5ª Marcha Para Jesus, em São Paulo, no feriado de Corpus Christi, quinta-feira, 04 de junho de 2026, dirigida e protagonizada pelo autodenominado apóstolo Estevam Hernandes, fundador da Igreja Renascer em Cristo.
O presidente Lula compareceu de uma forma esquisita
Ligou para o advogado-geral da União, Jorge Messias, que intermediou a conversa, deixando-se filmar com o aparelho de celular em viva voz.
Entre os evangélicos, é corrente a fala de que só há um intermediário entre Deus e os homens, Jesus Cristo. Mas neste caso, a mediação da conversa entre o presidente Lula e o Estevam Hernandes, organizador da Marcha para Jesus, aconteceu através do Jorge Messias.
Ficou parecendo uma jogada de craques. No palco da extrema direita, o presidente deu o ar da graça dizendo que não gosta de se aproveitar eleitoralmente do espaço sagrado. Na mesma jogada, o futuro ministro do Supremo Tribunal Federal demarcou o seu espaço entre os evangélicos, ainda que não seja estigmatizado como terrivelmente evangélico.
O advogado-geral da União Jorge Messias compareceu como mediador
Jorge Messias persiste na estratégia de provar os três atributos que julga essenciais para assumir a cadeira vaga no Supremo Tribunal Federal (STF): possui reputação ilibada, notável saber jurídico e é evangélico.
Enquanto pragmatismo político, jogo jogado tentando furar a bolha de um segmento aparentemente fidelizado à extrema direita. Contudo, Lula e Messias tabelaram no sentido de legitimar a liderança de um pseudoapóstolo que ao promover a marcha zomba da mensagem de Jesus e ridiculariza a inteligência dos evangélicos.
A cena foi um simulacro de dupla face, religioso e eleitoral.
Lula não devia ter ligado. Jorge Messias não devia seguir atrás daquele trio elétrico.
Presumo que o simulacro em nome de Jesus custa caro. Para sustentá-lo, aportes de emendas parlamentares e recursos públicos da prefeitura e governo de São Paulo.
O Flávio Bolsonaro compareceu como se fosse crente
O pré-candidato à presidência (PL) portou-se como profeta da guerra cultural. Alegou para a multidão que estamos numa “guerra espiritual”. Assume como missão desalojar e expulsar os poderes do mal que governam o Brasil. Portanto, na lógica do Flávio, sua missão é divina, assim como fora a do pai.
No vocabulário do Flávio: sua família é messiânica, culto é comício, igreja é partido, Lula é o diabo, Tarcísio é coadjuvante, Estevam Hernandes é cabo-eleitoral, multidão é massa de manobra e Jesus é um slogan.
“Em nome do Senhor Jesus, amém!”, bradou o candidato em campanha.
A marcha para Jesus sem Jesus
Na marcha para Jesus organizada pelo apóstolo e patrocinada/financiada por políticos, não houve tapetes coloridos de sal, serragem e pó de café nas ruas.
A marcha foi para Jesus? Não. Foi para o dono da patente. Patrocinada com dinheiro público. Palco político eleitoral.
Os artistas que se apresentaram são das produtoras credenciadas. O gospel de SP é de um dono, enquanto o do RJ é doutro. Espíritos territoriais com poderes de principados e potestades. Artistas funcionários que vendem a voz e a consciência.
Jesus não compareceu. Porque não foi convidado. Porque não importa. Porque não tem título de eleitor. Porque não tem nem produz dinheiro com a sua mensagem. Porque recusou e recusa as ofertas nas tentações do deserto. Porque não sobe em trios elétricos pagos com emendas parlamentares.
Jesus não sabe marchar. Sem jogo de cintura. Não se habitua ao peso da bota.
Longe da marcha, no mesmo dia e hora do showmício gospel eleitoral, Jesus foi visto na periferia da cidade na casa de uma menina de 11 anos. Grávida, estuprada, por lei, terá que ser mãe, caso sobreviva.
Assim os promotores da marcha impuseram usando o nome de Deus: prenhas são obrigadas a parir.
Jesus foi à casa da menina, longe dos olhares, sem qualquer publicidade, para carinhosamente abraçar a criança que está obrigada a ser mãe.
Jesus não legisla, ama. Jesus não julga, escreve na areia. Jesus não marcha, apenas caminha…
Jesus caminha amorosamente nas margens e bordas humanas enquanto igrejas de patentes, com botas e bandeiras de Israel, promovem a marcha da insensatez no centro das cidades.
No Corpus Christi promovido pela Marcha para Jesus, o nazareno filho de José e Maria não foi.