Ei! Você falar purtuguês?

Nem sete da manhã…

Estação de Metrô – Catete – RJ.

Em mais um dia de corre, estava eu, com meu kindle, na estação do Catete. Enfim, o metrô estacionou na plataforma, abriu as portas e eu entrei. Também dentro do metrô, estavam duas senhoras. Duas senhoras brancas. Uma delas, fixou os olhos em mim. Percebi enquanto procurava algum lugar para sentar. Não o achei, permaneci de pé. O olhar daquela senhora continuava fixo em mim. Para a minha surpresa (ou não), a senhora que me olhava, cochichou com a outra ao lado. Pronto, no mínimo, quatro olhos fixados em mim. Com a cabeça abaixada, eu lia “A queda do céu” de Davi Kopenawa. No entanto, ora os meus olhos se voltavam para as senhoras, que permaneciam me olhando. Essas duas nunca viram pinturas corporais? Nunca viram um colar de miçangas? Ou o meu corpo indígena na zona sul incomoda?

O metrô parou na estação final “Botafogo”. Ao abrir as portas, saí. Em seguida, sinto uma mão em meu ombro, quando viro: “Ei! você “FALAR PURTUGUÊS”? Falou uma das senhoras. A outra perguntou: “Deixa MIM FALAR COM VOCÊ”. Nessa altura do campeonato, eu estava num misto… “P da vida e segurando o riso”. Olhei as mulheres e não dei um “piu”. Não satisfeitas, repetiram as perguntas… Quando perceberam que eu não respondia, uma delas falou: “Acho que ela é surda”! E elas, realmente me enxergavam ou só me viram?

Sou Carina Pataxó, prazer! Vou me apresentar aos pouquinhos e pedir licença para falar sobre literatura, compartilhar crônicas e andanças nesta grande maloca que é a Terra. Espero falar sobre céus também…

Espero, assim, aproximar mundos: coexistência.

 

Carina Pataxó

Indígena da etnia Pataxó. Pedagoga (UFRJ), Mestre em Educação (UFRJ), Doutoranda em Educação (UFRJ) com estágio de Doutorado na University of Cambridge. Pesquisa a literatura indígena. Professora de biblioteca em escola no Rio de Janeiro e professora de redação num curso pré-vestibular para mulheres indígenas. A espiritualidade tem sido um dos seus muitos pensamentos.

OPINIÃO
As ideias aqui apresentadas são de responsabilidade exclusiva de quem assina o texto, não correspondendo, necessariamente, ao posicionamento do Instituto Mosaico.