Nossas Dívidas na Quarentena

Perdão é uma palavra jeitosa, vistosa, bem comportada, bonitinha, mas sobretudo, constrangedora. Não foram poucas as vezes que perdoados nos sentimos constrangidos e até mesmo envergonhados. Por outra visada, sabemos que devemos perdoar, é o ideal, mas fracassamos. Limitamo-nos a tolerar.

Algumas pessoas são movidas pelos ressentimentos. Encontram motivações naquelas ofensas que foram guardadas para boa hora. É a casquinha da ferida que ficamos puxando e lembrando. Nossos machucados têm identidades e podemos viver para respondê-los.

Terrível ser movido pelas mágoas, rancores, ódios e ressentimentos. Quem sangra assim e sente muito pode se ocupar de planos de vingança detalhados.

Talvez você tenha participado em alguma ocasião de palestras motivacionais em que o palestrante explorou exatamente este poço. O convite era para se superar, reagir e mostrar aos ofensores o quanto você é maior. Convêm, com sangue nos olhos, sair da palestra e agir. Provar aos seus ofensores o quanto você os venceu com folga. A vingança, neste caso, consiste em conquistar aquilo que os causadores das dores tanto desejam.

Técnicos de esportes coletivos, antes dos confrontos com outras equipes, exploram o brio do seu time. Não é incomum falar de uma atitude ou palavra inconveniente da equipe rival. Isso para acirrar a rivalidade e levar o time a provar a superioridade. Aos gritos mexem no poço de mágoas para que sirva de combustível na corrida, no pulo, no salto, no nado, na força, no chute… Para alguns, ressentir pode motivar.

Nessa toada, o perigo é nos transformarmos naquilo que mais odiamos. Passarmos a vida em diálogo com pessoas detestáveis. Contraditório, não as queremos perto, mas as carregamos dentro de nós como frequentes interlocutores.

O ressentimento é um péssimo conselheiro porque só se constrói no ambiente da vingança.

Na oração do Pai Nosso, Jesus demonstra que podemos cozinhar em banho-maria as nossas mágoas. No entanto, o gosto sempre será amargo. A panelinha vai se transformar em um caldeirão de vinganças.

O caldo dessa panela pode nos motivar com energias novas, contudo, esse experimento vai comprometer a nossa saúde.

O sumo da panela da vingança pode acender a luz dos olhos, no entanto vai apagar a nossa paz.

Que a oração seja uma experiência de falar de coisas difíceis para conseguir seguir leve. Não carregar a mágoa como se ela fosse nosso GPS. Assim como, não ser travado pela culpa como se ela fosse nosso estigma.

Orar para deixar respirar as nossas feridas porque elas precisam cicatrizar. Conviver com marcas que nos fazem lembrar, sem, contudo, doer.

Jesus ensinou uma oração curta com sete petições e sugere que assim como o pão é essencial para o corpo, o perdão é fundamental para a alma. Não se vive sem pão, muito menos sem perdão.

Há quem entenda Jesus a partir da chave de leitura da culpa. Quanto a minha espiritualidade, mudei a chave. Jesus ensinou e encarnou o perdão.

Lembrar que depois de uma quarentena Jesus foi tentado. Sua resposta foi firme: Nem só de pão vive o homem, mas também de perdão!

Claro que você sabe que eu enxertei a segunda parte da resposta. Mas convenhamos, nada que comprometa a essência do ensino de Jesus. Precisamos do pão para o corpo e do perdão para a alma.

 

Valdemar Figueredo
Editor do Instituto Mosaico, Pesquisador da USP (pós-doc), cientista político e pastor