Há esperança? A maldade que nos habita e procura por culpa

O relato do dilúvio é frequentemente lido como narrativa de castigo, mas o texto de Gênesis oferece algo mais inquietante: um diagnóstico antropológico. Em Gênesis 6:5 afirma-se que a maldade humana se multiplicara e que todo desígnio do coração era continuamente mau. Em 6:11-13, a terra aparece “corrompida” e “cheia de violência”, vocabulário que visa aglutinar as todas as esferas da existência. A violência não é episódio isolado: é atmosfera, estrutura, ecossistema moral.

O dado mais perturbador, contudo, vem depois. Em Gênesis 8:21, passado o juízo, Noé constrói um altar e oferece holocaustos. Deus então declara que jamais voltará a amaldiçoar a terra por causa do homem, “porque o desígnio do coração humano é mau desde a sua meninice”. A fórmula é quase idêntica à de Gênesis 6:5, mas a função é inversa. Antes, a inclinação do coração justificava o juízo; agora, fundamenta a paciência divina. O dilúvio, portanto, não curou o coração humano, e Deus mesmo anuncia isso. A condição violenta permanece inalterada no sobrevivente, e é sobre esse reconhecimento, não sobre uma ilusão de pureza restaurada, que se estabelece a aliança. A graça parte do realismo da condição humana.

Erich Fromm, em “Anatomia da Destrutividade Humana”, chega por outro caminho a uma intuição convergente. Psicanalista de formação humanista, ele recusa a ideia de que a crueldade seja simples resíduo animal. Os animais lutam por sobrevivência; só o ser humano mata por prazer, tortura, fascina-se pela morte. Essa destrutividade maligna, que Fromm associa ao sadismo e à necrofilia como orientação de caráter, não é instinto herdado, mas possibilidade enraizada na própria condição humana: um ser que tem consciência de si, de sua finitude e de seu isolamento, e que precisa responder a essas condições existenciais. Quando a resposta construtiva da vida, que ele chama biofilia, é bloqueada, a energia vital pode converter-se em ódio à vida. A maldade, assim, é potencialidade inerente, ainda que não fatalidade. Nas páginas finais, Fromm articula uma esperança sóbria: a de que mudanças sociais e uma humanização da sociedade técnica possam favorecer a biofilia sobre a necrofilia. É uma esperança sem garantias, consciente de sua fragilidade.

Primo Levi aproxima-se do mesmo problema pelo testemunho. Em “É isto um homem?”, o sobrevivente de Auschwitz relata o mundo do campo de concentração em que a pergunta “por quê?” é recusada em favor da conclusão “aqui não há porquê” (ironicamente, dita a ele por um guarda). A frase é quase uma teologia negativa do campo: o mal ali opera sem justificativa que o torne inteligível. Em “Os afogados e os sobreviventes”, escrito quatro décadas depois, Primo Levi amadurece essa reflexão. Rejeita a comodidade de tratar os perpetradores como monstros e observa que os monstros são raros demais para serem o verdadeiro perigo; perigosos são os homens comuns, prontos a obedecer sem questionar. Daí a noção de “zona cinzenta”: a fronteira entre vítima e algoz é porosa, e a opressão corrompe também os oprimidos. Primo Levi hesita diante da tentação de explicar, pois “compreender é quase justificar”. Em sua obra, o mal não se deixa reduzir a uma causa, mas deixa uma advertência: aconteceu, portanto pode acontecer de novo. É importante lembrar que Levi não encontrou consolo religioso; Auschwitz, dizia, tornava a fé impossível para ele. Seu testemunho é valioso justamente por não ser edificante.

Aproximados, os três textos desenham uma convergência notável. Gênesis localiza o mal no coração, e não em uma classe de homens especialmente violentos. Fromm o localiza na condição existencial do ser humano, e Primo Levi, na normalidade dos funcionários, dos vizinhos, dos que obedeceram. Nos três casos, o mal deixa de ser problema do outro. Não há categoria de “maus” a ser identificada e expurgada, porque o impulso destrutivo é compartilhado. Nenhum dos três oferece uma origem exata: o relato bíblico narra a corrupção sem explicar como o desígnio do coração se tornou mau; Fromm descreve as condições, mas não elimina o mistério da escolha pela destruição; Levi se detém diante do “não há porquê”.

É nesse ponto que a tese precisa de cuidado. Dizer que a maldade “não é culpa de ninguém” só é verdadeiro em um sentido restrito: ela não é culpa de um bode expiatório, de um povo, de um regime ou de uma figura demoníaca à qual possamos atribuí-la para nos absolvermos. A maldade é condição comum, anterior a qualquer indivíduo, herdada como a linguagem e o luto. Mas isso não equivale a inocência. A formulação mais fiel talvez seja esta: a maldade não tem um dono exterior a nós, e por isso pertence a todos. Se ninguém é o único culpado, todos são implicados. A culpa deixa de ser acusação ao outro e converte-se em autoconhecimento.

O apóstolo Paulo descreve a mesma experiência com uma honestidade desconcertante: “não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse pratico” (Rm 7:19), e conclui com o grito: “Quem me livrará do corpo desta morte?”. A resposta não é um caminho simples com direções claras e objetivas. O mesmo Deus que em Gênesis 8:21 suporta um coração inclinado ao mal apresenta-se, na cruz, como quem aponta a direção da transformação. Se o dilúvio não transformou o coração, a cruz declara que a transformação não é juízo que destrói, mas pelo amor que se entrega.

Essa transformação, no entanto, não é espetáculo único; é cotidiana. O amor de Cristo opera nas pequenas decisões onde a zona cinzenta de Primo Levi se forma: a recusa em obedecer sem pensar, a disposição de ver o rosto do outro quando seria mais cômodo vê-lo como categoria, a confissão de que o impulso destrutivo também é meu. Em termos “frommianos”, trata-se de uma educação da biofilia, uma escolha reiterada pela vida. Paulo a descreve como renovação: “quem está em Cristo é nova criatura” (2 Co 5:17), mas sempre em processo, “de glória em glória” (2 Co 3:18). Não é uma mudança imediata, e Noé continua sendo advertência de que a própria religiosidade não é fim. Promete-se algo mais modesto e mais profundo: que o coração reconhecido como mau pode ser, dia após dia, habitado por um amor que não é dele.

A conclusão, portanto, é dupla. Do ponto de vista diagnóstico, é preciso abandonar a fantasia de que o mal reside apenas nos outros; ele está em cada um de nós, sem origem plenamente decifrável e sem um único culpado. Do ponto de vista da esperança, a fé cristã sustenta que essa condição não é a palavra final. Como em Gênesis 8, a graça não nega o realismo sobre o coração humano, mas o toma como ponto de partida. É porque o mal nos habita que o amor de Cristo precisa nos habitar, e é na rotina, nas escolhas minúsculas e repetidas, que essa habitação se torna visível.

Edson Nunes

Pastor da Comunidade, em São Paulo, capital. Formado em Letras e em Teologia (Unasp), com mestrado e doutorado em Bíblia Hebraica (USP) e estágio de pós-doutorado em Bíblia Hebraica (University of California, Berkeley). Pesquiso a Bíblia como literatura e, por isso, me interesso em narrativa bíblica e poesia bíblica.

OPINIÃO
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