A fraquejada de um país terrivelmente evangélico

Faço um jogo de palavras crítico com duas frases famosas e polêmicas do ex-presidente Jair Bolsonaro.

“Fraquejada”: Refere-se a uma declaração de 2017, quando Bolsonaro disse que teve quatro filhos homens e, na quinta, deu uma “fraquejada” e nasceu uma mulher.

“Terrivelmente Evangélico”: Refere-se à promessa de Bolsonaro de indicar para o Supremo Tribunal Federal (STF) um ministro com esse perfil, o que se concretizou com a nomeação de André Mendonça.

O livro analisa a ascensão e a influência política de setores evangélicos conservadores no Brasil, criticando a mistura entre religião e política, bem como posturas como o negacionismo científico e ataques a direitos humanos realizados em nome da fé.

Os argumentos centrais

Giram em torno da crítica à instrumentalização da fé cristã para fins de poder político autoritário.

Como pastor batista e doutor em Ciência Política e Teologia, defendo os seguintes pontos:

Denúncia do uso maligno da religião: setores importantes das igrejas cristãs atuaram para ungir um projeto político que ele descreve como um show de horrores em nome de Deus.

Crítica aos falsos profetas: líderes religiosos atuaram como falsos profetas a serviço de um plano de poder, distanciando-se da ética cristã original para apoiar pautas de violência e exclusão.

Defesa do Estado laico e direitos humanos: um dos pilares da obra é a reafirmação de que o Estado é laico e os direitos são humanos, contrapondo-se à ideia de que uma identidade religiosa específica deva ditar as normas jurídicas e sociais do país.

Resistência profética-poética-política: o livro se propõe a ser um testemunho de fé que convoca à resistência contra o avanço do conservadorismo extremista, buscando resgatar uma espiritualidade que respeite a democracia e a pluralidade.

Teologia política crítica: analiso como a comunicação política foi moldada para fundir símbolos religiosos com ideologias de extrema direita, criando uma identidade nacional “terrivelmente evangélica” que exclui quem não se encaixa nesse padrão.

O contexto histórico

O contexto histórico das eleições de 2018, que serve de pano de fundo para a obra é marcado pela ascensão política sem precedentes do segmento evangélico e pela sua aliança decisiva com a candidatura de Jair Bolsonaro.

Os principais elementos desse cenário foram:

Voto evangélico decisivo: Em 2018, os evangélicos representavam cerca de 30% do eleitorado brasileiro. Pesquisas do Datafolha indicaram que Bolsonaro teve uma vantagem de mais de 11 milhões de votos sobre Fernando Haddad (PT) apenas nesse grupo religioso.

Pauta de costumes e guerra espiritual: A campanha foi dominada por discursos morais e conservadores. Disseminou-se a narrativa de que a existência das igrejas estaria em risco e temas como a ideologia de gênero e o aborto foram usados para mobilizar as bases.

Aliança com grandes lideranças: Bolsonaro consolidou apoio com a alta cúpula de igrejas como a Assembleia de Deus e a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), de Edir Macedo. Essa estrutura foi fundamental para a capilaridade da campanha, transformando templos em espaços de discussão política.

Expansão no Congresso: A eleição de 2018 resultou em uma Bancada Evangélica com 91 parlamentares, fortalecendo o poder de barganha do grupo no legislativo e pressionando por pautas como a criminalização da homofobia e a revisão de decisões do STF.

Simbolismo religioso: embora católico, Bolsonaro utilizou símbolos evangélicos de forma estratégica, como seu batismo no Rio Jordão em 2016 e a promessa de um ministro “terrivelmente evangélico” no STF.

O livro surge como uma reação crítica a esse período, argumentando que essa fusão entre Estado e religião representou um retrocesso democrático e uma distorção da ética cristã em favor de um projeto de poder.

Críticas

As críticas ao livro vêm principalmente de setores conservadores e de lideranças evangélicas alinhadas à direita. Os principais pontos de contestação são:

Viés ideológico progressista: críticos argumentam que o autor, por ser ligado a uma teologia mais progressista, utiliza sua formação para atacar adversários políticos sob o pretexto de análise teológica, o que alguns chamam de “esquerdismo cristão”.

Generalização do segmento: há quem aponte que o livro foca excessivamente na cúpula das grandes denominações (como a IURD ou Assembleia de Deus) e em figuras midiáticas, ignorando a pluralidade e diversidade do povo evangélico, que não é um bloco único e possui alas que não se identificam com o extremismo.

Questionamento da legitimidade teológica: lideranças conservadoras frequentemente rebatem autores como Figueredo afirmando que a defesa de pautas progressistas (como direitos LGBTQIA+ ou descriminalização de drogas) seria, na verdade, a verdadeira “distorção” do Evangelho, invertendo a acusação do livro.

Tom polêmico: por utilizar termos como “fraquejada” e “show de horrores”, a obra é vista por alguns como mais panfletária do que acadêmica, buscando o confronto direto em vez de um diálogo ecumênico com a base conservadora.

Em resumo, enquanto o livro é celebrado em círculos intelectuais e de esquerda como uma “denúncia necessária”, ele é rejeitado pela base bolsonarista como uma tentativa de deslegitimar a fé de milhões de brasileiros que veem na política uma forma de defender seus valores morais.

Sugiro que leia e tire as suas próprias conclusões. Ao que tudo indica, nestas eleições de 2026, estaremos diante de outra fraquejada no país que assume feições terrivelmente evangélico.

 

 

 

 

Valdemar Figueredo

Editor do Instituto Mosaico, professor universitário, pesquisador (Grupo de pesquisa Passagens, IFCS-UFRJ), cientista social e pastor. Doutor em Ciência Política (Iuperj, atual IESP-UERJ), Doutor em Teologia (PUC-RJ). Pós-doutorado em Sociologia (USP).

OPINIÃO
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