Memória gustativa: gastronomia é lembrança

“Não suporto mais a saudade sufocante do meu irmão Betinho. Minha vida segue sem sentido e sem alegrias. Sai um disco do Chico e não consigo me entregar ao canto que gostaria de partilhar com ele e com a Maria. O grito de gol fica preso no peito porque me sinto sozinho no Maracanã mais lotado.”

(…)

“Perdoa, mãe, mas biscoito de farinha só é gostoso se mastigado olhando nos olhos do irmão que sente na mesma hora a mesma delícia. Compreenda.” [1]

A frase é do Henfil em 1979. Seu irmão Betinho estava no exílio e o cartunista nos seus traços alternava humor e dor. Uma produção em torno da anistia e pela reabertura democrática em plena ditadura. Em suas Cartas da mãe agradece os biscoitos mineiros amanteigados, mas eles são gostosos mesmo quando comidos junto com o irmão. Por isso a dor da ausência.

O filho da mãe do Henfil continua atual na nossa Pátria Mãe Gentil. Olha a dedicatória que ele faz:

“À minha mãe, Maria da Conceição Figueiredo Souza que, por ter gostado muito de mim, me deu confiança pra viver, me deu segurança pra me exibir. Não tive medo de ser ridículo, não tenho medo de morrer. Porque fui amado. Dom Paulo Evaristo Arns, eu te batizo. Dom Paulo de Souza Filho, meu irmão.”

Eis aí alguém com o gesto de tornar o trivial em santo e de tornar os símbolos sacros em vazios, caso eles não consagrem as lembranças.

É santo porque é humano e não porque é religioso.

A sacralidade do afeto que sente a falta de quem não está à mesa.

A sacralidade que transforma biscoito de farinha em corpo e anuncia o batismo do bispo Dom Paulo Evaristo Arns. Troca de sinais? Não. Ambos os gestos dizem respeito ao humano, irremediável, visceral, gesto de comunhão humana.

Gastronomia é memória. O biscoito da infância não poderia ser comido na ausência do irmão. Sacramento. Ou comemos todos ou ninguém come.

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Assisti ontem pela segunda vez o filme A 100 passos de um sonho. Que filme lindo. A primeira cena acontece numa cozinha. A família era dona de um restaurante. A mãe ensinava a um dos filhos os segredos dos temperos da Índia juntamente com os segredos da filosofia de vida. Tudo de forma prosaica. [2]

O encantamento das cores vivas e temperos fortes, dos olhares singelos e das iguarias saborosas, termina abruptamente com a invasão da aldeia por um grupo rival. Incendeiam tudo, inclusive a cozinha daquela família. Todos escaparam, exceto a mãe.

A família migra para o sul da França. A dinâmica bem caracterizada nesta produção cinematográfica de 2014 foi estabelecer os encontros culturais. Dois espaços que demarcavam bem as diferenças entre a família indiana e os aldeões franceses: o mercado (um tipo de feira de rua) e os restaurantes fronteiriços (um da alta culinária francesa e o outro da família indiana).

O rapaz que aparece na primeira cena com a mãe é o protagonista. O sonho de ser um chef o faz a misturar os sabores, temperos, tradições e pessoas. Por viver no limite, representa o movimento de invasão das fronteiras invisíveis.

Em diversos momentos da trama ele afirma o que aprendeu com a mãe: COMIDA É MEMÓRIA.

Para além da habilidade de misturar os sabores ou para além do esforço para estudar e desvendar os segredos, o nosso protagonista ensina que o paladar tem relação com as lembranças.

Torna-se um grande chef porque consegue despertar os sabores adormecidos das lembranças.

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Podemos explorar a mesma ideia através da animação produzida pela Pixar.  Ratatouille é uma alusão a um prato francês bastante tradicional que tem mais a ver com a comida comum do povo nas cidadezinhas e vilarejos do que propriamente com os pratos sofisticados servidos nos salões franceses. [3]

O renomado crítico culinário EGO resolve fazer uma visita inesperada ao restaurante que estava atraindo muita atenção. Remy, o rato que era responsável pelos sabores daquela cozinha, pela sua condição, cozinhava clandestinamente.

O que eu quero frisar é que na prova de fogo quando EGO se posicionava no salão com seu caderninho destruidor, Remy surpreendeu colocando a mesa o prato Ratatouille.

Aqueles legumes tão comuns poderiam ser interpretados como desfeita, pouco caso, deboche. EGO queria ser afagado e bajulado, mas eis que a comida servida o colocava na condição de pessoa comum. Era o gesto para dizer que ele era de casa.

Na primeira garfada, o expert é remetido a sua vila, a sua casa, a sua infância, enfim, ao colo da mãe.

A humanização do crítico que até aquele momento era um esnobe personagem experimentando a comida preparada por um rato metido a chef. Em meio a tantos absurdos da trama “infantil”, o encanto que humaniza foi provocado pelo paladar que fez lembrar.

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Na última refeição que Jesus fez com seus amigos, sabendo da proximidade da morte, fez uma recomendação: “Sempre que comerem o pão e beberem o vinho, lembrem de mim. Eu sempre estarei convosco”. [4]

Comunhão é sentir o gosto das iguarias e sentir a presença. A experiência da partilha do pão é a vivência da demonstração da afeição.

Come, bebe, abraça e beija. Se a distância impõe limites para os toques, come e bebe em memória dele ou dela!

Interessante que quando a mesa posta os religiosos se preocupam quanto a “quem pode comer”, enquanto o mestre pergunta “quem ainda não se serviu?”


[1] HENFIL. Cartas da mãe. Rio de Janeiro: Record, 1986, p. 134, 135.
[2] A 100 Passos de Um Sonho. Direção: Lasse Hallström. 2014.
[3] Ratatouille. Direção: Brad Bird. Pixar, 2007.
[4] BÍBLIA. Mt 26.26-30; Lc 22.19-23; Mc 14.22-26

Valdemar Figueredo
Editor do Instituto Mosaico, Pesquisador da USP (pós-doc), cientista político e pastor