeticamente como uma pessoa distinta de Judas e dos outros apóstolos.

Murilo Mendes não é raivoso no sentido de estabelecer o vilão de um lado para elogiar o herói no sentido oposto. Mecanismo tão usual na literatura em que a luta entre o bem e o mal são constantemente retratadas.

A trama divina é cheia de sutilizas e talvez a linguagem poética seja mais apropriada para contar do que o tipo de discurso racionalizado, que busca se expressar com precisão. A linguagem formal que se pretende racional não dá conta das sutilezas do evangelho.

Assim como Murilo Mendes deu um mergulho para entender a cidade de Ouro Preto, não como quem faz uma narrativa típica do turista, que conta o que viu, mas bem à feição do místico que faz referências vagas e simbólicas sobre o que sentiu. Mesmo assim, não tem a pretensão de ser categórico ou objetivo. Assim também ele se refere a Judas. Não faz com sua descrição um retrato falado. Eu diria que sequer pretendeu oferecer uma descrição dessa figura difusa.

O poeta guarda algumas semelhanças com os escultores de Ouro Preto: dispõem de moldes incompletos e a partir deles concebem obras que falam mais a respeito dos artistas do que propriamente dos modelos originais. Em pedra-sabão, escultores registram emoções e arquitetos erguem desejos.

Um Deus que se busca a partir do que se tem. Deus que não se forja na imagem de escultura, Deus que não se confina em catedrais, Deus que não se amolda a linguagem.

Temos Jesus, revelação dentro das condições humanas. O Judas retratado por Murilo Mendes não é o vilão, está mais para o molde do que somos. “O filho do homem planta a eternidade no cotidiano”.[6]

Geralmente, “atraídos por Cristo e seu enigma” assumimos a missão e o seguimos. Contudo, o fazemos com a bolsa. Precisamos de um mínimo de controle. Trinta moedas serão necessárias para os próximos dias.

A mulher de Betânia que derramou o Bálsamo caro na cabeça de Jesus não pensava como geralmente pensamos: os deveres precedem a devoção calma. Prostar-se aos pés de alguém parece um ato inconcebível num mundo que precisa tanto da nossa ação. Judas usa o raciocínio do orçamento, enquanto a mulher de Betânia usa o gesto poético.

De fato, na relação com Jesus Cristo, o pensamento racional duro tende a quebrar. Com isso não estou dizendo que é irracional, mas que se utiliza de outras lógicas, inclusive, da sensibilidade espiritual que lida com imaterialidades. O que Judas queria, alimentar os pobres, Jesus também queria. Só que não faria isso com as trinta moedas de prata. Ou você acha que os mesmos que compraram Judas não estariam dispostos a dobrar a oferta para ter Jesus ao dispor deles?

A imaterialidade do gesto precisa ser notada para além das narrativas dos atos. Discernimento espiritual está mais afeito à linguagem artística do que à linguagem objetiva dos discursos racionalizados dos mestres da lei.

Murilo Mendes suscita essa sublimidade de Jesus. Ele não narra o evangelho como se fosse o turista que fotografa tudo para depois lembrar e contar o que viu. O poeta revela-se um místico que tenta falar a respeito da sua experiência, êxtase.

No poema “Novíssimo Orfeu”[7], Mendes expressa essa proximidade da linguagem poética do mistério. No primeiro verso, diz: “Vou onde a poesia me chamar”. Fica mais claro o teor do seu chamado quando chegamos ao último verso do poema: “A poesia sopra onde quer”. Clara referência ao que foi dito por Jesus sobre rumos e mistério: “O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito”.[8]

O recurso foi substituir “vento” por “poesia”. A ação do Espírito Santo remete ao mistério. A poesia de Mendes remete ao transcendente. A escrita do poeta admite a sua inconcretude, incapacidade de explicar causas e efeitos, limitada para fechar questão, absolutamente despretensiosa no que se refere a ser definitiva.

Retornando ao poema “Judas Iscariotes”, Mendes demonstra que a sua compreensão das coisas, que vê e toca, é incompleta, assim como a sua capacidade de expressar o que sente é limitada. “Ó verdade absoluta, intolerável à nossa carne, à nossa reduzida lente, ao nosso olhar oblíquo”.[9]

A capacidade de compreensão existe, mas é limitada. Por isso que o poeta recorre a todos os sentidos e ainda assim, reconhece a inconcretude e incompletude da sua linguagem. Não sabe de onde vem nem para onde vai. Em um verso: “Duro e terrível é captar a linguagem que não tropeça, que define tudo em termos essenciais”.[10]

Lidar com o mistério é conviver com epifanias que vão além do mundo sensorial. Sabendo que “o Filho do homem planta a eternidade no cotidiano”, ficamos atentos aos sinais de beleza nas coisas simples e comuns da nossa vida.

Assim foi na ressurreição de Jesus de Nazaré. O divino se manifestou com graça no cotidiano. O fazer poético é exatamente a sensibilidade de notar a beleza do que está tão perto, e não obstante, não percebido, não sentido, não notado, não conectado à vida. “Chamados para transfigurarem suas vidas estreitas”.[11]

Isso foi dito sobre Judas e os demais apóstolos. O chamado era essencialmente para que não apequenassem a vida em função da bolsa enquanto mecanismo de controle e previsibilidade. Requerer do indivíduo tal despojamento utilizando retórica de sermão dominical é bem diferente da possibilidade de um uso mais corriqueiro e despretensioso como a poesia.

Os poetas, como os místicos, lidam melhor com o “não saber” do que os catedráticos e pregadores dominicais. Poetas e místicos experienciam, mas não sabem de onde veio nem para onde vai. A experiência com Deus está no plano da contemplação, o que difere do plano do controle.

Pelo escrito de Mendes, Judas, ao repreender a mulher de Betânia prostrada, revela muito ao nosso respeito. Preferimos a razão à sensibilidade, o controle à mística, o sermão à poesia, a moeda ao bálsamo, a certeza à imprevisibilidade.

Podemos andar atordoados, procurando entender o rumo do vento para otimizar o uso da força e desenvolver mecanismos de controle. Na poesia de Murilo Mendes, aparece uma alternativa: as profundezas de Deus são insondáveis. Daí, podemos nos tornar contemplativos atentos, tão despretensiosos quanto os poetas que se limitam a falar do que veem e sentem, sem tentar abarcar ou controlar a experiência vivida. O poeta aproveita o instante eterno. O místico vive o instante eterno sem a ansiedade de ter que registrar para contar aos outros, posteriormente, a sua experiência.


[1] MENDES, Murilo. A idade do serrote. São Paulo: Cosac Naify, 2014.

[2] Ibid, p. 87-89.

[3] Ibid, p. 105-109.

[4] Ibid, p. 161-163.

[5] Ibid, p. 162.

[6] MENDES, Murilo. Antologia poética: Murilo Mendes. São Paulo: Cosac Naify, 2014. p. 171.

[7] Ibid, p. 96.

[8] BÍBLIA. Evangelho de João, 3:8.

[9] MENDES, Murilo. Antologia poética: Murilo Mendes. São Paulo: Cosac Naify, 2014. p. 171.

[10] Ibid, p. 171.

Valdemar Figueredo
Editor do Instituto Mosaico, Pesquisador da USP (pós-doc), cientista político e pastor