A morte é um encontro

A morte para os miseráveis e cansados é um ‘encontro’ desejado; para os seguros e tranquilos, é um ‘encontro’ amargo (segundo o Livro de Eclesiástico 41).

Quando nos encontramos com a morte ela fala dos sentimentos que levamos pelo outro.

Quando a morte nos encontra ela fala dos sentimos que os outros levam por nós.

Embora, todas as religiões que eu conheço falam da morte como uma passagem, para mim, é um encontro: indesejável, inevitável, amargo, esperado…

Não importa: é um encontro!

A morte é um encontro do último sorriso, da última palavra dura, da fragilidade em um leito de hospital; um encontro da morte de três filhos em apenas cinco anos para uma mãe, o encontro de sete irmãos onde lhes faltam três outros irmãos; o encontro dos filhos sem o pai ou/e a mãe, o encontro dos primos sem os tios…

Assim nos encontramos com a morte dos que amamos e assim é que nos enlutamos nesse encontro, não do que parte, mas sim, do que em nós fica, ou o que de nós deixamos. E é por isso que dói tanto: encontrar o que de cada um em nós ficou.

A morte encontra do ser humano a sua verdade: não somos capazes quando nascemos, para morrer somos imperdoáveis! Mas não nos enganemos que a morte e a vida são pães do mesmo trigo e vinhos da mesma vide.

Por que haveria de a vida ser um encontro de amor e a morte apenas uma passagem que nos separa?

Não, a morte é um encontro: do suspiro que inicia e do inspiro que para nós trespassa.

A morte é um encontro de uma festa às avessas: tem de se pensar nos que de distante chega, tem de sorrir (amarelo) para aquele inconveniente, tem de sentar-se para fazer sala, tem de servir o cafezinho para os que trazem as condolências.

E depois, mesmo com o peito sentindo falta de um pedaço, tem de encontrar forças para limpar a casa.

Mirele de Moura

Nordestina do Maranhão, estudou teologia na Faculdade Batista do Rio de Janeiro, vive atualmente em Tocantins. É autora do livro: “Iconoclastia Poética - da religião, da angústia, do erotismo e outros assuntos”. Atualmente divide seu tempo entre seus alunos e a escrita de seu segundo livro.

OPINIÃO
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