Trata-se de uma análise sociológica e pastoral. A metáfora do “doping financeiro” em contraste com o “ministério artesanal” traduz perfeitamente a dor da maioria dos líderes de igrejas locais no Brasil.
Pastor, você já sentiu aquele peso no coração ao ver a sua congregação local lutar tanto para comprar um instrumento simples, enquanto “igrejas de grife” brotam na mesma rua com estruturas milionárias bancadas por alianças políticas?
Escrevi este texto pensando em nós, que pastoreamos o povo no seu habitat natural e longe dos palanques. A verdadeira ameaça ao fechamento de igrejas evangélicas sérias já está em curso, e ela não vem de fora. Não confunda unção com doping financeiro.
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Os resultados das urnas revelam o protagonismo crescente de alguns atores políticos evangélicos. Determinados pastores foram consagrados como pesos-pesados da política nacional: ditam programas, negociam verbas, definem alianças, recebem concessões de radiodifusão, conquistam perdão de dívidas previdenciárias ou tributárias, formam bancadas no Legislativo e são decisivos para os resultados dos pleitos para o Executivo.
Dirijo-me a pastores que, como eu, lideram pequenas congregações. Igrejas locais que são mantidas com os dízimos e as ofertas dos fiéis. Quando precisamos de alguma melhoria no templo, de enviar recursos para missões ou de atender a alguma emergência de assistência social envolvendo os frequentadores, realizamos almoços, convocamos mutirões, organizamos bazares e planejamos ações para conseguir renda. E haja criatividade!
A depender da condição do grupo, por exemplo, a compra de um teclado novo para o ministério de louvor pode durar meses de campanha. Isso não é sinal de falta de fidelidade dos irmãos, mas de falta de renda. Manter uma pequena igreja na periferia, diferentemente do que boa parte da sociedade julga, não é simples. Essa é a realidade da maioria das comunidades evangélicas no país. Gente simples que se une para realizar coisas extraordinárias — o que, inclusive, resulta em serviços nos bairros que beneficiam até mesmo aqueles que não frequentam a igreja: milagres da multiplicação e da partilha do pão.
Assistimos, no Brasil profundo, à ascensão de igrejas ricas lideradas por personalidades que conciliam interesses políticos e estruturas financeiras ou comerciais. Tais empreendedores da fé nada têm a ver conosco, pastores de igrejas locais que precisam lidar com a vida do povo em seu habitat natural. As igrejas de grife mantêm projetos de expansão, e é muito provável que já tenham chegado à rua em que está a sua congregação. Projetos expansionistas que ignoram a nossa existência; sem pedir licença, sem dar bom-dia ou boa-noite, montam uma unidade do tipo franquia bem ao lado ou do outro lado da rua da igreja que pastoreamos.
Chegam com aparelhagem de som moderna, instrumentos musicais de primeira linha, músicos pagos e pastores credenciados devidamente financiados pela sede. Contam com equipe de mídia profissional e espaços kids e teens como atrativos que vão além da imaginação da clientela em potencial. Intencionalmente, criam mecanismos para atrair os membros das igrejas comunitárias vizinhas, que são pejorativamente tratadas como tradicionais e ultrapassadas. As igrejas de franquia que se alastram pelo país são “pré-moldadas” e funcionam na lógica do mercado econômico: creem que a concorrência é a alma do negócio e que merecem sobreviver os mais aptos. Apostam em captação de recursos e na fusão de igrejas, processo no qual as pequenas deixam de existir para que as grandes exerçam o domínio.
Numa analogia, pense em uma corrida em um estádio: a mesma pista, as mesmas regras, a mesma distância a ser percorrida por cada corredor e uma largada comum. A competição fica desigual quando um dos atletas recorre a sistemas de dopagem em sua raia. A desvantagem dos demais é determinada pelo corredor que escolhe não competir puro.
Creia no que eu vou lhe falar, pastor: muitas das nossas igrejas estão se esvaziando porque os membros, atraídos e seduzidos por melhores serviços, migram para as igrejas de franquia que já nascem prontas. E isso não tem a ver com unção; tem a ver com doping financeiro adquirido com astúcia política.
Nesse sentido, os vínculos político-eleitorais de pastores empresários, ao contrário do que alardeiam, não promovem a expansão do Evangelho, mas sim o enchimento de suas paróquias bombadas, em detrimento das igrejas locais que lutam para sobreviver no modo orgânico ou artesanal.
Quantos obreiros se sentem recusados por Deus, carregando um senso de fracasso e certa vergonha em relação aos membros que ficaram, como se tivessem que se justificar por não conseguir fazer a igreja “dar certo”? São as insalubridades do ofício pastoral, decorrentes de competições desiguais que geram adoecimento mental.
A ascensão de determinados atores políticos evangélicos está determinando o fechamento de igrejas que não operam na lógica do mercado. Não digo isso em tom profético, mas como mera constatação.
Mário Quintana, em sua peculiar prosa de observador de banco de praça, descreveu “Das alianças desiguais”: Gato do Mato e Leão, conforme o combinado, caçavam juntos corças pelo mato. Somaram forças e habilidades para, posteriormente, dividir a caça. As corças escaparam… Resultado: não escapou o gato.
Aos meus colegas pastores: vigiem e orem, observem e discirnam. Jesus nos orientou a sermos simples, mas também astutos. Jamais confundam a unção de Deus para o ministério pastoral com o doping político que gera vantagens comparativas à feição do mercado financeiro.