Livrai-nos do Mal

A religião sempre abusou dos dispositivos de controle social, impondo medo e culpa nas pessoas. Isso não é exclusividade apenas do cristianismo. As tradições cristãs, com suas doutrinas e teologias, em geral, sempre usaram três conceitos teológicos que se transformaram em verdadeiras obsessões em alguns períodos da nossa história cristã: o pecado, o inferno e o diabo. Esses conceitos fazem parte das doutrinas cristãs, sejam elas católica e ortodoxa, ou nascidas na reforma do século XVI. Obviamente, hoje, as teologias, e no meu caso a teologia católica, revisaram esses conceitos e os entendem não mais da mesma forma que em tempos passados.

Um desses conceitos ou doutrinas, é um personagem, um ser, um agente do mal. Refiro-me ao diabo ou o demônio. Alguns diziam que ele era o mal personificado, mas ainda que entendamos a sua existência como real, ele sempre seria alguém que nasceu livre e bom, mas que optou plenamente pelo mal. Portanto, alguém que se perverteu, que escolheu fazer o mal e levar os demais seres a perverterem-se. Esse, aliás, seria o objetivo eterno do diabo: fazer o homem também optar pelo mal, rejeitando o amor.

Bom, eu não tenho obsessões religiosas e nem tenho pavor desse personagem. Se o diabo procura tentar, perseguir, possuir o ser humano a resposta a resolução do problema é simples. Há séculos as igrejas expulsam o diabo quase tão facilmente como quando se faz o bebê parar de chorar com umas leves palmadinhas. Basta pouco para ele parar de atrapalhar: um pastor com uma bíblia na mão ou um padre armado de crucifixo e água benta. Em latim, ou até mesmo com um português mal falado, o “encardido” acaba saindo.

Me preocupa mais o diabo de outro gênero, e o vejo mais presente de outros modos.

Me preocupa e me dá calafrios quando o diabo seduz um país inteiro à idolatria da raça e do sangue como aconteceu durante o regime nazista. Ou quando no stalinismo, por uma ideia de Estado ou coletividade, o diabo perseguiu e matou quem pensava diferente.

Me assusta o diabo encarnado em ditaduras como as que vivemos na América Latina poucas décadas atrás, ou presente nos fundamentalismos religiosos que colocam em risco a liberdade e as integridades física e psíquica das pessoas.

Me preocupa quando o diabo resolve rearmar o mundo e investir mais em armamento e na corrida nuclear do que na educação, nas ciências e na eliminação da miséria e das desigualdades sociais. É apavorante ver o diabo que comete chacinas e genocídios por interesses econômicos mal disfarçados.

Recentemente o parlamento de um país aprovou, e celebrou, a pena de morte contra pessoas consideradas terroristas. Alguém, além do diabo, pode alegrar-se com a pena de morte?

Imaginemos se o diabo pudesse dominar uma poderosa nação, fazendo com que seu congresso permitisse abusos dentro de seu próprio país, criando leis que gerassem pânico na população, especialmente nos que para lá emigraram em busca de uma vida mais digna.

Imaginemos como esse diabo poderia invadir outros países, movido pelos mais fortes “valores democráticos”, deixando rastros de caos e arrogância.

Pensemos no caos que seria se ele, o Maligno, decidisse bombardear um país soberano movido por interesses escusos, pouco ou nada importando-se com a população local. Pois é, esse tipo de demônio me causa medo!

E o medo que eu tenho é que esse tipo de demônio não poder exorcizado pela religião, nem com todos os seus ritos e práticas. Esse mal não se expulsa no modo tradicional. Não! Esse tipo de mal só pode ser exorcizado por uma educação humanizadora, por um processo de reconhecimento do valor da vida humana e da dignidade de todos os seres vivos, pelo abandono do egoísmo e pela opção por uma vida cujo fundamento sejam a compaixão e a misericórdia.

Para exorcizar esse mal não basta a religião, é preciso o evangelho vivo de Jesus.

Leonardo Lucian Dall’Osto

Padre da Diocese de Caxias do Sul, no interior do RS. Formado em Filosofia e em Teologia, atualmente é doutorando em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma. Desenvolve sua atuação nas áreas de Teologia Fundamental e história da Igreja.

OPINIÃO
As ideias aqui apresentadas são de responsabilidade exclusiva de quem assina o texto, não correspondendo, necessariamente, ao posicionamento do Instituto Mosaico.