Clichê bíblico na CPI da pandemia

Foto: Pablos Jacob/ Agência O GLOBO. Empresário Carlos Wizard chega para prestar depoimento na CPI da Covid.

Maratonando as sessões da CPI da Pandemia, levam-nos a ponderar que parece às vezes que a Bíblia é mais citada do que a Constituição. É bastante recorrente o uso da Bíblia para fundamentar ideias nos debates e para legitimar práticas políticas. Vamos a alguns exemplos recentes em torno da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia no Senado Federal.

23/06/21 (quarta-feira). Onyx Lorenzoni (DEM-RS), ministro da Secretária-Geral da Presidência, convocou uma coletiva de imprensa para refutar as acusações sobre irregularidades – superfaturamento – na compra da vacina Covaxin.[1] As denúncias foram feitas por Luis Ricardo Miranda, servidor do Ministério da Saúde, e o seu irmão, Deputado Luis Claudio Miranda (DEM-DF). Em síntese, sinalizaram que houve uma pressão atípica para a compra do imunizante indiano, o que levanta a suspeita de favorecimentos. Onyx Lorenzoni fez a defesa do governo e afirmou que não há qualquer irregularidade. Para tanto, utilizou versos bíblicos, dispersos, fora do contexto, para servir como escudo. Antes de tecer comentários técnicos sobre as acusações, recorreu ao livro sagrado dos cristãos:

Porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes (Efésios 6.12).

Lorenzoni abriu a coletiva de imprensa com o verso bíblico e fechou em tom ameaçador como a proferir uma maldição contra o denunciante: “Deputado Luis Miranda, Deus está vendo. Mas o senhor não vai só se entender com Deus, mas com a gente também.”. Na prédica política à Lorenzoni, Deus não julga, apenas executa as ordens das autoridades eleitas.

25/06/21 (sexta-feira). O Deputado Luis Miranda (DEM-DF) chegou ao senado usando colete a prova de balas e segurando uma Bíblia.[2] Dois dias antes o ministro Onyx Lorenzoni (DEM-RS) usou a Bíblia para atacar. Nos corredores do senado que levavam ao auditório onde ocorre a CPI da Pandemia, o deputado Luis Miranda caminhava como se estivesse blindado, devidamente protegido contra investidas físicas (colete) e ataques espirituais (Bíblia). Na quarta-feira, o ato de fala do Onyx Lorenzoni foi a partir de Efésios 6.12. Na sexta-feira, Luis Miranda ritualizou os versos 10 e 11 do mesmo capítulo:

Quanto ao mais, sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder. Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo (Efésios 6.10, 11).

Vestindo a sua “armadura”, atento para não cair em ciladas, Luis Marinho fez uso da interlocução não verbal. Finalizou o seu discurso de abertura da sessão com as seguintes palavras e gestos: “Nós estamos baseados na verdade e na palavra de Deus”. Nesse instante, deu um leve toque na Bíblia que colocou sobre a mesa da presidência da CPI da Pandemia.[3]  Mesmo na condição de um livro fechado, na política brasileira atual, a Bíblia evoca sentidos múltiplos, não necessariamente cristãos ou republicanos.

30/06/21 (quarta-feira). O empresário Carlos Wizard chegou para depor na CPI segurando uma placa citando um verso bíblico do livro do profeta Isaías.[4] Nos casos citados anteriormente, Onyx Lorenzoni (DEM-RS) se apropriou do texto e o usou segundo os seus interesses, Luis Marinho (DEM-DF) ritualizou o livro como a pretender dele fazer um amuleto, enquanto Carlos Wizard se reservou ao direito de permanecer em silêncio durante toda a sessão, mas abriu uma exceção fazendo da plaquinha o indicativo do seu clichê. Numa típica linguagem de marketing, trouxe uma tag de identificação em que o texto curto diz muito sobre a embalagem e o conteúdo. Wizard quis vincular sua imagem ao que diz Isaías sobre “blindagem” em situações políticas perigosas:

Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou o teu Deus; eu te esforço, e te ajudo, e te sustento com a destra da minha justiça (Isaías 41.10).

Curioso que não sabemos se o texto bíblico por ele indicado refere-se só a ele ou nos inclui também. Ao que tudo indica, recorta o texto bíblico para a sua condição pessoal e não o interpreta no sentido comunitário. O Brasil caminha para 600 mil mortos causadas pela pandemia do Coronavírus e o depoente chegou ostentando uma plaquinha que fala de livramento e justiça.

A senadora Eliziane Gama (CIDADANIA-MA) fez uma arguição baseada na tag do Carlos Wizard, do religioso, filantropo e empresário bem-sucedido.[5] O clichê de homem escolhido e abençoado foi contrastado com os milhares de brasileiros desamparados na Pandemia. A senadora fez a hermenêutica de texto bíblico a partir das referências sugeridas pelo depoente. Enquanto Wizard cita Isaías para justificar a sua própria excepcionalidade, Eliziane cita o mesmo profeta para denunciar o charlatanismo:

Os teus príncipes são rebeldes, e companheiros de ladrões; cada um deles ama as peitas, e anda atrás das recompensas; não fazem justiça ao órfão, e não chega perante eles a causa da viúva (Isaías 1.23).

Pela posição estratégica de conselheiro do então ministro da saúde – Eduardo Pazuello – o depoente poderia ter sido mais efetivo e salvado milhares de vidas, segundo a senadora. O contrário disso, maus conselhos podem ter determinado milhares de mortes. Nesse ambiente de omissão e responsabilidade, a senadora cita novamente o texto bíblico:

Mas, se quando o atalaia vir que vem a espada, e não tocar a trombeta, e não for avisado o povo, e a espada vier, e levar uma vida dentre eles, este tal foi levado na sua iniquidade, porém o seu sangue requererei da mão do atalaia (Ezequiel 33.6).

A senadora continuou denunciando os irresponsáveis propagadores de curas milagrosas. Vendedores de ilusões que lucram com as suas mentiras. Definitivamente, os livros proféticos da Bíblia não são os mais apropriados para servir de manual de autoajuda, linguagem que o empresário Carlos Wizard conhece bem. Eliziane Gama arrematou lembrando ao Carlos Wizard sobre o que Jesus disse a respeito da duplicidade, hipocrisia com roupagem religiosa, instrumentalização do sagrado para fins obscuros:

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia. Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniquidade (Mateus 23.27, 28).

Logo após a arguição da senadora, o presidente da CPI da Pandemia, senador Omar Aziz (PSD-AM), fez uma calorosa saudação, segundo ele, aos verdadeiros cristãos, em contrastes com os hipócritas que publicam os seus feitos.[6] Fazem o bem e fazem questão de serem vistos. Na verdade, Omar Aziz comparou a atitude religiosa de Carlos Wizard com a postura da senadora Eliziane Gama. Houve um aparte do senador Renan Calheiros (MDB-AL). Na mesma linha adotada pelo Omar Aziz, o relator da CPI qualificou a fala da senadora como brilhante e arrematou citando um verso bíblico que sugere duplicidade do depoente:

A justiça do sincero endireitará o seu caminho, mas o perverso pela sua falsidade cairá (Provérbios 11.5).

Na sequência, depois das ponderações do presidente e relator da CPI da Pandemia, foi a vez do senador Humberto Costa (PT-PE) introduzir a sua arguição com um enunciado bíblico.[7] Ele o fez como uma epígrafe, sem qualquer necessidade de revelar quem originalmente disse, para quem disse e quais as circunstâncias discursivas. Deliberadamente usa o texto como bem quer para justificar o seu duro discurso que viria depois. Citou:

Porque não podemos deixar de falar do que temos visto e ouvido (Atos 4.20).

Ainda repercutindo a fala da senadora Eliziane Gama, Humberto Costa evocou a necessária coragem dos membros da comissão para trazer à tona que o principal cérebro do suposto gabinete paralelo seria justamente o Carlos Wizard. Alega provas concretas que ligam o depoente a promoção de tratamento precoce e a sabotagem do isolamento social. Segundo o senador Humberto Costa, o mais grave é que Carlos Wizard fez esse desserviço aos brasileiros utilizando as estruturas do Ministério da Saúde para promover curandeirismo, charlatanismo e exercício ilegal da medicina. Em síntese, para Humberto Costa, o clichê bíblico aplicado ao Carlos Wizard não se sustenta diante dos fatos narrados. Para desmontar a farsa de santidade autoproclamada por Carlos Wizard, bastaria contar tudo o que “temos visto e ouvido”, concluiu o senador. Essa foi a estratégia adotada pelo senador Humberto Costa.

Como se não bastasse, o vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (REDE-AP), recuperou a citação feita por Wizard do livro de Isaías e o colocou em perspectiva histórica, enfatizando o exílio babilônico no qual os hebreus estavam.[8] Declarou, olhando para os colegas, que o senador Eduardo Girão (PODEMOS-CE) é espírita, a senadora Eliziane Gama (CIDADANIA-MA) é evangélica, enquanto ele é católico. Fez um breve relato da sua experiência religiosa relacionando-a com a sua formação política. Neste contexto, citou a Bíblia, o denominado Sermão do Monte proferido por Jesus:

Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores. Por seus frutos os conhecereis. Porventura colhem-se uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos? (Mateus 7. 15, 16).

Randolfe Rodrigues (REDE-AP) é egresso das comunidades eclesiais de base (CEB’s) e da pastoral da juventude (PJ). Seu letramento político se deu no ambiente progressista da Igreja Católica em que a hermenêutica bíblica estabelece como chave-de-leitura os sentidos de libertação, justiça e emancipação. Exibe com orgulho o anel de tucum enquanto aliança com as causas populares e aliança com a sua comunidade de fé. Na sessão da CPI da Pandemia, confrontou o depoente Carlos Wizard dizendo que a palavra de Deus não é monopólio de ninguém e tirá-la do contexto comunitário para transformá-la em blindagem pessoal é adulterá-la.

Em seguida, foi a vez do senador Eduardo Girão (PODEMOS-CE).[9] Diferente das arguições anteriores, Girão não se refere ao uso do texto bíblico por parte do Carlos Wizard, estranha e condena que seus pares da CPI tenham feito uso extensivo da Bíblia para constranger o depoente. Vocifera como se a sessão tivesse passado de todos os limites do razoável, seja nos termos republicanos ou religiosos. Adverte que “tomar o nome de Deus em vão” é atitude típica dos políticos hipócritas. Segundo ele, a cada dia a CPI da Pandemia vai mostrando a sua cara. Fez referência à forma dura como Jesus repreendeu os vendilhões do templo.

O senador Eduardo Girão destoou completamente da linha adotada pelos seus colegas da comissão. Repreendeu fortemente o uso ostensivo da Bíblia para fins políticos, não a breve referência do Carlos Wizard, mas a insistência dos senadores que através de citações bíblicas encaminhavam seus pressupostos em longos discursos para, segundo ele, constranger o depoente.

Quanto ao senador Alessandro Vieira (CIDADANIA – SE), dirigiu-se ao Carlos Wizard elogiando a sua trajetória de vida. No entanto, nesta etapa, enquanto alguém que se envolve com um governo negacionista, contradisse a própria história de vida.[10] Eivado pela vaidade, colocou a crença individual à frente da ciência e do bom senso. Segundo o senador, o depoente chegou ao ponto de se sentir seguro para prescrever tratamentos ditos precoces. Mas, sua segurança estava respaldada em quê? A segurança patrimonial não deveria ser transferida para se colocar na posição de agente público com tamanha responsabilidade na pandemia. Tentativa de assumir o protagonismo, mesmo em relação à instituição Ministério da Saúde. Alessandro Vieira embasou sua argumentação ética a partir de um provérbio bíblico:

O temor do Senhor ensina a sabedoria, e a humildade antecede a honra (Provérbios 15:33).

***

Maratonando as sessões da CPI da Pandemia, constatamos que ainda que se saiba como uma CPI começa, a sua evolução e consequências são imprevisíveis. Historicamente, já houve no parlamento brasileiro CPI´s que começaram com muitas expectativas, mas malograram nos seus objetivos. Enquanto outras, começaram tímidas, sem chamar muita atenção, mas resultaram em questões objetivas que determinaram responsabilizações e geraram sérias consequências jurídicas, econômicas e políticas. Por mais que haja sistematização da investigação que elucide os fatos, gere dados e racionalize o relatório final, as CPI´s são expressões que dizem respeito também às contingências políticas.

Neste sentido, não nos precipitaremos com previsões. Mas existe um fator que já podemos inferir, independentemente dos próximos encaminhamentos e resultados da CPI da Pandemia: a base política que defende o governo caracteriza-se pelo negacionismo científico utilizando amplamente o clichê bíblico. Para tanto, pouco importa se o usuário desses textos bíblicos dispersos for espírita, católico, agnóstico, mórmon, maçom, evangélico, judeu, neopentecostal, umbandista ou ateu.

No entanto, o uso do clichê bíblico não é propriedade da base aliada. Quem na CPI aponta desvios, corrupção, omissão do governo, regularmente o faz com uma retórica em que o texto bíblico é no mínimo citado. Retórica que leva em conta tanto o texto quanto o público receptor. Quem discursa na CPI sabe que está falando para além daquela sala, que suas colocações reverberam tanto na mídia jornalística quanto nas redes sociais da internet. Nossa hipótese é que os opositores do governo reconhecem que as atuais polarizações políticas passam tanto pela disputa da narrativa científica quanto pela disputa da narrativa bíblica.

Os sinais dos tempos, de uma pandemia que caminha para 600 mil mortos no Brasil são que no Senado Federal, em sessões ao vivo para milhares de brasileiros sobreviventes, cita-se mais a Bíblia do que a Constituição Federal. Exagero da nossa parte? Quem dera! Ah, quem dera, meu Deus!


[1] COLETIVA de Imprensa no Palácio do Planalto. TV Brasil. Transmitido ao vivo em 23 jun. 2021. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=12Ul3HN5Iuo&t=31s>. Acesso em: 05 jul. 2021.

[2] CPI da Pandemia. TV Senado. Irmãos Miranda depõem sobre contrato da vacina Covaxin. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=FCsxspyWCMY>. Acesso em: 05 jul. 2021.

[3] CPI da Pandemia ouve deputado e servidor do Ministério da Saúde sobre a Covaxin. TV Senado, 25 jun.2021.  Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=5UdxWLtjDME>. Acesso em: 05 jul. 2021.

[4] CARLOS Wizard nega existência de gabinete paralelo e depois se cala na CPI da Pandemia. TV Senado, 30 jun. 2021. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=5DTKP2vlPUA>. Acesso em: 05 jul. 2021.

[5] CPI da Pandemia ouve o empresário Carlos Wizard. TV Senado, 30 jun. 2021. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=6Z-vBITucrg>. Acesso em: 03 jul. 2021.

[6] CPI da Pandemia ouve o empresário Carlos Wizard. TV Senado, 30 jun. 2021. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=6Z-vBITucrg>. Acesso em: 05 jul. 2021.

[7] CPI da Pandemia ouve o empresário Carlos Wizard. TV Senado, 30 jun. 2021. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=6Z-vBITucrg>. Acesso em: 05 jul. 2021.

[8] CPI da Pandemia ouve o empresário Carlos Wizard. TV Senado, 30 jun. 2021. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=6Z-vBITucrg>. Acesso em: 03 jul. 2021.

[9] CPI da Pandemia ouve o empresário Carlos Wizard. TV Senado, 30 jun. 2021. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=6Z-vBITucrg>. Acesso em: 05 jul. 2021.

[10] CPI da Pandemia ouve o empresário Carlos Wizard. TV Senado, 30 jun. 2021. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=6Z-vBITucrg>. Acesso em: 05 jul. 2021.

Valdemar Figueredo
Editor do Instituto Mosaico, Pesquisador da USP (pós-doc), cientista político e pastor