A ideia se repete em muitos momentos do cotidiano, em conversas difíceis ou depois de grandes reveses: tudo o que acontece, afinal, seria parte do “plano de Deus”.
Embora a Bíblia narre momentos de intervenção divina direta na história humana, como a libertação no Êxodo, a maior parte dela se desenrola sob a égide da responsabilidade humana e das contingências naturais. O Antigo Testamento, por exemplo, demonstra fartamente que nem tudo é fruto de uma microgestão divina. A literatura sapiencial, em especial, é crítica a esse determinismo. Em Eclesiastes 9:11, o sábio afirma de maneira conclusiva: “Retornei para ver que, debaixo do sol, a corrida não é dos ligeiros, nem a batalha dos fortes, nem dos sábios o pão, nem dos discernidores a riqueza, e também não é dos conhecedores o favor; mas o tempo e o acaso acontecem a todos.”
A palavra traduzida como “acaso” é o substantivo hebraico pega’. Esse termo deriva da raiz verbal paga’, cujo sentido primário é “encontrar, esbarrar, atingir ou cruzar o caminho”. Na mentalidade hebraica, o acaso não é a “sorte cega” da filosofia grega, mas a intersecção imprevisível de trajetórias e circunstâncias, o momento em que variáveis que não controlamos se chocam com a nossa realidade.
O sábio bíblico, autointitulado Qohelet (pregador), une duas palavras fundamentais, tempo e acaso, para argumentar que, por mais rápido que seja um atleta ou forte que seja um guerreiro, ambos estão submetidos às circunstâncias temporais e aos incidentes imprevistos. Isso significa que o resultado de um evento não é uma equação matemática exata baseada no mérito, nem um roteiro divinamente predeterminado, mas algo sujeito às contingências do mundo criado e a uma infinidade incontrolável de “esbarrões” e cruzamentos de caminho. Aliás, uma curiosidade importante: corrida, batalha, pão, riqueza e favor estão no singular, enquanto ligeiros, fortes, sábios, etc, estão no plural. Quer dizer, a jornada é coletiva e não individual.
O raciocínio de Eclesiastes serve como contraponto à teologia da retribuição estrita: a crença de que o justo sempre vence e o ímpio sempre perde, ou de que quem mais se prepara sempre ganha. Essa mesma lógica reaparece nos lábios de Jesus: ao ser questionado sobre os dezoito mortos pela queda da torre de Siloé, ele rejeita a ideia de que a tragédia fosse um castigo por pecados específicos (Lucas 13:4-5), reafirmando que nem todo sofrimento é a manifestação direta de um juízo divino. Ou seja, nem o mérito nem interferências divinas microgestoras determinam tudo em nossa vida.
O uso de pega’ revela que, apesar da criação divina de um cosmos ordenado, há um grau de liberdade e aleatoriedade em que as leis da física, a biologia e as escolhas humanas operam livremente. Uma derrota, ou uma vitória, não é necessariamente um “juízo” ou um “plano” de Deus, mas pode ser a manifestação comum do pega’, do acaso. A própria história de Israel na Bíblia, com suas vitórias e derrotas, é frequentemente o resultado de escolhas políticas, militares e éticas, e não de um roteiro divino engessado. Se Deus interferisse diretamente em cada ação humana, a liberdade e a responsabilidade pelas próprias ações seriam anuladas.
Reduzir acontecimentos comuns da vida, como uma partida de futebol, à vontade de Deus banaliza a soberania divina e isenta o ser humano de suas falhas técnicas, táticas, éticas ou emocionais. O Deus bíblico sustenta a criação e age em propósitos redentivos amplos, mas permite que a vida aconteça com toda a sua imprevisibilidade, beleza e falibilidade humana. Uma doença, uma perda, um fracasso não são necessariamente sinais de pecado ou de abandono divino, mas parte da trama comum da existência, marcada pelo pega’. Uma vitória, riqueza, saúde, etc, também não são nacessariamente sinais de favor divino ou de mérito próprio. Reconhecer isso pode ser um gesto de cuidado, de honestidade e de humildade diante da vida e de compaixão diante de quem sofre sem que haja, necessariamente, merecimento.