Nossa Tentação na Quarentena

Jesus foi tentado na quarentena no deserto quando estava com fome. Vazios somos mais vulneráveis. Suprir necessidades, qual a alma dos nossos negócios? Assim que terminar nosso distanciamento social, teremos que lidar com novas propostas.

Na oração do Pai Nosso, Jesus não está preocupado em apresentar uma lista de comportamentos admiráveis, ele fala muito sobre o plano das intenções. Para o mestre, as ações importam, mas as intenções também.

Senão vejamos, antes de pronunciar a oração Jesus exemplificou pessoas que fazem coisas certas com as intenções erradas. Sim, estamos no campo ético. Os que exercem a justiça publicamente com a intenção de serem vistos são chamados de hipócritas. Os que dão esmolas e alardeiam o gesto são chamados de hipócritas. Os que gostam de orar em lugares de destaque com ostentação de linguagem são chamados de hipócritas. Os que fazem jejum como exercício espiritual e se mostram contristados são chamados de hipócritas.

Na atualidade, somos fortemente tentados a aparecer. Mesmo na quarentena, precisamos estar em tela, em cena, visíveis, expostos. Mas não de qualquer jeito. Queremos aparecer editados com os melhores filtros. A tentação de aparecer bem pode nos levar à falta de autenticidade, duplicidade, hipocrisia.

Jesus foi tentado quando em fraqueza, na solidão e com fome.

A solidão quebra nosso ritmo e nos coloca em risco. Temos convivido com as nossas fraquezas. Olhando de fora a cidade, podemos observar suas engrenagens rígidas e o quanto ela pode ser dominada por forças satânicas.

Dependendo dos acordos, poderemos até dispor de certo tipo de poder. Há quem venda a alma por mera visibilidade.

Logo de saída Jesus teve que renunciar à reputação para ser fiel a si mesmo. O maligno o tentou neste aspecto, torná-lo um sujeito tão óbvio quanto popular. As ofertas, se aceitas, fariam dele alguém capaz de controlar as engrenagens da cidade. Desvio de função, bacana, honrosa, importante e necessária, mas desvio de função.

Jesus foi tentado na quarentena quando pensava o que faria da vida. Faminto de pão, faminto de vida. Bem à frente propostas para fazer coisas importantes e significativas, mas que o afastariam do essencial. Afastar o jovem nazareno da sua essência e ocupá-lo com coisas importantes, essa era a tática do maligno.

Para Jesus, os atos importam. Contudo, podemos agir fazendo a coisa certa com péssimas intenções. Exibicionismos religiosos são os piores. As intenções importam e elas geralmente não são visíveis nas superfícies. Como dito em Provérbios 20.5: Como águas profundas é o propósito no coração do homem; mas o homem inteligente o descobrirá.

Vamos precisar alimentar o forte propósito de nos mantermos fiéis a Deus e a nós mesmos, ainda que a aprovação popular não ocorra.

Não venda a alma nem perca a calma.

Talvez a maior bênção de uma quarentena é termos que lidar com a desilusão. Isso traz dor. Fala de limites e incapacidades. No entanto, depois de recursarmos as ilusões, teremos à frente a verdade ao nosso respeito. Teremos que lutar para nos mantermos autênticos sem fazer força para impressionar ao grande público. Temos que ter tempo para pensar e escolher como queremos viver e conviver.

Valdemar Figueredo
Editor do Instituto Mosaico, Pesquisador da USP (pós-doc), cientista político e pastor