O pastor que enfrentou o nazismo

A ascensão da extrema direita no Brasil tem notável inspiração nazista. Setores evangélicos estão envolvidos de corpo e alma nesse projeto totalitário. Na coluna desta semana, o articulista recupera o testemunho do pastor Dietrich Bonhoeffer, que ousou enfrentar Adolf Hitler. Nuances dessa biografia têm muito a dizer aos evangélicos brasileiros que ainda estão perplexos com a invasão das suas comunidades de fé pelo messianismo político enrustido como guerra cultural. Resistir é preciso!
Quais seriam as tarefas assumidas em termos de apologética cristã em plena Segunda Guerra Mundial? E se o autor de respostas para o mundo perplexo estivesse preso num campo de concentração alemão? Bonhoeffer foi executado no dia 9 de abril de 1945. Mesmo em campo de concentração, não se amoldou às respostas fáceis e previsíveis de uma apologética do tipo oficial. Entre 4 de abril de 1943 e 9 de abril de 1945 produziu em linguagem epistolar uma obra-prima sobre “resistência e submissão”. [1]
Supomos que na utilização de textos bíblicos para fundamentar sermões dominicais no crepúsculo do século 20, provavelmente, Adolf Hitler figurasse como personagem histórico execrável. Contudo, na década de 1940, na Alemanha, não era tão comum que pastores e teólogos conspirassem contra o Terceiro Reich.
Antes de ser um mártir, Banhoeffer foi um homem comum que ousou resistir enquanto pôde. No esforço de lutar pelo que confiava, expôs seu pensamento, demonstrou o seu amor pela igreja e se entregou ao diálogo em termos existenciais.
Para entendermos o pensamento de Banhoeffer temos que nos afastar das idealizações que o reduzem a condição heroica de mártir. Como se fosse possível romantizá-lo a ponto de tirá-lo da perspectiva histórica. Foi um forte opositor do nazismo, assim como crítico da igreja que em nome da segurança renunciou à missão profética.
Enquanto pastor, notabilizava-se pelo cuidado. No exercício de suas habilidades como intelectual foi um dos mais importantes teólogos do século 20. No entanto, o termo que melhor o define, a designação síntese: profeta.
Não foi apenas um clérigo piedoso, nem somente um intelectual respeitado. A partir da sua fé viveu com integridade até às últimas consequências. De forma que o testemunho de Bonhoeffer foi além das palavras pregadas nos púlpitos, ensinadas nas cátedras e escritas nas correspondências epistolares. O profeta encarnou as palavras.
Diferente da apologética cristã enquanto discurso seguro, vivenciou o testemunho do Cristo. Num tempo de acirramento de disputa por poder, o profeta imitou a Cristo no serviço.
Na profícua produção do cárcere, Bonhoeffer destaca o conceito de “cristianismo a-religioso”.
Num mundo em ruínas existe alguma possibilidade de os símbolos cristãos se manterem intactos e não entrarem em colapso? É disso que se trata, os sentidos importam mais do que as formas. Parece que as igrejas são afeitas a confundir relíquias sagradas com sentidos atemporais. O ambiente da apologética cristã tende a ser afirmativo de formas religiosas consagradas pelo tempo ou legitimadas pelos usos correntes dos agentes autorizados.
Bonhoeffer se pronunciou enquanto cético. Mais precisamente, cético em relação a uma religiosidade que se pretende sólida, perene e atemporal. Símbolos fixos precisam ser tanto decifrados quanto problematizados. Em épocas de profundas incertezas muitos buscam a segurança nos símbolos religiosos. Daí, o fenômeno religioso exerce, historicamente, efeitos entorpecentes ou anestésicos.
Em perspectiva, não se tratou apenas de um aporte teórico, mas de uma opção de vida. Mesmo sob a escalada do Terceiro Reich e a passividade cúmplice da igreja, existencialmente optou por uma religiosidade que não estava confinada aos símbolos sagrados. Mecanismo de renunciar aos conhecimentos prévios sobre os símbolos administrados pelas igrejas cristãs. A religião familiar destina-se aos domésticos da fé. Bonhoeffer se insurge contra a domesticação da fé.
Definitivamente, para Bonhoeffer, o homo religiosus não tinha muito a oferecer às sociedades ocidentais no século 20, em meio a desenvolvimentos técnico-científicos acelerados e tragédias em larga escala promovidas pelos conflitos bélicos.
A perspectiva histórica de Bonhoeffer precisa ser levada em conta para alcançarmos a profundidade das suas ideias. A escalada de Hitler e o triunfo do nazismo na Alemanha contou com a passividade da igreja. O Estado totalitário manipulou os símbolos religiosos e os reduziu a função de anestésicos. Liturgias religiosamente repetitivas ao gosto do itinerário dos donos do poder. Sermões encomendados para aquiescência do regime político. O mundo em colapso e a temporalidade da igreja inalterada. As expressões cristãs se manifestavam em termos religiosos por pura conveniência. A religião se amolda aos sistemas de poder e abdica da postura crítica. Profeticamente, desnuda aqueles que se escondiam atrás da religião, cristãos que optaram supostamente pela linguagem neutra, performativa, afeita a acomodações.
Diferente dos livros que nasceram de projetos editoriais em que autores tiveram tempo e recursos de pesquisa para se dedicarem a determinado tema, desenvolveu o conceito de “cristianismo a-religioso” de maneira fragmentada. Isto tem a ver com a natureza epistolar da sua redação. Cartas do cárcere em que os fragmentos são produzidos em meio a rotina de um campo de concentração, enquanto o mundo se convencionava em plena II Guerra Mundial.
O que hoje reconhecemos como processo irreversível de secularização, Bonhoeffer chamava à época de autonomia do homem. Não reconhecer a autonomia do homem tinha mais a ver com fidelidade a apologética cristã do que ao cristianismo. A relação dialética da igreja com o mundo só seria possível em termos a-religiosos.
Em termos efetivos, o cristianismo a-religioso propõe que os cristãos altruisticamente renunciem as formas religiosas que lhes são tão caras para não perder o essencial: a experiência de fé vivida enquanto missão num mundo marcado pela autonomia do homem.
De fato, muitas igrejas evangélicas no Brasil foram invadidas por falanges da extrema direita. Precisamos, inspirados na história de Bonhoeffer, resistir.
[1] BONHOEFFER, Dietrich. Resistência e submissão. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1963