Você já comeu blueberry? E açaí?

O que eu diria para Câmara Cascudo se fosse sua contemporânea, ou mesmo praticante de sessões espiritas, seria: triste, meu senhor, Luís Cascudo, mas, no Brasil já não se faz brasileiros como os de antigamente.

E se você meu leitor atualizado, me perguntar o porquê desse inusitado desabafo, quero lhe fazer também uma ou duas perguntas, mais inusitadas ainda:

– Você já comeu puçá, ou já comeu bacuri, ou comeu araticum, buriti?

Bem, se sua resposta for não, pelo menos já sabe que estou falando de algo comestível, mas se você me responder que, sim, sabe que estou falando do que o Brasil tem de melhor.

Calma, calma, que eu explico o estranho começo deste texto e confesso que isso não é só um desabafo, mas sim, um indignado protesto depois do que me ocorreu em uma conversa de almoço com algumas colegas de trabalho.

Sendo o assunto a diversidade culinária do Brasil e meu sonho de viajar todo o nosso país para degustá-lo. Mas quando estamos eu e duas colegas falando dos nossos sonhos, abre a boca a terceira colega, uma paulistana, recém-chegada do EUA, e então pergunta-me:

– Você já comeu blueberry?

Sim, a paulistana recém-chegada lá do norte da América, fez essa pergunta diretamente para mim e ainda com sotaque “inglêsado” para pronunciar o nome blueberry. Respondi ressabiada, que não, que nunca havia comido isso.

Ressabiada porque não sou familiarizada com a Língua Inglesa. Mas antes de a paulistana e eu continuarmos, fui salva por Jurema, outra colega de trabalho:

– Já comeu sim, querida, é mirtilo.

Disse-me revirando os olhos para nossa colega paulistana; e já com confiança, respondi apenas:

– Ah, sim, mirtilo, já comi!

Mas ora, por favor, não achem que de minha parte seja xenofobia pelo mirtilo à preferência da jabuticaba, ou que seja alergia à fictícia paulistana. Mas vamos as vias de fato: uma brasileira querer me enfiar blueberry goela abaixo, logo eu, que cresci regada a suco de umbu e nutrida por oiti. Sinto muito, mas isto eu não engulo, meus requintados!

E a minha justificada indignação, foi que para compra uma primeira vez os blueberry-mirtilos, deixei não um olho, nem um rim, felizmente, apenas a unha do dedo do meio, para comprar tal fruta pelo valor do araçá. Embora, despois descobri que o preço mais elevado, é que comprei mirtilos do Chile, e que os de produção nacional se paga apenas o burguês gosto do preço, a se comparar qualquer mirtilo com a marmeladinha do cerrado.

Porém, para que não pensem que não gosto de mirtilos, eu até como, mas o problema é que toda vez que vou comprá-los lembro-me da mama-cadela, fruta essa, que Nelson Rodrigues diria que tem pedigree.

Mirele de Moura

Nordestina do Maranhão, estudou teologia na Faculdade Batista do Rio de Janeiro, vive atualmente em Tocantins. É autora do livro: “Iconoclastia Poética - da religião, da angústia, do erotismo e outros assuntos”. Atualmente divide seu tempo entre seus alunos e a escrita de seu segundo livro.

OPINIÃO
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