Estamos de acordo que a Igreja não tem donos e, por ser cristã, precisa ter a ver com a mensagem de Jesus. O Estado é laico, e a separação entre Igreja e Estado é uma conquista fundamental.
Temos assistido à escalada de apóstolos, bispos e pastores a serviço de líderes e partidos políticos. Uns fazem isso com fervor despudorado, como se fosse missão religiosa, enquanto outros dissimulam com malabarismos retóricos, com a Bíblia na mão como símbolo de autoridade. Você acha que a unção que Deus deu ao seu pastor para pregar o Evangelho tem legitimidade para influenciar o seu voto nas eleições?
Na condição de pastor batista, expresso o meu solitário manifesto. Aliás, essa é uma dor antiga que carrego. Nos meus exercícios espirituais, peço a Deus que me trate terapeuticamente, para que a raiz de amargura não sufoque o fruto do Espírito que desejo produzir com graça, beleza e simplicidade.
Portanto, declaro às Igrejas Batistas do Leme e da Esperança — comunidades de fé nas quais estou inserido na força da teimosa esperança, ventada pelo Espírito Santo —, com reverência e respeito por tantos pastores e pastoras éticos que não mercadejaram o evangelho na arena político-partidária eleitoral, os seguintes princípios:
- Fidelidade à sacralidade do ministério pastoral: Templo não é comitê, púlpito não é palanque, pastor não é político e Bíblia não é “santinho”.
- Garantia da expressão da cidadania: Fica proibido entre nós, nos espaços comuns da Igreja, constranger os irmãos com discursos de convencimento eleitoral.
- A Igreja prima pela legalidade: Qualquer discurso e prática que visem promover o rompimento democrático é crime contra o Estado e pecado no âmbito da Igreja local, passível de consequências legais e disciplinas eclesiásticas.
- Sistema de governo eclesiástico democrático congregacional: Enquanto batistas que adotam tradicionalmente o regime de governo democrático congregacional, entre nós, quem não respeita a lei do Estado não merece ter direito a voz e voto nas nossas assembleias. Questão de coerência.
- A linguagem da Igreja no testemunho público: Discurso de ódio não será tolerado nos nossos cultos, nem estimulado como modo de se expressar nas redes sociais para promover valores morais que julgamos os melhores. Jesus se notabilizou como o “Príncipe da Paz” e se autodefiniu como “manso e humilde” (Mateus 11.29). Por causa da disputa política, muitos evangélicos, estimulados por redes de comunicação evangélicas, perdem a linha e o juízo, dando um péssimo testemunho à sociedade.
- A sensatez de não tomar o nome de Deus em vão na arena pública: A indústria das fake news descobriu que embalar mentiras com páginas da Bíblia alcança engajamento e adquire credibilidade. Jesus deixou claro quem é o pai da mentira: “Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (João 8.44).
- Autonomia financeira institucional: A Igreja não recebe dinheiro ou subsídios financeiros de órgãos públicos ou políticos em campanha. Fica expressamente proibido na Igreja Batista do Leme e na Igreja Batista da Esperança receber dinheiro ou benefícios nos moldes políticos de emendas Pix que funcionam no modo de orçamento secreto.
- Transparência pública como dever evangélico: O que é feito sem transparência pública não é republicano e, muito menos, evangélico. Jesus condenou os esquemas e a duplicidade dos religiosos gulosos de poder e dinheiro. Ele celebra a ética da autenticidade em detrimento da ética da conveniência: “Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disso passar vem do maligno” (Mateus 5.37).
- Governança auditável: A Igreja deve ser auditável porque não é um empreendimento particular. Todos os atos e convênios assumidos pela igreja devem ser auditáveis, e os líderes são responsáveis por prestação de contas. Igreja sem a comissão de exame fiscal devidamente registrada em cartório, e formada por membros eleitos pela assembleia regular, não deveria manter na fachada o nome batista.
- Liberdade absoluta de voto: Vote segundo a sua consciência, necessidades e interesses. O que o teu pastor tem a ver com o seu voto? Nada. Caso perceba que querem lhe influenciar na Igreja colocando sobre os seus ombros o medo e a culpa, lembre daquele verso: “Importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5.29). Liberte-se de todo jugo e tutela de políticos que usam igrejas como seus comitês eleitorais.