Abusos espirituais

Em 2017 publiquei pela Fonte Editorial o meu livro Abuso de Poder. Recentemente li o livro do Gabriel Perissé que coloca em perspectiva a questão do Abuso espiritual. No entanto, o motivo que justifica trazer esse tema para a coluna da semana tem a ver com os frequentes burburinhos. Em conversas, não é raro eu ouvir depoimentos de pessoas que foram vítimas de abusos espirituais. Por tão frequente a prática – ainda que tenha a sua feição invisível – podemos relacioná-la à crise de confiança que enfrentam as igrejas, embora o abuso espiritual não seja algo restrito ao contexto cristão e acontece como abuso do poder religioso, seja ele cristão, espírita, budista, umbandista, islâmico, esotérico, xamânico, hinduísta, judaísta…

Não é raro pessoas que buscam serviços religiosos estarem vulneráveis, desarmadas emocionalmente. Sem generalizar, na carência que leva a buscar recursos espirituais para dar conta da barra de viver, pode encontrar religiosos que vão além da mediação espiritual e assumem o papel abusivo, autoritário e manipulador.

Numa definição simples, “existe abuso espiritual quando alguém se prevalece de sua posição ou de sua autoridade religiosa para dominar e manipular outra pessoa” (Perissé, 2024, p. 11).

Lideranças tóxicas exercem manipulações nos ambientes religiosos. Toda e qualquer liderança tóxica é abusiva.

O abuso espiritual se realiza em nome de Deus. O líder ou guia diz possuir autoridade dada por Deus ou entidades para fazer o que faz e dizer o que diz.

Distinto dos abusos físico, sexual, emocional e verbal, em que o agente atua em nome próprio por conta própria, o abusador espiritual não é uma pessoa modesta porque faz acreditar que atua em nome de Deus.

Em termos bíblicos, a imagem do abusador como aquele que põe fardos pesados para a pessoa abusada carregar. Jesus se apresenta como o libertador dos fardos religiosos. Jesus denunciou o sistema de criação e difusão de culpa em larga escala manipulado por líderes religiosos hipócritas. Jamais encontraremos um líder espiritual abusador que seja manso e humilde como Jesus se apresentou.

“Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mateus 11.28-30).

Fica exposto o contraste entre liderança religiosa emancipadora e liderança religiosa tóxica que põe a culpa no ombro alheio.

Com esse tipo de convite o mestre inviabiliza o mercado da culpa que funciona nos espaços dominados por líderes religiosos que se especializaram em precificar a vergonha alheia.

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Figueredo Filho, Valdemar. Abuso de poder: político, econômico, teológico e simbólico. São Paulo: Fonte Editorial, 2017

Perissé, Gabriel. Abuso espiritual: A manipulação invisível. São Paulo: Paulus, 2024

 

Valdemar Figueredo

Editor do Instituto Mosaico, professor universitário, pesquisador (Grupo de pesquisa Passagens, IFCS-UFRJ), cientista social e pastor. Doutor em Ciência Política (Iuperj, atual IESP-UERJ), Doutor em Teologia (PUC-RJ). Pós-doutorado em Sociologia (USP).

OPINIÃO
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