Mãe em trânsito

Depois da escola, rua. Geralmente, bola. Descalço e descabelado, sempre. Alimentado. Fome de bola. No campo, de olho na rua frontal. Quando ela dobrava a esquina, eu corria para encontrá-la. Talvez, o único motivo que me levava a sair de campo no meio da partida.

Olaria, região da Leopoldina, subúrbio, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Entre os meus 10 e 15 anos.

Era rápido. Queria aproveitar. Ela tomava banho, trocava de roupa, tirava coisas da bolsa e colocava outros itens. Eu acompanhava a dinâmica da mudança de bagagem dela dia sim, dia não. O que ela usava para o plantão de dia não serviria para o outro trabalho, plantão da noite. Alternava dois empregos: empregada doméstica de dia e servente num hospital à noite.

No final da tarde, sempre que estava em casa, eu carregava a bolsa dela e a acompanhava até o ponto de ônibus. Assim que ela subia, a porta fechava e o motorista dava a partida ao coletivo, eu ficava acenando na calçada até perdê-la de vista.

Longe dos olhares, quase sempre, eu chorava. Era tão doída aquela despedida que por mais frequente, eu jamais me acostumava. Nada dizia a ela. Quando acenava, vestia o meu melhor sorriso.

Pés descalços, cabelos caracolados embaraçados, sem camisa, mas com um sorrisão na calçada. Era o meu gesto para dizer que estava tudo bem.

Voltava para casa. Apartamento pequeno de dois quartos compartilhado com cinco irmãs e um irmão. O único lugar em que eu podia chorar, na minha cabeça, sem ser visto, era no banheiro. Aproveitava o banho da noite para chorar no chuveiro e fazer planos de começar a ganhar dinheiro para que mãe não precisasse trabalhar tanto.

Lembro de um dia quando voltei da escola. Resolvi não jogar bola. Almocei, tomei banho mais cedo, vesti minha única calça comprida, penteei o cabelo repartindo para o lado e coloquei a minha melhor camisa.

Fui à galeria comercial, loja por loja, pedir emprego aos 13 anos de idade. Na loja de tintas, com a voz tímida, pronunciei a frase ensaiada. Os olhos do senhor, suponho que fosse o dono da loja, ficaram marejados. Na minha memória, era como se dissesse que gostaria de me ajudar, mas não podia.

Voltei para casa ainda a tempo para me desarrumar para receber mãe e ela não desconfiasse da minha tentativa. Ela chegou com a sua bolsa pesada e seu olhar leve.

Lembro do abraço afetuoso e dos beijos cheios de saudades. No final daquela tarde a levei ao ponto de ônibus. Os gestos de sempre. A dor em saber que noite sim, noite não, ela não dormiria.

A dor em saber que jamais me acostumaria com a falta dela.

Valdemar Figueredo

Editor do Instituto Mosaico, professor universitário, pesquisador (Grupo de pesquisa Passagens, IFCS-UFRJ), cientista social e pastor. Doutor em Ciência Política (Iuperj, atual IESP-UERJ), Doutor em Teologia (PUC-RJ). Pós-doutorado em Sociologia (USP).

OPINIÃO
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