Teologia do Traste na Poesia de Manoel de Barros

Para José Roberto Britto, por ocasião dos seus 80 anos

Recorrente na poesia de Manoel de Barros a nostalgia da infância. O recurso da memória para desinventar o que foi consolidado ao longo do tempo. As coisas dos adultos são desimportantes, por isso devem ser desinventadas. A nostalgia evoca certa involução humana. “A maior riqueza do homem é a sua incompletude. Neste ponto sou abastado.” [1]

Quando ouvimos as crianças falar utilizando a pura lógica infantil, geralmente, as corrigimos fazendo o emprego da norma culta da língua. Quando Barros se depara com a cultura inventada pelos adultos, ele recorre ao universo infantil. O lúdico pode ser o puxar latas com um barbante assim como inventar palavras. O universo encantado (ou selvagem) não é domado pela razão adulta. Não se doma o que não existe. Ou melhor, não se amarra e arrasta a imaginação. Quanto mais solta e livre das normas, melhor.

Imagine alguém gastar tempo falando das coisas desimportantes? Pois é, Barros é desses. Esse tipo que pode ser considerado um imbecil porque não olha na direção em que quase todos fixam o olhar. O poeta fica com o olhar vago e os seus observadores o tomam como distraído. Outras valorações. Enquanto as pessoas atentas se concentram no importante, Barros elabora um tratado das grandezas do ínfimo. Declaradamente mantém interesse pelas insignificâncias; urubus, rãs, passarinhos, mato, caramujos, tartarugas, lesma…

Vai lá quando tal dispersão se nota na criança. Os adultos se incubem em educar, corrigir, socializar, ensinar, enfim, formar a cria para torná-la apta para a cultura. Crianças bem educadas são aquelas que foram endireitadas por algum responsável. Mas, quando o suposto comportamento vago se observa no adulto? Caso se trate de um idoso, corre o sério perigo de ser rotulado num quadro de demência. Na cultura adulta, espera-se das pessoas condições de discernir entre o importante e o desimportante. Para Barros, a matéria-prima da sua poesia são os seres e coisas sem importância. Daí ele rir da própria condição.

O pessoal falou: seu olhar é distorcido. Eu, por certo, não saberei medir a importância das cosias: alguém sabe? [2]

Como medir a importância das coisas? Os leitores apressados correm o risco de não perceberem a dimensão dessa questão para a poesia de Barros. Poeta que ousa colocar no centro da cena o que geralmente é desimportante e sequer notado. Somente alguém com “olhar distorcido” para nos ajudar a dispersar e obtermos a sensibilidade que nos habilita a enxergar beleza nas coisas ínfimas. Os personagens retratados com muito carinho por Barros são andarilhos, loucos, espantalhos, anônimos possuidores de uma estranheza encantadora.

Num belíssimo poema em que retrata a sua infância, ele reflete sobre o brincar com as palavras como o brincar de viver num mundo desabitado de sentidos sólidos e prontos. A infância da palavra.

A gente foi criado no ermo igual ser pedra.

Nossa voz tinha nível de fonte.

A gente passeava nas origens

[…]

A gente não sabia colocar comportamento nas palavras.
Para nós obedecer a desordem das falas infantis gerava mais poesia do que obedecer as regras gramaticais… [3]

Barros reage com desdém às críticas. O seu fazer poético não se ocupa dos grandes temas nem da estética das paisagens deslumbrantes. O seu quintal é suficientemente vasto e farto de figuras e seres para a sua poesia.

Sobre o nada eu tenho profundidades. Não tenho conexões com a realidade. [4]

Interessante que para mim, a porta de entrada da poesia de Barros foi o quintal. Pouco me recordo dos meus primeiros cinco anos de vida, ainda na Bahia. O quintal da minha casa era um lugar fascinante. Tão fascinante que, na minha vaga lembrança, era um lugar em que eu gostava de ficar sozinho mexendo na terra e olhando com medo o rio que por ali passava. Antes de saber quem era Manoel de Barros, eu sabia o que para uma criança solitária era um quintal. O primeiro poema dele que tive acesso foi este:

O meu mundo é pequeno, Senhor.

Tem um rio e um pouco de árvores.

Nossa casa foi feita de costas para o rio.

Formigas recortam roseiras da avó.

Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas.

Seu olho exagera o azul.

Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas com aves […] [5]

Na tentativa de ler a obra completa de Manoel de Barros, não foram poucos os momentos em que o achei inacessível. Escrevi no canto de um dos livros, num ímpeto de raiva, que ele fazia tipo. Falava tanto de simplicidade, mas era um esnobe enrustido. Lia, porém não conseguia encontrar o veio. Parecia que o autor falava de prazeres naturais, mas interditava o acesso. Enquanto leitor, reclamei do texto inacessível. Disse eu: de modesto, esse não tem nada!

Minha virtude foi não desistir. Continuei, ainda que num pedaço da trajetória achei árido e chato. Compensou ter seguido adiante, ainda que tenha me entediado por um longo percurso.

Nada que um bom banho de cachoeira não refresque. O tédio da poesia é curado com mais poesia. Fiquei encantado como o modo não convencional com que o autor definiu a poesia. E nessa busca fui curando meu enjoo. Em plena Quarta-Feira de Cinzas, redescobrir o prazer da insignificância. Para gostar do que diz Barros é preciso se despir de fantasias e adereços vistosos.

As coisas jogadas fora por motivos de traste são alvo da minha estima.  [6]

Tudo aquilo que a nossa civilização rejeita, pisa e mija em cima, serve para a poesia. [7]

Tenho o privilégio de não saber quase tudo. E isso explica o resto. [8]

O poema é antes de tudo um inutensílio. [9]

xxx

Diante do exposto podemos entender melhor o que quis dizer Manoel de Barros com a teologia do traste. A teologia se ocupa dos grandes temas, transcendentes ou imanentes. Sem cerimônias, o fazer teológico busca racionalizar e dar forma às ideias abstratas. Neste sentido, teólogos não costumam ser modestos e os seus esforços valorizam o que for extremamente importante.

Quanto a Manoel de Barros, “As coisas jogadas fora por motivo de traste são alvo da minha estima.” [10] Uma poesia das coisas concretas, ainda que tratadas e jogadas fora como traste. Uma poesia interessada nas coisas que são frequentemente desprezadas.

O fazer poético de Barros poderia ser adotado como método na teologia: prestar atenção nas coisas ínfimas e nos seres desimportantes. Esse deslocamento do olhar talvez ajude a entender as coisas elevadas do espírito. Mas não se engane, para o poeta, as miudezas não são meros meios, mas decisivamente, são os fins.

Surrealismo pantaneiro demonstrando uma floração de sensibilidades. Dependendo de onde se olha, é natural perceber sutilezas. Barros, do seu lugar, Pantanal Mato-Grossense, descreve sensações aproximadas de algo que podemos tomar como paraíso. Por isso, lida com a “infância da língua” e descreve para os civilizados as “pré-coisas” desse universo aparentemente intocado pelo engenho civilizatório comprometido com as coisas importantes. Nos seus poemas rupestres, o autor fala-nos de uma teologia do traste.

As coisas jogadas fora por motivos de traste são alvo da minha estima. 

Prediletamente latas.

Latas são pessoas léxicas pobres porém concretas.

Se você jogar na terra uma lata por motivo de traste: mendigos, cozinheiras ou poetas podem pegar.

Por isso eu acho as latas mais suficientes, por exemplo, do que as ideias.

Porque as ideias, sendo objetos concebidos pelo espírito, elas são abstratas.

E, se você jogar um objeto abstrato na terra por motivo e traste, ninguém quer pegar.

Por isso eu acho as latas mais suficientes.

[…] [11]

Difícil imaginar um fazer teológico com o frescor do Pantanal. A natureza indomada se manifestando num fluxo estranho para aqueles que estão mergulhados na lógica de produção da modernidade. A pressa tem uma íntima relação com a importância. E quando se desloca a lógica burguesa da produção para a lógica pantaneira da contemplação? Muda a velocidade da vida e surge a possibilidade de notar as insignificâncias.

Talvez exista, mas particularmente eu não conheço, teólogos que se definam como influenciados pelo surrealismo. Vanguardas artísticas seriam experimentais demais para o fazer teológico. O modo da escrita poética que valoriza a não-forma, que estimula os fluxos do inconsciente e que por definição não se reduz à objetividade moderna, talvez haja, mas não conheço a produção teológica neste espírito.

Como a ciência e a democracia, a fé também se manifesta no provisório. Não há qualquer possibilidade de conciliação entre fé e certeza. Importante frisar que o ambiente da fé pode ser assertivo, mas, como não existe uma ciência exata, também não existe uma teologia exata. Os dogmas e declarações doutrinárias têm mais a ver com poder de instituições religiosas do que com a fé. O fato de considerarmos, por exemplo, a incompletude da ciência e da democracia não faz de nós negacionistas em termos científicos ou anarquistas em termos políticos. A fé está mergulhada na ambiguidade, dúvida, enfim, certezas provisórias. E isso não nos torna, necessariamente, céticos ou ateus.

O Surrealismo pantaneiro de Manoel de Barros tem muito a ensinar sobre humildade frente ao Mistério. Ele não teoriza sobre o que não conhece e não tenta sistematizar o que naturalmente é caótico. A modernidade pode ser definida como a capacidade humana de domar a natureza e fazê-la trabalhar ao seu favor. Barros, neste sentido agudo, é antimoderno. A seguir a citação de um poema que pode “funcionar” como profissão de fé do poeta. De miudeza em miudeza aprendemos a admirar a grandeza de um Deus que se revela nos detalhes. Para o poeta, rico não é aquele que descobre ouro, mas sim o que encontra tempo para reparar nas miudezas.

Não precisei ler São Paulo, Santo Agostinho, São Jerônimo, nem Tomás de Aquino, nem São Francisco de Assis – Para chegar a Deus.

Formigas me mostram Ele.

(Eu tenho doutorado em formigas.)  [12]

Diferente de uma teologia valorativa dos sistemas, inspirados em Barros, pensemos em uma teologia contemplativa que não tem problemas com inconcretude, incerteza ou ignorância. Quem sobrevoa o Pantanal não pode afirmar que o conhece. A contemplação deve aguçar o nosso senso do sagrado, sublime, insondável… Experiência mística que ante o Mistério nos torna mais humildes e simples.

No quintal de Manoel de Barros consigo compreender melhor o suspiro comovido de Jesus:

Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. [13]

Jesus também se deixava afetar pelas coisas ínfimas e pelas pessoas desimportantes. Diferente de São Paulo, Santo Agostinho, São Jerônimo e São Tomás de Aquino, Jesus não escreveu grandes tratados teológicos nem estabeleceu dogmas ou declarações doutrinárias. O mestre nazareno demonstrou total desinteresse pelas especulações transcendentais à moda teologia regida por funcionários de magistérios importantes. Não custa lembrar que Jesus não foi adepto da modernidade ocidental judaico-cristã, não conheceu o racionalismo burguês. Sequer, para suavizar, tinha doutorado em formigas à moda Manoel de Barros. O mestre das coisas desimportantes que olhava para as pessoas “invisíveis” tinha doutorado em lírios e pássaros. Diferente de Manoel de Barros, Jesus não tinha um quintal para chamar de seu, simplesmente porque não tinha propriedade. O lírio e o pássaro observados por Jesus eram do campo. Ele os observava, não os possuía.


[1] BARROS, Manoel de. Retrato do artista quando coisa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013. p. 61.

[2] BARROS, Manoel de. Tratado geral das grandezas do ínfimo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013. p. 35.

[3] BARROS, Manoel de. A turma. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013. p. 47.

[4] BARROS, Manoel de. Tratado geral das grandezas do ínfimo, p. 19.

[5] BARROS, Manoel de. O livro das ignorãnças. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013. p. 33.

[6] BARROS, Manoel de. Poemas rupestres. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013. p. 31.

[7] BARROS, Manoel de. Matéria de poesia. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013. p. 11.

[8] BARROS, Manoel de. Menino do mato. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013. p. 33.

[9] BARROS, Manoel de. Arranjos para assobio. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013. p. 11.

[10]BARROS, Manoel de. Poemas rupestres. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013. p. 31

[11] BARROS, Manoel de. Poemas rupestres. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013. p. 31

[12] BARROS, Manoel de. Ensaios fotográficos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013. p. 51.

[13] BÍBLIA. Evangelho de Mateus, 11:25.

Valdemar Figueredo
Editor do Instituto Mosaico, Pesquisador da USP (pós-doc), cientista político e pastor