Senhor, livra-nos das balas perdidas!

No domingo pela manhã, dia lindo na cidade do Rio de Janeiro, temperatura amena, do alto do morro, víamos o mar.

Final da Copa do Mundo, movimentação diferente na comunidade. As pessoas conversavam na padaria e nas calçadas da ladeira sobre o jogo. Não era diferente no pátio da igreja, previsões e tendência predominante de torcida pela Seleção da Espanha.

Quando entramos no templo, sentimo-nos gratificados pela brisa do mar e pelos acodes dos instrumentos musicais. Mesmo numa igreja evangélica, a música da beira-mar da zona sul do Rio é bossa. Tem a ver com ondulações do mar e gingado descontraído, a música escorrega das pautas rígidas.

Gingado mareado.

O momento do louvor é também instante do abraço. Tudo misturado. Uns fecham os olhos com as mãos levantadas como se quisessem tocar em Deus. Outros circulam pelo templo abraçando quem vê pela frente na coreografia no afeto humano. Não são movimentos estanques, mas gestos simultâneos.

Eis que uma irmã chamada para orar se expressou nestes termos:

– Senhor, livra-nos das balas perdidas!

Pesou o clima ameno?

Faz parte da paisagem. Segue a liturgia.

Na oração tão curta, havia implícito o desvendar do cotidiano da semana anterior: conflitos armados pela disputa do território entre facções rivais.

Perceba que a irmã que orou foi modesta no pedido. Ela não implorou pelo fim do conflito. Não rogou pela intervenção do Estado. Sequer intercedeu por um milagre divino com a manifestação da justiça e estabelecimento da paz.

Na oração, parecia que a irmã estava admitindo que nesta semana haveria novos conflitos, nada poderia fazer para desinstalar os meninos em frente a sua casa, como se fosse inevitável subir e descer a ladeira e as escadarias enquanto facções rivais demonstram o poder de fogo que dispõem.

Resignada, tão somente pedia que as balas, cada vez em maior número, cada vez de armas de mais grosso calibre, não nos atinjam.

Eu achei a oração tão lúcida, tão simples, tão sofrida, tão lacônica e tão sem esperança de dias melhores, que me restou dizer amém!

Fim do culto, voltamos a falar da final entre Espanha e Argentina.

Hoje, enquanto escrevo esta coluna, após ter vibrado ontem mais com a derrota da Argentina do que com a vitória da Espanha, longe da minha comunidade de fé, nas minhas orações não consigo ir além da voz resignada e sofrida da minha irmã que ainda ecoa na minha mente. Minha oração:

Senhor, livra-os das balas perdidas!

xxx

O “discutir o sexo dos anjos” é o esporte praticado e difundido entre os círculos cristãos intelectualizados voltados para a classe média. Sobra papo cabeça sobre identitarismo e falta falar o mínimo sobre desigualdade social estrutural e crônica.

A reedição do “discutir o sexo dos anjos” é recuperar as densas trevas medievais sob a roupagem do neoconservadorismo cristão.

Em época em que prevalece a teologia coach, a minha irmã que fez a oração lacônica é estigmatizada como mulher sem fé.

Na impossibilidade de fazer cessar os tiros, que Deus nos tire da mira. E vida que segue!

Valdemar Figueredo

Editor do Instituto Mosaico, professor universitário, pesquisador (Grupo de pesquisa Passagens, IFCS-UFRJ), cientista social e pastor. Doutor em Ciência Política (Iuperj, atual IESP-UERJ), Doutor em Teologia (PUC-RJ). Pós-doutorado em Sociologia (USP).

OPINIÃO
As ideias aqui apresentadas são de responsabilidade exclusiva de quem assina o texto, não correspondendo, necessariamente, ao posicionamento do Instituto Mosaico.