A primeira edição do livro “Nise da Silveira: uma psiquiatra rebelde”, de autoria do poeta Ferreira Gullar, foi publicada no ano de 1996, pela editora Relume Dumará. Portanto, evidente que o debate sobre modos de abordar a doença mental avançou e o livro em questão figura como um dos registros das contribuições seminais. Este breve comentário inicial serve como antídoto contra expectativas que têm a ver com o nosso tempo, mas não estavam disponíveis como repertório para Nise da Silveira ou para o Ferreira Gullar.
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A psiquiatria com o seu rigor científico e os psiquiatras nas suas ofegantes tarefas no ambiente hospitalar. Como conceber neste cenário sóbrio, a partir da década de 1930, a contribuição de uma psiquiatra que sugeria a terapia ocupacional como elemento importante do tratamento?
O pressuposto básico, de tão básico, soava como simplório para a comunidade médica psiquiátrica: valorização do doente mental como ser humano digno de afeto e portador de direitos. O ato revolucionário de Nise da Silveira foi “fazer do afeto o caminho para penetrar o mundo fechado do esquizofrênico e ajudá-lo a se aproximar da realidade” (Gullar, 2024, p. 25).
Ao estabelecer o afeto como recurso principal para tocar os doentes mentais, Nise da Silveira seria também afetada pelo sofrer do outro.
Estamos tratando de um tempo no Brasil em que os espaços do louco eram os manicômios e hospícios. O doente mental estava fadado ao encarceramento supostamente para ser protegido da sociedade hostil indisposta a adaptar as suas instituições para assimilar os diferentes. Não havia sensibilidade da sociedade para criar modos de coexistência. “O manicômio nasce como produto dessa ordem social: uma instituição onde cabe o louco” (Gullar, 2024, p. 27).
Foram gestados diferentes modelos de “depósitos de loucos” de acordo com a condição social dos doentes mentais. Clínicas psiquiátricas públicas e particulares que representavam muros instransponíveis de alienação dos loucos e proteção dos sãos. Era projeto alienar os loucos para que não conturbassem a ordem natural das coisas. A previsibilidade na dinâmica social não poderia ser comprometida com incidentes provocados pelos loucos, sempre imprevisíveis.
Desqualificadas as clínicas psiquiátricas no registro de depósito de loucos, a solução aparentemente mais simples seria fechá-las? Os partidários dessa solução radical justificavam as suas ideias alegando que a internação atentava contra a liberdade do doente.
Ferreira Gullar opôs-se dizendo que os defensores dessa tese certamente não conviviam com doentes mentais, apenas os apreciavam como objeto de estudo. Não desqualificou os estudiosos e os militantes pelo fechamento das clínicas psiquiátricas públicas, mas foi bastante incisivo no combate da ideia proposta: “Durante o surto psicótico, a única providência possível é a internação” (Gullar, 2024, p. 28).
No desdobramento do seu argumento, Gullar acrescenta as desigualdades sociais como agravante. Uma família humilde de um paciente no quadro da esquizofrenia pode enfrentar dificuldades reais e incontornáveis para mantê-lo em casa. Com essa constatação não se está estimulando abandono de incapaz, mas, lançando luz sobre questões práticas do dia a dia que vão desde a falta de infraestrutura física até o perigo real da integridade física de todos da casa, inclusive da pessoa com episódios de surtos psicóticos.
Para Ferreira Gullar, a doença mental não era um tema que remetia necessariamente ao ambiente hospitalar ou acadêmico. Existencialmente, tratava-se de uma questão caseira, familiar, que remetia aos complexos laços de família.
Por esta perspectiva, as clínicas psiquiátricas do Estado não são utilizadas como depósito de loucos, mas como uma necessidade que devia ser tão acolhedora quanto a ideia de lar. Lugar de confiança onde os residentes se sentem literalmente em casa. Ainda que se detectem problemas, as clínicas públicas são de suma importância para preservar a integridade física e mental dos seus internos, no sentido de comunidade.
Resistente aos tratamentos convencionais praticados, primeiro no Hospital da Praia Vermelha e depois no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II (ambos na cidade do Rio de Janeiro), Nise da Silveira foi destacada para uma função considerada menor, Seção de Terapêutica Ocupacional e Recreação (STOR) do Centro Psiquiátrico Nacional, em 1946.
Carl Gustav Jung
Para a psiquiatra rebelde a psicologia junguiana passa a representar o seu suporte teórico: busca pelos significados da linguagem da arte e das formas simbólicas.
Daí, o contato epistolar com Jung evoluiu para uma bolsa de estudo no Instituto C. G. Jung, em Zurique, em 1957. Nise tornou-se uma cientista inserida nos debates teóricos de ponta. Na prática clínica, fazia os seus experimentos a partir da terapêutica ocupacional.
O caso emblemático do Emygdio de Barros. Recebeu o relatório do médico responsável que se tratava de um doente crônico internado há 23 anos. Ou seja, não havia, no parecer no médico responsável, perspectiva de avanço. Esperava-se na verdade deterioração da saúde do interno em questão.
Estimulado no ateliê de pintura, Emygdio tornou-se um pintor de elevada expressão no cenário artístico brasileiro. Considerado, na lógica da psiquiatria tradicional, como incapaz incontornável pelo médico, na Seção de Terapêutica Ocupacional e Recreação (STOR), revelou-se um artista especial.
Nise da Silveira criou a convicção que a condição esquizofrênica necessitava de um ponto de apoio quando do seu tratamento clínico, alguém que despertasse afeto e a confiança do doente. Então, para além dos métodos tradicionais da psiquiatria, acreditava no poder terapêutico das relações. Essa concepção foi alargada para além dos seres humanos.
O afeto despertado e cultivado com os demais seres vivos: plantas, cães, gatos etc.
A fundamentação teórica que orientava a Nise da Silveira para interpretar as produções dos esquizofrênicos: psicologia junguiana, os mitos e figuras arquetípicas que revelariam o mundo interior dos doentes mentais.
Através da representação do trabalho artístico (desenho, costura, pintura, modelagem etc.) pretendia-se obter acesso ao mundo interno do esquizofrênico, aparentemente instransponível, sabidamente hermético.
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Interessado na valorização do doente mental como ser humano digno de afeto e portador de direitos, olhando para as nossas estruturas sociais atuais, concluo que o trabalho da Nise da Silveira, conforme o registro poético do Ferreira Gullar, ainda tem muito a ensinar.
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Gullar, Ferreira. Nise da Silveira: uma psiquiatra rebelde. São Paulo: Planeta do Brasil, 2024.