A obrigação de sermos felizes

O escritor que estaria fadado a falar sobre a felicidade porque ousou um dia afirmar que não se importava muito em ser feliz. Para além da frase provocativa, Contardo Calligaris foi convidado a se explicar melhor, o que determinou a produção do seu livro, publicado postumamente.

Na procura por uma vida feliz que faça sentido, muitos se esgotam em tanto tentar. Longe do padrão idealizado, pessoas se sentem infelizes. Calligaris postula que é preferível se esforçar para viver uma vida interessante a insistir na busca pela felicidade.

Está em voga a cultura do antidepressivo enquanto antítese para driblar a dor e perpetuar o prazer. Nessa perspectiva escapista, a busca pela felicidade dispensa o enfrentamento das experiências do sofrimento. Gente que antecipadamente quer se dopar, antes de a dor chegar.

Mais importante do que buscar a felicidade é procurar viver uma vida interessante. Burlar a dor se revela uma fraude.

Existe um amplo e inesgotável debate sobre o “sentido da vida”. Sejam pelos livros sagrados, pelos textos consagrados da literatura ou pelos clássicos da filosofia. Sem a pretensão de fazer um tipo de revisor da bibliografia pertinente, Calligaris destaca um aspecto que o intriga pessoalmente: a bizarra obrigação de sermos felizes.

Nesta busca insana pela felicidade, perdemos a capacidade de perceber o sentido da vida. Tudo fica no plano da idealização. Viver, na perspectiva religiosa, se reduz a tapar lacunas e preencher os espaços vazios. Para filósofos aflitos para apresentar respostas, viver com sentido é compreender as engrenagens da existência e ser efetivo nas ações que as fazem funcionar.

Seja a Bíblia ou qualquer outro livro usado para tapar o buraco da estante e assim decorativamente dar a ideia de concretude, para o autor, não confere sentido. Na experiência com o pai, passou a apreciar os buracos nas estantes. Ou seja, a inconcretude, da estante como da vida, não é um fardo, mas a beleza da existência.

A obrigação de sermos felizes, figuradamente, é como preencher lacunas e não deixar brechas. Quem suportaria tal enfado?

Calligaris rememora a viagem que fez a Milão em 2019, dois anos antes da sua morte. Sendo mais específico, o destino principal da sua viagem/pesquisa foi a cidade de Mesero. Como o centro das suas atenções neste retorno era o pai, estar em Mesero era procurar vestígios. O pai fora antifascista e em 1945, logo após o fim da Segunda Guerra, foi nomeado prefeito de Mesero.

Calligaris confirmou na sua viagem que o pai estivera ao lado dos italianos da resistência antifascista. Manteve discrição, mesmo com a família, mas os sinais apontam para sua militância. Terminada a guerra e sua atuação posterior como prefeito, volta para o exercício da medicina em Milão. Médico cardiologista voltado para o cotidiano. Quem estivera envolvido em eventos gloriosos perseguindo grandes causas, volta a se ocupar com a rotina do dia a dia na condição de homem comum.

Arriscou a vida quando julgou que uma causa maior justificava o gesto, mas soube voltar para o seu cotidiano para viver a vida, cumprir com a sua vocação de médico no que ela implicava na pertença a uma comunidade.

Numa lembrança que suscitou a reflexão sobre a contradição entre a vida ética e a vida estética, Calligaris perguntou ao pai os valores que teriam justificado a sua atuação enquanto antifascista. A resposta o surpreendeu. O pai não alegou razões éticas, mas estéticas:

– É porque os fascistas eram muito vulgares.

Pôs em risco a vida não pelos valores, luta de classes, interesses econômicos, nacionalismo ou qualquer outra alegada razão. Tudo se resumira a um juízo estético.

A anedota sobre a distração evoca o fenômeno social em que pessoas julgam precisar viver no “extraordinário”. Dispersas e desatentas para o que for trivial e cotidiano. Como se a vida comum não merecesse atenção.

Calligaris defende a ideia que o fruir tem a ver com prestar atenção à vida, seja quando as experiências forem agradáveis ou mesmo quando não forem boas. Atravessar a vida sem precisar das distrações que dissimulam a realidade.

Anedota sobre o uso excessivo do celular

A moça chegou ao velório com o celular na cara. Pela ocasião, esperava-se que se concentrasse e vivesse o momento. Discretamente ela perguntou para a prima: “qual é a senha daqui?”

Distraída, esbarrou num dos cavaletes que amparava o caixão e sequer se deu conta. Foi quando ouviu uma voz contrariada censurando-a: “respeite o morto!”

A moça dispersa não discerniu o tom da voz, sequer quem falava, sem entender o ocorrido, incapaz de colocar a frase que ouvira no devido contexto, pergunta novamente como se estivesse num diálogo: “caixa-alta ou caixa-baixa?”

Na hora de chorar, de viver uma perda, ela se distraiu.

Fica suposto na reflexão que o fruir da vida tem a ver com não se distrair. Manter a atenção à vida, mesmo no que há de mais prosaico e cotidiano. Megas narrativas de vidas heroicas como se fossem exemplares para uma vida feliz. Quando os valores éticos são usados como absolutos que tapam buracos e servem como salvo-condutos para a eternidade.

Contrapondo a boçalidade de tentar impor aos outros os nossos valores, Calligaris dá a sua última palavra impressa. O livro O sentido da vida figura como obra póstuma e a sua última frase fica como aprendizado que o autor generosamente compartilha com os seus leitores:

O sentido da vida é a própria vida concreta. A que vivemos e da qual faz parte também morrer (Calligaris, 2023, p. 141).

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Calligaris, Contardo. O sentido da vida. São Paulo: Planeta do Brasil, 2023.

Valdemar Figueredo

Editor do Instituto Mosaico, professor universitário, pesquisador (Grupo de pesquisa Passagens, IFCS-UFRJ), cientista social e pastor. Doutor em Ciência Política (Iuperj, atual IESP-UERJ), Doutor em Teologia (PUC-RJ). Pós-doutorado em Sociologia (USP).

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