Removida do grupo do WhatsApp da igreja

Lembro perfeitamente do momento em que senti meu celular vibrar com a chegada de uma notificação do WhatsApp. A notificação me mostrava o aviso de que eu havia sido removida do grupo da igreja. Recebi aquela mensagem com muita surpresa, porque, até onde eu sabia, não havia motivos para uma atitude daquelas. Criado pelo pastor, aquele grupo era o principal da igreja, com todas as irmãs e irmãos adicionados, com a finalidade de facilitar a comunicação dos avisos importantes da nossa congregação. Eu não havia brigado com ninguém, muito menos pedido por um desligamento da instituição. Eu ainda estava vinculada àquela pequena comunidade batista, onde cresci e fui batizada por imersão.

Em algumas situações, eu acho até meio bobo se preocupar com coisas desse tipo. Fui excluída, mas e aí? Por alguns minutos pensei em justificativas ingênuas como: “ah, talvez o grupo seja apagado e deve estar excluindo, aos poucos, os outros também”. No entanto, em pouco tempo, surge meu pai – que assim como ele, minha mãe e meu irmão integravam o rol de membros – me questionando se o pastor havia conversado comigo, ou se eu havia pedido para ser removida. Respondi que “nem um nem outro”. Mas, logo em seguida, comecei a entender o que estava acontecendo. Não era uma atitude isolada, mas somava-se a outras direcionadas a alguém que compartilhava opiniões diferentes.

Esse ano é ano de eleições e as projeções políticas seguem a todo vapor desde o ano passado, principalmente as análises que, de alguma forma, tratam sobre os evangélicos. Alguns veículos jornalísticos aparecem bastante falando sobre os possíveis candidatos e o tal apoio evangélico. Aqui, pouco me interessa fazer coro a essas projeções. Quero, na verdade, compartilhar um pouco sobre a minha caminhada enquanto jovem evangélica e sobre a minha saída (ou exclusão) da minha comunidade de fé. Posto isso, menciono as eleições, pois foi justamente no período eleitoral de 2022, e antes dele, que as coisas foram se construindo para o meu afastamento. Se aproximando do período eleitoral, as lembranças vêm à tona.

Em janeiro deste ano, a jornalista Anna Virginia Balloussier, em sua coluna na Folha de São Paulo, escreveu uma matéria sobre ex-evangélicos e, em um contexto de recentes transformações no campo religioso, comenta que “jovens evangélicos migram para outras denominações, para religiões afro-brasileiras, para o catolicismo ou simplesmente se declaram sem religião”. O foco da sua matéria é no grupo dos que se mudaram para outras religiões, mas eu falo, hoje, a partir da posição de quem se declara sem religião.

Em 2022, ouvi e li muitos relatos de evangélicos que sofreram algum tipo de constrangimento dentro das suas denominações por causa de política, mas, especialmente, por causa do bolsonarismo. Na época, também foi publicada uma matéria na BBC que expõe um caso específico, onde o jovem Rafael ouviu de seus irmãos que ele não era cristão de verdade. Eu entendo a dor de quem tem a sua fé questionada por não concordar com determinadas mensagens ou atitudes feitas por quem está atrás do púlpito. No entanto, alguns, como Rafael, migraram para outras igrejas, e outros optam pelo afastamento. Em junho do ano passado, a BBC voltou com mais uma matéria sobre política dentro dos templos, onde a cientista política entrevistada diz que “há um excesso de política nas igrejas (…) que faz com que algumas pessoas não se reconheçam mais em suas lideranças religiosas”. Entretanto, eu acredito que há algo que vá além de “excesso de política”.

Eu cresci em um lar evangélico. Ao nascer, fui apresentada em uma igreja batista. Na adolescência, fui batizada, em uma igreja, já diferente da que fui apresentada, mas também era batista. Foi nesta última que eu pude desabrochar e contribuir em tudo que fosse possível: fui ativa no grupo dos jovens, onde atuei em peças, cantei e dancei as coreografias; participei de uma ou outra cantata de Natal, com o grupo das irmãs; fui presente no ministério de louvor; e dirigi muitos cultos. Fui uma jovem evangélica bastante engajada nas atividades que aconteciam, e, paralelamente, uma pessoa com dificuldade de dizer “não”. Em determinado momento, percebi que ocupava um lugar de constante disponibilidade. Eu era acionada sempre que surgia uma demanda imprevista. Se era preciso dirigir o culto de última hora, era a mim que recorriam; se havia uma lacuna na escala de solos, eu a preenchia. Apesar de constantemente me sentir cansada, eu não enxergava isso como algo negativo, porque, para mim, eu estava empenhada no trabalho de Deus dentro da igreja.

Nas eleições de 2022, percebi que as mensagens bíblicas do meu pastor, aos poucos, estavam sendo alimentadas cada vez mais por suas posições políticas pró-bolsonaro. Isso me incomodava, porque em muitas pregações ele se vangloriava de que não fazia palanque para político nenhum, muito menos deixaria que algum fizesse propaganda política naquele espaço. De fato, ele não convidava nenhum político para aparecer ali, mas o problema era que ele não precisava disso.

Decidi compartilhar com o meu ex-líder de jovens que eu me encontrava incomodada pela forma como nosso pastor estava usando a política nas suas pregações. Havia domingos que era algo muito sutil e leviano, em outros ele usava até uns termos bem agressivos como “esquerdopata” (junção entre esquerda e psicopata). A direita era sempre “direita” e a esquerda era sempre “esquerdopata”, assim mostrando algo que já estava enraizado em seu linguajar. Além disso, a hipocrisia de dizer que não permite político querendo fazer palanque ali, mas ele mesmo criava o palanque para os seus candidatos, especialmente Bolsonaro. E isso tudo, somado às diversas fake news que circularam na internet, algumas delas foram comentadas no púlpito.

Falei sobre essas, e muitas outras, coisas para o meu ex-líder em um domingo de manhã, no final da EBD. No mesmo dia, no culto da noite, recebi uma indireta bem direta do meu pastor na frente da igreja lotada. Esse foi o momento que marcou uma virada para mim lá dentro. A minha relação com os outros mudou completamente. Antes, eu era a jovem ativa e comprometida com as coisas de Deus, mas para os meus irmãos isso mudou. O meu posicionamento político, compartilhado apenas nas minhas redes sociais, virou fofoca entre os fieis. Passei a receber mais e mais indiretas,  isso até de irmãos que julguei serem meus amigos. Era a minha fé sendo questionada a todo momento. Foi, então, a partir desse contexto, que a minha exclusão do grupo aconteceu.

Eu não fui excluída em um dia aleatório. Foi na tarde do dia do segundo turno que recebi a notificação. Quando fiz a denúncia, eu sabia que aquelas pregações carregadas de favorecimento para um lado político, em algum momento, deixariam de ser sutis. Mas eu não sabia que o combustível para isso, seria a minha saída. Apenas eu tinha sido removida do grupo, meus pais e meu irmão continuavam. Eles mesmos me mostraram o que o pastor compartilhou no grupo segundos depois de me remover. Era uma fake news sobre Lula e a esquerda. Por ser um grupo criado apenas para avisos, somente o pastor tinha etiqueta de “administrador” e nenhum outro membro poderia enviar mensagem, pois estava configurado dessa forma. Eu apenas fui removida sem receber qualquer comunicado. Depois disso, uma chave virou na minha cabeça e ali entendi que não era mais bem-vinda na minha comunidade de fé.

Apesar de algumas igrejas se colocarem como apolíticas, na prática não são. Talvez eu possa levar muito a sério a ideia de que tudo é político, mas, ainda sim, penso que da mesma forma que expor um posicionamento é mostrar a sua opinião, o silêncio também é. Mas acredito que a questão aqui é como alguns pastores e irmãos lidam com as diferenças. É o excesso de hostilidade com quem pensa diferente que também influencia no afastamento. Por isso, para mim, não é só “excesso de política” que está em jogo.

Jéssica Pinheiro

Mestranda em antropologia (PPGECC/UFRJ), bacharel em ciências sociais (UFRJ) e pesquisadora do grupo Passagens. Se interessa por temas que envolvem o campo evangélico, materialidades e a Baixada Fluminense, seu lugar desde que nasceu.

OPINIÃO
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